Serviços têm primeiro resultado negativo do ano, mas continua gerando empregos

Em: 21 de junho de 2023

O setor de serviços do Amazonas tombou em abril, embora ainda continue alavancando a geração de empregos. Foi o primeiro resultado negativo deste ano, após quatro meses consecutivos de alta. A retração chegou a 4,8%, entre março e abril – que teve quatro dias úteis a menos. O levantamento anterior já havia apontado desaceleração, ao pontuar apenas 0,2% de incremento. Em sintonia, houve estagnação ante o mesmo mês de 2022, reduzindo os acumulados do ano (+5%) e dos últimos 12 meses (+7,2%). Os dados são da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), do IBGE.

A queda de volume de serviços foi uma realidade para 26 das 27 unidades federativas, na variação mensal. A média nacional ficou negativa em 1,6% diante de março de 2023, na maior contração para o mês desde 2020 ( -10,9%), no começo da pandemia. O setor, que responde pela maioria dos empregos e empresas, foi puxado para baixo por quatro de seus segmentos. A principal influência veio da divisão de transportes, enquanto os serviços prestados à família sustentaram a única alta. A variação anual (+2,7%) também superou o Amazonas, embora o mesmo não tenha acontecido nos acumulados (+4,8% e +6,8%).

A despeito da nova redução da inflação do IPCA (+0,61%), o comportamento da receita nominal se manteve descolado das vendas. A variação mensal cai 3,8% – depois de crescer 2,7%, em março. A comparação com abril de 2022 indicou aumento de 4,4%, mantendo os acumulados do ano (+9,7%) e dos 12 meses (+13,4%) no azul. O Estado ficou atrás das médias nacionais (-0,4%, +8%, +10,8% e +13,9%) em todas as comparações. 

Vale notar, contudo, que a desaceleração de abril não impediu os serviços de carregarem as estatísticas de empregos no Amazonas, em paralelo aos cortes de vagas em outras atividades. Conforme o Novo Caged, o setor criou 1.948 ocupações com carteira assinada no mesmo mês – para uma oferta estadual de 1.964 empregos. Os destaques vieram das atividades administrativas e serviços complementares (+418), e de atividades profissionais, científicas e técnicas (+317), entre outras. No quadrimestre, o setor gerou 5.753 vagas (+2,67%) no Estado. Segundo o Sebrae, as micro e pequenas empresas (+1.031) responderam por mais da metade das contratações no setor.

Estados e atividades

Com o recuo de 4,8% entre março e abril, o Amazonas caiu para a 16ª para a 20ª posição do ranking. O único dado positivo veio do Ceará (+1%), que foi secundado por Pernambuco e Rio Grande do Norte (ambos com -0,4%). Os piores desempenhos vieram de Acre (-9,1%), Sergipe (-7,1%) e Mato Grosso do Sul (-6,6%). Em relação ao mesmo mês de 2022, o Estado (+5,5%) desceu para a 24ª colocação, marcando a única estagnação de uma lista com o Acre (+11,9%) e o Amapá (-4,2%) nos extremos. O Amazonas (+5%) teve o 17º melhor número do quadrimestre em um rol liderado por Tocantins (+12,9%) e com apenas o Mato Grosso do Sul (-0,2%) no vermelho.

O IBGE-AM reforça que, em virtude do tamanho da amostragem, a pesquisa no Amazonas ainda não apresenta os dados desagregados por segmentos. O retrocesso mensal de 1,6% para os serviços de todo o país se disseminou em quatro de suas cinco atividades. A exceção veio dos serviços prestados às famílias (+1,2%), graças às divisões de alojamento e alimentação (+3,7%) e de “outros serviços prestados às famílias (+3,5%) – especialmente atividades teatrais, musicais e de espetáculos em geral.

Em contraste, a maior influência negativa para os serviços em âmbito nacional veio novamente do segmento de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio (-4,4%), que foi puxado para baixo pelos segmentos rodoviários de passageiros e cargas, assim como o transporte dutoviário e a gestão de portos e terminais. Os subsetores de informação e comunicação (-1%), profissionais, administrativos e complementares (-0,6%) e de “outros serviços” (-1,1%) também encolheram. Correndo por fora, o indicador de atividades turísticas ficou praticamente estagnado (-0,1%).

Investimentos e confiança

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, destaca que os serviços vinham crescendo de forma ininterrupta, desde janeiro de 2022, mas o cenário mudou. “O setor sofreu forte retração, o que não ocorria desde novembro de 2022. Não é possível indicar as causas com precisão, mas isso ocorreu em nível nacional, e que os serviços são fortemente influenciados pela falta de investimento de famílias e empresas”, frisou. “A média móvel trimestral negativa indica que a atividade pode ter enfrentado dificuldades nos resultados de maio, que serão divulgados em julho”, emendou. 

Na análise da ex-vice-presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, o resultado negativo dos serviços em abril acende uma luz amarela. “O setor é fundamental para a economia de qualquer país, sendo responsável por mais de 55% das contratações. Apesar de alguma melhora na geração de emprego e renda no pós-pandemia, a remuneração da mão de obra encolheu. E ainda temos o fantasma da inflação, que impacta o poder de compra e deixa o consumidor mais tímido na contratação de serviços”, avaliou.

A economista pondera que, apesar do tombo, a estimativa ainda é de recuperação gradual, em razão das projeções de crescimento do PIB para os próximos meses e seus impactos na confiança dos agentes econômicos. “Devemos observar as tratativas do novo arcabouço fiscal e as estimativas da S&P Global, que projetou números positivos de crescimento para a economia brasileira, acompanhado de uma inflação menos perversa, o que pode influenciar na retomada da queda dos juros já na próxima reunião do Copom”, analisou.

Obras e passagens

O presidente da ACA (Associação Comercial do Amazonas), Jorge de Souza Lima, lembrou que abril também foi um mês negativo para a indústria do Amazonas, além de apontar um desempenho abaixo do desejado para o comércio local. “Está tudo ligado e, quando a economia não ajuda, nada funciona. Mas, com as obras anunciadas pela prefeitura e pelo governo do Estado, devemos ter desempenhos melhores para os serviços no segundo semestre. O PIM começa a aquecer e deve ajudar o setor a crescer também”, ponderou.   

Em texto da assessoria de imprensa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), a entidade ressalta que a perspectiva de redução dos juros básicos na economia brasileira deve aquecer os serviços no país. A entidade, contudo, reduziu sua estimativa de crescimento, de 4,5% para 4,4%. Já a alta do segmento de turismo foi revisada de 15,2% para 13,9%. Na análise da entidade, uma das principais travas para o setor veio do aumento dos preços das passagens aéreas.  

“Os números demonstram a importância dos serviços para a sociedade brasileira. Além de ser o maior gerador de empregos formais, o setor é também aquele que impulsiona a economia como um todo e foi o primeiro a iniciar a retomada de crescimento no pós-pandemia”, encerrou o presidente da CNC, José Roberto Tadros, acrescentando que não há espaço para aumento de carga tributária para a atividade terciária

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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