O setor produtivo está desconfortável, mas resignado, diante da possibilidade de saída do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB-AM), do comando do Mdic. A substituição começou a ser aventada nos últimos dias, diante da necessidade de acomodar mais partidos do ‘Centrão’ na base de apoio ao governo federal no Congresso. Embora a maior parte das lideranças classistas prefira não entrar em detalhes sobre essa eventualidade, o consenso é que o empresariado anseia por estabilidade e previsibilidade nas ações de governo, e o troca-troca tende a atrasar o andamento de políticas setoriais, além de gerar a necessidade de construção de pontes com o novo escolhido.
Reconduzido à Esplanada dos Ministérios mediante pleito das lideranças do setor produtivo, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços é apenas uma das possíveis moedas de troca. A dança das cadeiras já começou, a partir da troca da guarda no Ministério do Turismo, efetivada há mais de uma semana, após uma longa novela, e tende a envolver também cargos de segundo e terceiro escalão. Um dos postos em disputa é justamente o do titular do Mdic, atualmente ocupado pelo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. O nome do político paulista ganhou consenso entre o empresariado, inclusive no Amazonas, vencidas as apreensões iniciais e pontuais.
Indagado sobre o assunto, o ministro desconversa e diz apenas que a decisão cabe unicamente ao presidente Lula. Pelo que se diz, um provável substituto seria o atual correligionário e ministro de Portos e Aeroportos, Marcio França (PSB). Coincidência ou não, ambos foram condecorados pelo presidente, juntamente com outros ministros, nesta quinta (21). Enquanto isso não ocorre, Alckmin vem crescendo em protagonismo nacional e, nesta terça (25), conduzirá presencialmente os trabalhos do CAS (Conselho de Administração da Suframa), pela segunda vez. Na oportunidade, deve também assinar o contrato de gestão do CBA (Centro de Bionegócios da Amazônia).
“Questões complexas”
O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, diz que questões políticas são complexas e suscetíveis a mudanças repentinas, por isso ressalta que não há como precisar os próximos movimentos do governo. “O Márcio França já foi governador e vice-governador de São Paulo, além de secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do mesmo Estado. É um nome extremamente alinhado com o vice-presidente e ocupa uma pasta de importância estratégica para a indústria. Mas, o mais importante é que não ocorram rupturas abruptas na política industrial do país, e que a pasta traga sempre nomes de convergência”, resumiu.
Na mesma linha, o vice-presidente da Fieam e presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, Nelson Azevedo, pontua que compartilhar a administração do Executivo com partidos políticos da base aliada é normal em um governo de coalizão, o que torna comum a substituição de ministros, sem gerar desconforto no setor. “Quanto à escolha do nome do novo ministro, não temos preferência, pois cabe ao presidente. Confiamos que o escolhido será um nome que estará com credenciais para assumir tamanha responsabilidade que a pasta requer e com diálogo com o setor produtivo”, afiançou.
“Experiência e diálogo”
No entendimento do presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas), Aderson Frota, o integrante do Executivo federal que fala na “linguagem mais próxima do empresariado” é justamente o atual titular do Mdic. “Evidentemente que o governo precisa estabelecer base de apoio no Congresso. Agora, como vice-presidente, Alckmin sempre terá oportunidade de ser ouvido, transmitindo os anseios do setor produtivo. Acho que não há motivo de preocupação tão grave. E o presidente da República tem demonstrado grande compreensão e acolhida às sugestões do ministro. Na nossa percepção, o quadro se mantém e o governo está conseguindo restabelecer a confiança”, frisou.
Mais veemente, o presidente da assembleia geral da ACA (Associação Comercial do Estado do Amazonas), Ataliba David Antonio Filho, reforça que a eventualidade de uma substituição com peso apenas político poderia gerar desdobramentos negativos. “A experiência bastante significativa e a vivência de maneira integral no Executivo, como vice-presidente, credencia o ministro a exercer a titularidade do Mdic, pela sua inigualável experiência em negociações e diálogo. Acho que o setor terciário reagiria de maneira negativa, uma vez que Alckmin teria todas as características para o preenchimento do cargo, o que não seria o caso dos parlamentares do ‘Centrão’”, avaliou.
O presidente do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Amazonas), Frank Souza, enfatiza que a questão não envolve diretamente o setor, para o qual o Ministério das Cidades é mais vital. Para o dirigente, a maior preocupação está na mudança de comando da Caixa Econômica. “O ministro Jader Filho está fazendo um ótimo trabalho e há as novas regras do Minha Casa Minha Vida saindo, assim como a determinação de verbas para a construção. A parte política dessas trocas é um pouco temerosa, pois precisamos de programas e ações que sinalizem segurança ao empresário. Mas, vamos aguardar”, ponderou.
“Ambições nacionais”
O cientista social Breno Rodrigo de Messias Leite, concorda que a questão é complexa, mas salienta que Alckmin já não pode mais ser rotulado como “político paulista, ou ‘sudestino’”, mas de “ambições nacionais”. “Essas pontes que ele construiu com as lideranças do Amazonas gerou um saldo muito positivo. Mas, o Mdic é muito técnico e está atrelado ao Ministério da Fazenda e uma eventual substituição não deve gerar grande alteração, ou um ‘cavalo de pau’, no que está sendo feito até então. Uma eventual mudança geraria novo diálogo com o próximo ministro, sem confrontações. E o Alckmin talvez voltasse à articulação política do governo, mas isso é especulação”, analisou.
Já o sociólogo, analista político e advogado, Carlos Santiago, tem avaliação semelhante. “Alckmin foi um um homem que sabe articular e uma pessoa muito previsível, pois toma decisões ponderadas. Tem uma ótima relação com a classe empresarial e com o Congresso. Ele vem cumprindo os acordos com os governadores e parlamentares, agindo com muita paciência. Sua possível saída seria uma perda. Mas, seja quem for o novo ministro, ele vai conduzir o Mdic a partir da orientação da Presidência da República, que já encaminhou o Arcabouço Fiscal e a reforma Tributária, além de contemplar os interesses do Amazonas. O momento é de muito dialogo”, finalizou.







