Interior perde espaços de trabalho 

Em: 11 de agosto de 2023

Puxado pelo setor de serviços, o interior do Amazonas conseguiu fechar o primeiro semestre com saldo positivo de empregos com carteira assinada. Mas, o resultado veio muito mais fraco do que o do ano passado, além de confirmar que os municípios perderam ainda mais terreno para a capital amazonense em 2023. No período, a diferença entre as contratações (+11.403) e as demissões (-10.443) gerou variação positiva de 2,30% sobre o estoque anterior e 960 novas vagas. O dado correspondeu a menos da metade do registro de igual acumulado do exercício anterior (+2.096 e +5,45%). 

Junho, por outro lado, foi mês de estagnação e impulso quase limitado ao comércio e à indústria. Embora tenha confirmado um quinto saldo positivo consecutivo, a diferença entre as admissões (+1.527) e os desligamentos (-1.526) se traduziu na geração de apenas um único e escasso emprego formal (+0,002%) – o segundo pior número de 2023. Foi uma performance pior do que a de maio de 2023 (+364 e +0,87%) e, principalmente, de 12 meses atrás (+569 e +1,48%). Os dados são do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Previdência.

Os municípios do Amazonas que mais ofereceram novas oportunidades de trabalho foram Iranduba (+493), Tabatinga (+492), Manacapuru (+301) e Parintins (+196). A mesma base de dados confirma que o interior não apenas gerou menos empregos do que a capital amazonense – que já é uma situação estrutural – como também reduziu ainda mais o seu ritmo em relação ao mercado de trabalho desta. De janeiro a junho, a cidade somou 8.075 vagas celetistas e um avanço de 19,35% sobre os estoques. Em julho, a progressão foi de 5,22% em Manaus, gerando saldo positivo de 2.180 novos postos de trabalho.

Estoques e atividades

Entre os 61 municípios interioranos, só 36 fecharam o semestre com mais contratações do que demissões. Apenas 2 pontuaram estabilidade e nada menos do que 23 extinguiram empregos. Em quase metade das cidades que atingiram saldo positivo, o volume de vagas não passou da casa de um dígito. A exceção veio principalmente de Iranduba (+493 e +17,70%), Tabatinga (+492 e +13,16%), Manacapuru (+301 e +9,41%) e Parintins (+196 e +6,19%). Em contrapartida, o pior número ficou em São Gabriel da Cachoeira (-803 e -137,97%). Em junho, 34 municípios conseguiram fechar no azul, sendo que os extremos ficaram em Iranduba (+70 e +2,18%) e em Parintins (-152 e -4,32%).  

Apenas três dos cinco setores econômicos conseguiram saldos positivos no somatório dos municípios do interior do Amazonas, no primeiro semestre. As contratações foram embaladas pelos serviços, com a abertura de 941 (+2,25%) novas vagas com carteira assinada. Em uma distante segunda posição, a indústria criou 261 (+0,62%) postos de trabalho. Já o comércio teve saldo positivo de 116 ocupações (+0,28%) – em sentido contrário ao registrado em Manaus (-368). Em contrapartida, construção (-229 e -0,55%) e agropecuária (-129 e -0,31%) eliminaram empregos.  

Dinâmica semelhante se deu nos números de junho, que apontou avanço de contratações também para comércio (+31) e indústria (+18), embora os serviços (+1) tenham permanecido praticamente estáveis. No outro extremo, construção (-36) e agropecuária (-12) promoveram cortes. A oferta de empregos em Iranduba foi puxada pelos serviços de lavanderias (+23) e de transporte terrestre (+8), assim como pela indústria de transformação (+17). O tombo sofrido por Parintins se deu principalmente nos serviços de atividades de organizações associativas ligadas à cultura e à arte (-162).

Os números do Novo Caged confirmam ainda que a oferta de trabalho formal no interior do Amazonas também segue estruturalmente concentrada. A soma dos estoques de empregos – que é a quantidade total de vínculos celetistas ativos – de apenas sete municípios corresponde a mais da metade de todo o volume de vagas com carteira assinada contabilizadas fora da capital (43.153). A lista inclui Itacoatiara (5.100), Tabatinga (3.565), Manacapuru (3.499), Iranduba (3.280), Parintins (3.341), Presidente Figueiredo (3.253) e Humaitá (2.379).

Sazonalidade e informalidade

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, avalia que o saldo de empregos do interior está aquém do esperado, e que o fato de 23 dos municípios apresentarem déficit de vagas reflete a dificuldade da retomada do mercado de trabalho estadual. A economista ressalta ainda que o valor médio dos salários também vem apresentando redução em relação aos anos anteriores, impactando direta e indiretamente no poder de compra das famílias e no crescimento da economia regional.

“Para o segundo semestre, que se inicia, esperamos melhora quantitativa nas contratações em função de datas comemorativas e definições no âmbito macroeconômico nacional o que impactará positivamente sobre a economia e alavancará o cenário das contratações. Ademais, com a possibilidade da retomada da queda na taxa Selic, espera-se uma corrida ao crédito por parte dos empresários, de forma a ampliar sua atividade e realizar novos investimentos, alavancando a demanda por mão de obra”, analisou.

O ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, avalia que os números confirmam que o interior continua precisando urgentemente de políticas públicas para atrair atividades econômicas e gerar empregos. “Falta infraestrutura e Manaus continua atraindo empregos, em função da ZFM. Por isso, considero positiva a ligação de internet no interior. Muitos municípios começam a desenvolver, de forma tímida, o turismo. E há planejamento até para a mineração”, ponderou.

No entendimento da consultora empresarial, professora e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, os dados locais do Novo Caged corroboram uma tese já delineada em ocasiões anteriores pela economista: o de que o emprego com carteira assinada está em “linha decrescente” e que essa realidade acaba “mascarando um pouco” as estatísticas do MTE.

“Os postos de trabalho estão sendo substituídos pela informalidade, principalmente no interior do Estado. E também pelos MEIs [microempreendedores individuais], que não geram custos tributários adicionais para os empregadores, com encargos e benefícios. O que me causa uma certa estranheza é que Parintins [que aparece com saldo negativo de empregos formais] deveria estar no auge das contratações em junho, por causa do Boi. A gente entende que todos estão na informalidade, ou na linha do meio”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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