O custo do metro quadrado da construção no Amazonas sofreu repique inflacionário, em setembro. O valor médio avançou de R$ 1.750,57 para R$ 1.779,03, e ficou 1,63% acima de agosto. Um mês atrás, a atividade havia registrado sua primeira deflação mensal (-0,20%) desde o começo da pandemia. Em contraste, a média nacional (+0,02%) seguiu perdendo força e mal se moveu, em um mês de alta de 0,26% para a inflação do IPCA. É o que revela a pesquisa do Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil), do IBGE.
A constatação é que os impactos logísticos da vazante histórica ainda não geraram reflexos nos preços da construção amazonense. Pelo segundo mês seguido, o aumento foi puxado exclusivamente pela mão de obra (R$ 682,83), que ficou 7,33% mais cara. Em contrapartida, os insumos (R$ 1.096,20) reduziram seus preços em 1,63%. A expectativa do setor, no entanto, é que o encarecimento do frete por conta dos entraves no transporte fluvial de cargas já se faça sentir no indicador do IBGE nos próximos meses. Ainda mais com o anunciado aumento de 6,6% no preço do diesel, nas refinarias da Petrobras.
Em nove meses, os dispêndios da construção civil do Amazonas já acumulam reajuste de 5,97%, performando quase o triplo do registrado pelo Sinapi nacional (+2,06%) e superando com vantagem significativa a inflação oficial (+3,50%). Em 12 meses, os preços já avançaram 8,48% no Estado – contra 2,68%, no restante do país. Índice de Preços ao Consumidor Amplo, por sua vez, teve expansão de 5,19%.
Acima da média
Com a taxa de expansão mensal muito acima da média brasileira, o Amazonas (+1,63%) decolou do penúltimo para o segundo lugar do ranking nacional de altas dos preços da construção. Ficou atrás apenas de Alagoas (+1,78%), em uma lista com uma estabilidade e nove deflações – sendo que a menor variação ficou em Pernambuco (-0,61%). O Estado registrou o maior aumento do país, tanto no acumulado do ano (+5,97%) quanto no aglutinado dos 12 últimos meses (+8,48%) – com o Mato Grosso (-0,19%) e Bahia no extremo oposto, nos respectivos comparativos.
Os aumentos mensais consecutivos nos meses anteriores mantiveram o Amazonas (R$ 1.779,03) como uma das 12 unidades federativas com o custo por metro quadrado acima da média brasileira (R$ 1.713,87). O Estado subiu da 11ª para a décima posição do ranking brasileiro, sendo o quinto mais caro da região Norte. Os maiores números do país estão em Santa Catarina (R$ 1.976,94), Rio de Janeiro (R$ 1.892,67) e Acre (R$ 1.872,14). Em sentido contrário, os dispêndios médios mais baixos se situaram em Sergipe (R$ 1.522,85), Alagoas (R$ 1.557,17) e Piauí (R$ 1.567,78).
Com a nova queda, o preço médio dos insumos (R$ 1.096,20) fez o Estado recuar da terceira para a sexta posição, embora continue batendo com folga a média nacional (R$ 998,17). O rol foi aberto pelo Acre (R$ 1.192,06) e encerrado por Sergipe (R$ 933,02). O oposto se deu na mão de obra, rubrica na qual o Amazonas (R$ 682,83) segue bem atrás do dado brasileiro (R$ 715,70), apesar de ter avançado da 19ª para a 11ª colocação. Santa Catarina (R$ 895,20) e Sergipe (R$ 589,83) ficaram nos extremos da lista.
“Descolado do país”
O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, reforça que desde fevereiro o custo da construção do Estado não apresentava uma elevação tão significativa. “O índice do Amazonas em setembro descolou do restante do país, exclusivamente em função de reajuste para a mão de obra. Não fosse por isso, o indicador seria bem baixo e até mesmo negativo. Os números estão bem acima da inflação e, aos poucos, o Amazonas se aproxima de unidades federativas com valores mais elevados para a atividade”, alertou.
Em texto postado na Agência de Notícias IBGE, o gerente da Sinapi, Augusto Oliveira, ressalta que a queda de 0,28 ponto percentual na parcela da mão de obra do indicador nacional foi influenciada por um menor número de acordos coletivos em relação ao mês de agosto – embora o oposto tenha ocorrido com os dois primeiros colocados do ranking. “Com o acordo coletivo firmado e alta na parcela dos materiais, Alagoas ficou com a maior taxa entre os Estados. Foi seguido pelo Amazonas, que também ficou sob a influência de reajuste nas categorias profissionais”, pontuou.
Impacto da vazante
Em entrevistas à reportagem, do Jornal do Commercio, o presidente do Sinduscon-AM (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Amazonas), Frank Souza, assinalou que os dispendidos com mão de obra costumam aumentar por dois motivos. Um deles é o reajuste salarial, seja por acordo ou por dissidio. O outro é a fase em que se encontram as obras no Estado, uma vez que as etapas finais tendem a exigir profissionais mais especializados e melhor remunerados.
Em nova entrevista, o dirigente observou que os impactos da mudança climática geram uma produção e produtividade menor para a mão de obra e um consequente aumento no custo proporcional desta. A estimativa é que rendimento profissional por metro quadrado de assentamento/produção no Amazonas fique 35% abaixo da média apresentada pelas construtoras do Centro-Sul brasileiro. Hoje, essa diferença é de 20% a 30% e essa lacuna, acrescida da escassez de mão de obra, também costuma elevar os prazos das obras. Frank Souza alerta que esses fatores, aliados à estiagem recorde de 2023, tende a gerar mais inflação nos próximos meses.
“Isso se dá pelo aumento do custo do transporte. Essa relação da seca dos rios desde já tende a encarecer o frete. Quanto mais durar a vazante, e menos navios aportarem por aqui, mais difícil será para o setor, pois não temos efetivamente uma ligação rodoviária com o restante do país. Os navios estão voltando, e esse é um fator. Mas, eu diria que os próprios materiais minerais das regiões vizinhas, como seixo e calcário, também devem influenciar o indicador, baseado no componente frete. Há também o preço do combustível, que é uma variação internacional, também está subindo”, finalizou.







