O otimismo do comércio de Manaus derreteu pelo segundo mês consecutivo em novembro. Os dados locais do ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), levantados pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) apontam uma queda mais acentuada do que a registrada pela média nacional, a despeito do afastamento gradual da crise hídrica, e da aproximação das festas de fim de ano. A piora foi puxada pela percepção sobre as condições atuais da economia, mas voltou a contaminar as expectativas, assim como as intenções de contratar e investir.
Manaus aparece com 104,3 pontos no levantamento, sendo que valores acima de 100 pontos ainda indicam satisfação. Com isso, o indicador retrocedeu 3,1% em relação a outubro de 2023 (107,6 pontos) e já apresenta o pior escore do ano. O recuo em relação à marca do mesmo mês de 2022 (144,7 pontos) foi de 27,92%. O otimismo é menor nas empresas com mais de 50 funcionários e que vendem bens não duráveis. Na média brasileira (110,3 pontos), o indicador também andou para trás, mas deu menos passos: caiu 1,9%, na variação mensal, e 16,4%, em relação a novembro do ano passado.
A nova inflexão negativa do ICEC ocorre no mesmo mês em que o indicador do ICF (Intenção de Consumo das Famílias), da mesma CNC, confirmou sua 17ª alta mensal, sendo alavancado basicamente pelo consumidor com até dez salários mínimos de renda familiar. Houve uma leve melhora na percepção sobre renda, emprego e intenção de adquirir bens duráveis, em detrimento do acesso ao crédito. Já a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma entidade, indicou o sétimo declínio no nível de endividamento, que corresponde a 78,4% (516.085) das famílias manauenses. Mas, a inadimplência sofreu mais um repique e subiu para 41,1% (270.867).
Empregos e investimentos
Seis dos nove subcomponentes do indicador de confiança do comerciante derreteram em Manaus, sendo que cinco deles estão no nível de insatisfação. A piora mais acentuada vem das percepções dos comerciantes sobre as condições atuais da economia brasileira (-13,2% e 57,5 pontos) da empresa (-9% e 85,8 pontos) e do comércio (-8% e 68,6 pontos). Fonte de insatisfação frequente nos levantamentos anteriores, e foco de maior preocupação a partir da vazante histórica, a situação dos estoques (98,8 pontos) estabilizou, em sintonia com a subida dos rios.
Mas, o pessimismo voltou a contaminar a visão de médio prazo. A despeito da aproximação do Natal, o ICEC aponta decréscimos nas expectativas para a economia brasileira (-1,2% e 130,2 pontos) e nos subindicadores relativos ao nível de investimentos dos lojistas (-4,8% e 92,6 pontos) e à contratação de funcionários (-2,3% e 124 pontos). Os tímidos dados positivos do mês se restringiram às expectativas dos comerciantes em relação ao setor (+0,3% e 142,2 pontos) e à empresa (+1% e 152,5 pontos).
A maioria dos varejistas locais ainda considera que as condições atuais da economia “pioraram muito” (45,1%), ou que “piorou um pouco” (29,2%), deixando para trás os grupos que apontam que a situação “melhorou um pouco” (16,5%) ou “melhorou muito” (9,1%). A visão predominante dos empresários do comércio da capital amazonense a respeito do setor também é de piora extrema (35,9%), mas a estimativa média predominante para as empresas ainda é de melhora relativa (32,2%).
Apesar dos recuos, a pesquisa ainda mostra um panorama melhor para as expectativas de um futuro que teima em ficar longe. Aumentou o percentual de comerciantes que apostam que a economia brasileira vai “melhorar muito” (43,1%) ou, ao menos, “melhorar um pouco” (25,2%). Mas, os grupos de empresários que cravam que vai “piorar muito” (19,4%) ou que vai “piorar um pouco” (12,3%) não perderam adeptos. As projeções empresariais que pesam mais para o comércio e para os estabelecimentos também são de progressos mais significativos (42,8% e 49,1%, na ordem) e continuam avançando.
Apesar do retrocesso do subindicador de contratação de funcionários, a parte majoritária dos lojistas ainda aponta que seus quadros devem “aumentar um pouco” (45,7%). A parcela dos que dizem que pode “reduzir um pouco”, entretanto, se elevou para 26%. Em contraste, as visões predominantes para o investimento seguem cravando que ele pode ser “um pouco menor” (31,9%). O entendimento sobre a situação dos estoques parou de piorar, mas somente 56,9% dizem que está “adequado”. Outros 28,4% informam que está acima do ideal –em função de vendas fracas –e 13,2% apontam que está abaixo dessa marca –em virtude da estiagem e da baixa capacidade de investimentos.
“Risco fiscal”
Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, avaliou que os números de Manaus caíram principalmente em função da seca e seus impactos sobre a vida do comerciante da capital. Mas, ressalvou também que o fim da crise hídrica, associada à sazonalidade positiva, indicadores positivos de emprego e recuperação de endividamento tendem a trazer o otimismo de volta. “Já temos sinais de que a Black Friday vai ser melhor do que no ano passado e nos encaminhamos para o Natal. Em conversa com empresários, imaginamos que podemos ter um crescimento de 15% a 20%”, amenizou.
Em texto divulgado pela assessoria de imprensa da CNC, aponta que todos os subindicadores do Icec sofreram queda na média nacional, apesar do aumento das expectativas de faturamento nas festas de fim de ano. O economista-chefe da CNC, responsável pelo levantamento, Felipe Tavares, explica que seis em cada dez empresários percebem uma piora na atividade econômica e no desempenho das vendas, refletindo as incertezas do panorama atual.
No mesmo texto, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, assinala que o setor enfrenta perspectivas desafiadoras nos próximos seis meses, em um cenário de cautela. “O risco fiscal, os juros ainda elevados e a possível majoração dos tributos, advinda da reforma tributária, por exemplo, são fatores que contribuem para um sinal de alerta. O índice que mede as expectativas futuras do empresário do comércio teve redução de 0,6%, sendo a maior queda desde abril de 2021”, concluiu, ressalvando que os resultados da Black Friday e o Natal podem trazer mais otimismo.







