O consumidor de Manaus ficou menos endividado, pelo sétimo mês consecutivo, em outubro. Mas, a lista de negativados registrou sua segunda alta seguida. Ao menos 78,4% (516.085) das famílias da cidade relataram ter contas a vencer –contra 80,7% (531.021) de setembro. O patamar já se aproxima ao de 12 meses atrás (77,1% ou 500.404). A proporção de consumidores com renda abaixo de dez salários mínimos e que estão nessa situação subiu de 76,5% para 78,8%, em um ano. O contrário ocorreu com os que ganham mais (73,8%), embora estes sigam como os mais ‘pendurados’ em cartões e carnês.
A fatia de famílias com contas atrasadas chegou a 41,1% (270.867), avançando frente a setembro de 2023 (37,6% ou 247.184) e outubro de 2022 (35,1% ou 228.084) –quando as taxas de juros e da inflação estavam mais elevadas. A proporção de consumidores sem condições de pagamento também cresceu e chegou a 16,3% (107.633). A inadimplência se disseminou igualmente nas duas faixas de renda, mas o percentual de manauenses que não poderão pagar a próxima fatura é maior entre os mais pobres. É o que revela a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A capital amazonense teve uma progressão acompanhou a média nacional, embora sustente percentuais mais elevados. Segundo a sondagem, a taxa de endividamento do consumidor do Brasil encolheu de 77,4% para 76,9%, na variação mensal e chegou ao menor nível desde fevereiro do ano passado (76,6%). Ao contrário do ocorrido em Manaus, o percentual de consumidores inadimplentes desceu nas variações mensal e anual, para 29,7%. A parcela de brasileiros já sem fôlego para quitar débitos estacionou em 13%, mas esse é o maior nível desde janeiro de 2010.
A nova queda da Peic soma-se à 16ª alta consecutiva da ICF (Intenção de Consumo das Famílias) de Manaus, também da CNC. No mês do Dia das Crianças, foram registradas melhoras na percepção sobre renda e emprego, e progressos mais tímidos no acesso ao crédito e aquisição de bens duráveis. Mas, contrasta com o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), que é medido pela mesma entidade. O humor dos lojistas derreteu, após quatro meses de altas tímidas, com piora na percepção sobre as condições atuais do setor e a saúde da empresa, e também nas expectativas.
Cartões e carnês
A CNC informa que o cartão de crédito estabilizou sua participação no bolo das dívidas e continua sendo fator predominante no endividamento do consumidor de Manaus. Ele respondeu por 66,2% das dívidas locais –contra os 66,5% de setembro. Esse tipo de endividamento também é ainda maior entre as famílias de maior renda (81,4%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), o cartão de crédito ainda é a modalidade de financiamento mais cara do país, com juros mensais de 14,91% (430,02% anuais).
Os carnês (47,6%) reduziram a participação entre os débitos das famílias de Manaus, mas mantiveram a vice-liderança, sendo impulsionados também pelos que recebem mais (52,5%). O crédito pessoal (15,9%) também caiu nas preferências, mas continua em terceiro lugar, sendo seguido por “outras dívidas” (10,7%), financiamento de carro (9,7%), cheque especial (7,7%), crédito consignado (7,4%) e financiamento de casa (4,8%). Invenção brasileira, e tradicionalmente de uso exclusivo dos mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,9% sofreu repique e passou a ser preferido pelos mais ricos (1,7%).
Com a nova queda da Peic, o percentual de consumidores que se dizem “muito endividados” reduziu para 23,9%, sendo essa uma condição ligeiramente mais comum entre as famílias de menor renda (24,1%). A fatia dos “pouco endividados” (35,9%) aumentou e ainda é majoritária, além de praticamente empatar nas duas faixas de renda. O grupo dos que se declaram “mais ou menos endividados” voltou a encolher e chegou a 18,7%.
Em média, as famílias de Manaus devem levar 29 semanas para quitar as dívidas –contra 30, em setembro. Predomina a fatia majoritária e cadente dos consumidores que esperam levar mais de um ano (29,1%) para isso. Mas, a faixa dos devedores com até três meses de compromissos adiante (28,3%) já está quase empatando. O comprometimento médio da renda dos consumidores caiu para 32,4%. Em torno de 28% gastam mais da metade do que ganham, mas esse grupo ainda é superado com folga pelos que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (52,5%).
Entre os endividados, 52,5% caíram na inadimplência, número muito maior do que o do levantamento anterior (46,5%). Apenas 23,1% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 36,9% estimam que vão pagar parcialmente, e 39,7% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas estão atrasadas há 61 dias, sendo que a maioria dos entrevistados em Manaus (38,6%) está pendente entre 30 e 90 dias, ou até acima dessa faixa (37,8%).
“Gorduras e anomalias”
O presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, pondera que o endividamento das famílias de Manaus segue alto, embora o volume esteja reduzindo gradualmente. “Isso é muito bom, porque ainda há gorduras e anomalias a serem resolvidas e extirpadas, como os bancos e cartões de crédito quererem jogar sobre o consumidor 450% anuais em caso de inadimplência. Isso é praticamente impossível de ser pago. O governo tem um programa que está sendo desenvolvido com muita propriedade e bons resultados, que ainda está dentro de uma camada muito incipiente e com valores pequenos, mas que tende a evoluir”, avaliou.
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNI, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, salienta que o panorama melhorou e que o setor ainda tem desafios a serem enfrentados. “No cenário econômico em evolução, o controle da inflação e o mercado de trabalho favorável têm melhorado a renda das famílias brasileiras, levando menos consumidores a buscar o crédito”, afirmou. “No entanto, a gestão eficaz das dívidas e a redução da inadimplência continuam sendo desafios importantes a serem enfrentados no futuro próximo”, emendou.
No mesmo texto, a economista da CNC Izis Ferreira concorda que a maior estabilidade da moeda e o fato de o mercado de trabalho formal absorver “trabalhadores de menor instrução” ajudam a conter os indicadores de endividamento e inadimplência do país. “As políticas de transferência de renda, como a valorização do Bolsa Família e os saques alternativos do FGTS, têm contribuído para aumentar a renda disponível e reduzir o número de consumidores endividados”, finalizou.







