Mulheres têm desafios profissionais

Em: 11 de março de 2024

Em 2022, as mulheres residentes no Amazonas dedicaram 20,4 horas semanais aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos. Em média, elas consumiram 7,7 horas a mais que os homens, para o mesmo fim. Com isso, a carga semanal de trabalho para uma amazonense que trabalha diariamente e precisa cuidar de sua casa, marido e filhos chegou a 57,7 horas. A dedicação é maior entre as mulheres de 60 anos ou mais (20,8 horas) e entre afrodescendentes e “pardas”. A revelação vem do estudo trienal “Estatísticas do Gênero”, divulgado pelo IBGE, em comemoração ao Dia da Mulher (8).

A mesma base de dados mostra um panorama desfavorável para o gênero feminino em várias frentes. O desemprego atinge maior proporção entre elas do que entre eles, em todo o Brasil, sendo que o Amazonas conta com o segundo maior percentual de mulheres não ocupadas da região Norte. A situação não é melhor em termos de representatividade no poder público e liderança na iniciativa privada. Nenhuma mulher integra a bancada amazonense no Congresso, há somente cinco prefeitas eleitas em todo o Estado. As mulheres que ocupam cargos gerenciais nas empresas ganham mais, porém são minoria. 

O Amazonas é o terceiro no ranking dos Estados do Norte onde as mulheres dedicam mais horas aos cuidados com as pessoas e aos afazeres domésticos. Rondônia (20,9 horas) e Amapá (16,1 horas) ficaram nos extremos, sendo que em todos os casos os homens ficaram com a média bem abaixo do contingente feminino. O Nordeste é região brasileira com maior desigualdade e o número mais alto para as mulheres (23,5 horas). Segundo o IBGE, as mulheres “pretas” ou “pardas” dedicaram 1,6 hora a mais por semana nessas tarefas do que as brancas em todo o país, em tendência replicada em âmbito estadual.

Mulheres amazonenses “pretas ou pardas” tiveram maior dedicação a afazeres domésticos e cuidados com pessoas (17h) do que as de cor branca (16h).

Dentro do grupo das mulheres ocupadas, as amazonenses dedicam 17,7 horas semanais para cuidados e afazeres – contra as 12,3 horas contabilizadas entre os homens. “O dado indica o quanto a carga de trabalho das mulheres é alta, já que além do trabalho normal, elas dedicam várias horas para cuidar da casa e das pessoas”, assinalou o IBGE-AM, no texto de divulgação da sondagem.

Estudo e trabalho

No Amazonas 30,6% das jovens de 15 a 24 anos não estudavam, não estavam ocupadas e não estavam em treinamento, no ano passado. É um percentual mais alto do que o percebido entre os homens (18,1%), no mesmo período. O desemprego feminino era maior entre as “brancas” (19,1%) do que entre “negras” e “pardas” (16,3%). 

As mulheres de 25 a 54 anos que cuidam de crianças de até seis anos têm o menor nível de ocupação (51,6%). As amazonenses nessa faixa etária e sem filhos apresentaram taxa maior (56,2%). Essa diferença era menor entre os homens da mesma idade (85,5% e 81,6%, respectivamente). Entre as regiões do país, o maior nível de ocupação de mulheres sem criança de até seis anos no domicílio foi a região Sul (74,4%), seguida por Sudeste (70,9%), Centro-Oeste (70,4%), Norte (63,1%) e Nordeste (54,5%). Os extremos ficaram no Distrito Federal (76,3%) e na Paraíba (50,1%).

Em contraste, as mulheres levam vantagem em termos de educação – pelo menos no âmbito nacional. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, o placar de frequência escolar foi de 92,5% contra 91,9%. Entre a população de 18 a 24 anos, as proporções eram de 32,6% e 28,1%, na ordem. Em 2022, 35,5% dos homens com 25 anos ou mais não tinham instrução ou não tinham concluído o nível fundamental – contra 32,7%, no contingente feminino. Nessa mesma faixa etária, o ensino superior era uma realidade para 16,8% dos homens e 21,3% das mulheres. O IBGE não divulgou os respectivos percentuais para o Amazonas.

Representatividade e liderança

A representatividade na vida pública foi um indicador utilizado para monitorar o alcance da meta de assegurar igualdade nas estruturas de poder e processos decisórios. Nenhuma das oito cadeiras que o Amazonas tem na Câmara dos Deputados é ocupada por mulheres. No Norte, apenas o Pará se destacou, com mulheres ocupando cinco dos 17 assentos que o Estado vizinho tem na casa legislativa federal. Em todo o país, o maior quantitativo foi identificado em São Paulo (14 dos 69 deputados), seguido por  Minas Gerais (nove mulheres entre as 53) e Rio de Janeiro (nove mulheres dos 47). 

O mesmo se dá nos Executivos municipais. Apenas cinco ocupam cargos de prefeitas, entre os 61 municípios do Amazonas, desde a última eleição, representando uma proporção de 8,2%. Dentro da região Norte, os destaques positivos vêm, proporcionalmente, de Pará (29), Tocantins (20) e Roraima (4). No país, somente 12,1% das prefeituras estavam ocupadas por mulheres, sendo que 66,9% delas eram mulheres brancas.

A situação não é muito melhor na ocupação dos postos da iniciativa privada. Em um universo de 35 residentes do Amazonas, a proporção de mulheres em cargos gerenciais (38%), também ficou bem abaixo do percentual masculino (62%). Mas, houve uma relativa mexida em relação ao placar de dez anos atrás – 34,1% a 65,9%, em uma amostragem de 46.000 pessoas. No país, a proporção de mulheres em cargos gerenciais em 2022, foi de 31% (508 mil cargos) na indústria em geral. 

De acordo com o levantamento, apesar de estarem em menos cargos gerenciais, em média, as mulheres que conseguiram se destacar ganhavam R$ 337 a mais que os homens na mesma posição no Amazonas. Entre os Estados da região Norte, o Pará apresentou o melhor rendimento médio para mulheres em cargos gerenciais (R$ 6.503), seguido pelo Amazonas (R$ 6.268,00) e pelo Amapá (R$ 6.184,00).

“Escolhas condicionadas”

O supervisor de disseminação de informações do IBGE-AM, Adjalma Nogueira Jaques, enfatiza que, seguindo a média nacional, as amazonenses dedicam mais de 20 horas semanais com afazeres domésticos e cuidado de pessoas. “A carga aumenta muito quando ela é empregada. Se tem um emprego de 40 horas, dedicará mais 17,7 horas para cuidar de casa, fechando a semana com 57,7 horas trabalhadas. Mas, proporcionalmente, o desemprego penaliza mais os homens que as mulheres. Quando consideramos a cor, as brancas têm uma taxe de desocupação maior que as prestas e pardas”, ponderou.

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, a coordenadora geral da sondagem, Barbara Cobo, ressalta a relação entre a dedicação feminina às tarefas domesticas e cuidados, com suas decisões futuras em relação aos estudos e à profissão. “São escolhas condicionadas. O fato de serem criadas para cuidar faz com que acabem selecionando cursos que continuem fazendo cuidado. O fato de não serem muito bem representadas nas carreiras e mais valorizadas no mercado mostra isso. E dedicar mais tempo aos afazeres faz com que sobre menos tempo para o trabalho”, arrematou, acrescentando que a presença feminina é mais forte em cursos como Serviço Social (91%).

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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