Endividamento e inadimplência do consumidor de Manaus registram terceiro avanço seguido

Em: 12 de março de 2024

O nível de endividamento do consumidor de Manaus avançou pelo terceiro mês consecutivo em fevereiro, em um mês de nova piora também para os índices locais de inadimplência e insolvência. Ao menos 551.890 das famílias da cidade, o equivalente a 83,4% do total, estão com contas a vencer. É uma marca superior à de janeiro (81,9% ou 541.311), embora esteja abaixo da de fevereiro de 2022 (88,4% ou 576.674). A situação piorou para a fatia com renda abaixo de dez salários mínimos, puxada pelos carnês. Mas, a predominância de dívidas com cartão de crédito ainda é maior entre os que ganham mais.

A parcela de famílias com contas atrasadas, por outro lado, teve sua sexta alta seguida e cresceu para 53,1% (351.469) – contra os 50,7% de janeiro de 2024 (334.743) e os 49,5% de fevereiro de 2023 (323.215). A proporção de consumidores sem condições de pagamento também subiu e chegou a 20,4% (134.868). A inadimplência avançou nas duas faixas de renda, mas é maior no grupo dos mais pobres. É o que revelam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

A capital amazonense foi na contramão da média nacional do indicador. O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer em meios de pagamentos diversos caiu de 78,1% para 77,9%, na variação mensal, e também ficou menor do que o dado de 12 meses atrás (78,3%). Ao contrário do ocorrido em Manaus, o percentual de inadimplentes (28,1%) também declinou em ambas as comparações. Já a parcela de consumidores sem fôlego para as contas (11,9%) ficou praticamente estável frente a janeiro, mas continua superior ao patamar de um ano atrás.

A nova inflexão negativa da Peic em Manaus coincide com o primeiro tropeço do ICF (Intenção de Consumo das da Famílias) local – também da CNC –, após 19 meses de altas. O revés ocorreu em sintonia com o aperto nas contas de começo do ano, contaminando as percepções sobre renda, consumo, emprego e acesso a crédito, especialmente entre quem ganha até dez salários mínimos. Já o ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), que é apurado pela mesma entidade, reforçou alta e esboçou melhora na visão sobre a economia e na intenção de investir, em detrimento da vontade de contratar.

Cartões e carnês

O cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas, mas ainda é o motor do endividamento em Manaus, em sintonia com a praticidade, apesar dos custos. Respondeu por 65,6% das dívidas locais – contra os 63% de dezembro – e seu uso é ainda maior entre as famílias de maior renda (86,4%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 14,74% (e 420,69% anuais). E, apesar das quedas seguidas na Selic, os juros continuam subindo nessa modalidade.

Os carnês (45,7%) aumentaram a participação entre os débitos das famílias de Manaus e mantiveram a vice-liderança, mas são impulsionados pelos que recebem menos (46,5%). Na sequência estão o crédito pessoal (10,6%), “outras dívidas” (10%), financiamento de carro (8,3%), crédito consignado (8,2%) e financiamento de casa (4,4%). Dono da segunda maior taxa de juros da lista da Anefac (7,81% por mês e 146,55% por ano), o cheque especial responde por 5,8% das dívidas. Invenção brasileira, o cheque pré-datado pontuou 0,8% e usado somente pelos mais pobres (0,9%).

Conforme a CNC, o percentual de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” caiu para 26,2%, sendo essa uma condição mais comum entre as famílias de menor renda (27,2%). O oposto pode ser dito da parcela dos que se declaram “mais ou menos endividados” (23,4%). Na sequência está as fatia dos “pouco endividados” (33,9%) – que é predominante entre os que ganham mais (40,2%). 

Em média, as famílias de Manaus devem levar 27 semanas para quitar as dívidas. Os devedores com até três meses de compromissos pendentes (35,2%) renovou predominância e ampliou participação. Mas, o grupo dos que esperam levar mais de um ano para isso (25,6%) vem logo em seguida. O comprometimento médio da renda dos consumidores com dívidas diminuiu para 30,7%. Em torno de 28% das famílias de Manaus gastam mais da metade do que ganham, mas aqueles que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (43,7%) ainda são majoritários.

Nada menos do que 63,7% dos endividados locais já está inadimplente, número maior do que o do levantamento anterior (61,8%). Apenas 21,1% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês – contra os 22,6% apurados em janeiro. Outros 40,5% estimam que vão pagar parcialmente, e 38,4% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas do consumidor de Manaus estão atrasadas há 59 dias, sendo que a maioria está pendente acima de 90 dias (37,6%).

Juros e mulheres

O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota considera que o grau de endividamento em Manaus está em alta em decorrência de a taxa Selic ainda estar elevada e pressionar os juros de cartões e carnês. “Todo mundo ainda está negativado e com grandes dificuldades de acesso ao crédito. Isso tudo vai dificultando a economia e faz com que o comércio perca desempenho. É claro que o primeiro semestre costuma ser muito inferior ao segundo, em termos de movimento. Mas, precisamos diminuir a inadimplência e restabelecer a atividade comercial”, ponderou. 

Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC informa que, no mês da mulher, a Peic apontou um recorte com quedas nos indicadores anual (-0,7 ponto percentual) e mensal (0,2 p.p.) no índice de consumidoras brasileiras endividadas. “As famílias têm reportado menor volume de dívidas atrasadas. A renda da mulher na participação do orçamento familiar é fundamental. Na maioria das vezes, elas são peças centrais nos lares brasileiros, acumulando múltiplas funções, como profissionais, autônomas, empreendedoras, mães e donas de casa”, frisou o presidente da entidade, José Roberto Tadros.

No mesmo texto, o economista-chefe da entidade, Felipe Tavares, aponta que a proporção da renda comprometida com dívidas aumentou justamente entre o público feminino: 30,6% da renda delas está comprometida com contas a pagar, sendo este o maior nível já registrado pela pesquisa. “Os dados corroboram o momento propício para o ajuste do orçamento familiar, com menor nível de juros, como divulgado recentemente pela CNC”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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