Seringueiros, seringalistas e seringais são temas que nunca deixam de despertar interesse em mais de 150 anos de existência e, quanto mais se vasculha, mais se descobre sobre aquele período conforme demonstra em seu livro ‘O seringueiro na imprensa amazonense’, o historiador Daniel Barros de Lima. Na entrevista ao Jornal do Commercio, Daniel falou sobre suas pesquisas, inclusive tendo o JC como importante fonte de informações.
Jornal do Commercio: Por que você resolveu pesquisar especificamente esse tema: o seringueiro na imprensa amazonense?
Daniel Barros: Minha família descende de nordestinos. Meus avós, no interior do Acre e do Amazonas, foram seringueiros, além disso tenho um profundo interesse em compreender a formação socioeconômica da região amazônica na história.
JC: Quando surgem as primeiras notas nos jornais da época sobre látex, borracha, seringueiros?
DB: Os primeiros registros estão nos jornais vinculados ao Império, como é o caso do Estrella do Amazonas, de Silva Ramos, em Manaus. Ele era funcionário do Império, na cidade, nos idos de 1850 (antes disso o assunto estava nos diários e crônicas de viajantes). Após esse período, especialmente por causa da elevação do Amazonas à categoria de província, veremos diversos outros jornais numa grande efervescência jornalística especialmente a partir de 1870, ano da grande seca no Nordeste, a qual impulsionou a migração e a própria economia da borracha que cresceu vertiginosamente até o ano de 1911, ano da grande crise. Nestes anos a borracha se tornou o segundo maior produto de exportação do país, atrás somente do café.
JC: Em quais jornais você pesquisou? Qual a importância do Jornal do Commercio com relação às informações que obteve?
DB: Fizemos uma ampla catalogação de jornais do período pesquisado (1890 a 1920), e fomos lançando deles à medida em que a pesquisa exigia. Muitos jornais estavam vinculados a grupos econômicos da região e até mesmo a donos de seringais. Cito os jornais ‘A Capital’, ‘Correio do Purus’, ‘Commercio do Amazonas’, a Revista da ACA (Associação Comercial do Amazonas), e o próprio ‘Jornal do Commercio’, entre outros. Seus editoriais possuíam uma abordagem de interpretação da realidade muito vinculada à questão econômica, embora também houvesse relatos que enfocassem a dimensão humana. Alguns jornais, como o ‘Imparcial’, ‘Qvo Vadis?’, e ‘Pátria’, buscavam dimensionar as relações de trabalho e humanas dando, em certo sentido, a perspectiva dos seringueiros.
JC: Você pesquisou sobre tudo, ou tinha algo, especificamente, que desejava encontrar?
DB: Buscava garimpar fontes na expectativa de fazer emergir imagens mais próximas ao cotidiano específico dos seringueiros acerca das ‘pequenas coisas’ como os afogamentos nos rios, os suicídios, as brigas entre seringueiros, as brigas por mulheres, os adultérios, ou até mesmo nas ‘bizarrices’ constituídas pelos os ataques de animais da floresta. Nisso buscava recuperar histórias que não haviam sido até hoje adequadamente exploradas.

JC: Encontrou algum tipo de denúncia sobre exploração dos seringueiros?
DB: Algumas matérias tinham essa conotação de denúncia, mas o poder público pouco ou nada fazia, pois não havia leis trabalhistas nem mesmo um código civil. No geral não há interesse em apresentar as contradições sociais do mundo do trabalho no seringal, tendo em vista identificar e denunciar as ações do Estado, ou das corporações econômicas, que aliados, visavam unicamente o interesse capitalista, em detrimento da melhor valia do trabalhador, ou de qualquer benefício para com a vida dos seringueiros. Mas posso citar o jornal ‘Pátria’, que esteve sempre presente como um veículo que denunciava o descaso e as injustiças na cidade e no campo, desde o final do século 19.
JC: Se deparou com algum fato curioso?
DB: Encontramos muita coisa de assustar, como o caso de um seringueiro morto perseguindo sua anta, após um incêndio, matéria publicada pelo jornal ‘A Capital’, em 27/09/1917. O seringueiro Luiz Moreira da Silva, no rio Machado, preparou um roçado perto de sua barraca e, aproveitando o Sol, fez uma queima da mata, mas, à noite, um temporal surgido rapidamente atiçou o fogo, que atingiu a sua barraca à meia-noite. Só deu tempo de Luiz Moreira pegar sua mulher e quatro filhos menores, e fugir, pedindo ajuda a outros seringueiros nas proximidades. Uma anta de estimação, de Luiz Moreira, fugiu para a mata e o seringueiro Miguel de Tal correu atrás dela. No dia seguinte, misteriosamente, o corpo de Miguel foi encontrado, dentro de um buraco, no meio do roçado, tendo debaixo de seu corpo a pequena anta, ambos mortos.
JC: Em todos os seringais os seringueiros eram explorados ou havia algum onde eram tratados com dignidade?
DB: Não posso afirmar que eram em todos, mas pelo número de jornais pesquisados, posso afirmar que na maioria deles o sistema de escravidão humana vigorava, em menor ou em maior grau, em níveis diferentes de exploração. Se havia seringais que davam dignidade aos seringueiros, estes ainda precisam ser pesquisados.
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