Ser palhaço é coisa séria

Em: 28 de março de 2025
No Dia do Circo, uma homenagem aos palhaços de Manaus, do Amazonas e do Brasil nas figuras de Piolin e Pingo.

No dia  27 de março foi comemorado o Dia do Circo e, como não poderia ser diferente, a data homenageia Abelardo Pinto, que representou a figura icônica do circo, o palhaço.  Nascido em 27 de março de 1897, em Ribeirão Preto/SP, Abelardo incorporou a figura de Piolin, que fez grande sucesso na década de 1920 e nos anos seguintes.

Ser palhaço é coisa séria - Piolin fez grande sucesso na decada de 1920 e nos anos seguintes

O palhaço é uma figura tão importante que o circo perderia muito de sua graça sem a sua presença, mas o palhaço consegue existir e fazer sucesso sem a lona do circo à sua volta. É o caso do amazonense Klindson Cruz, o Pingo, que leva sua arte tanto para o interior do Amazonas quanto para o resto do país, sem circo. Com o premiado espetáculo ‘Ensaio geral’, Pingo já circulou por diversas comunidades ribeirinhas e, entre os dias 6 e 16 passados, esteve em São Paulo através do projeto Conexões Norte Sul.

“A primeira vez que me surgiu a vontade de brincar de palhacear, foi aos nove anos de idade. Minha mãe me levou a um circo, no campo do CSU do Alvorada. Era um circo com lona azul e estrelas amarelas, tinha uma arquibancada de madeira e ferro, um globo da morte, um picadeiro lindo, era uma lona de dois mastros. O show começou e o que mais me cativou foram os palhaços. Quando eles entraram parecia que o mundo estava em câmera lenta. Ali nasceu o meu interesse em querer ser palhaço”, recordou.

Em 2016 Klindson começou a pesquisar a palhaçaria. Quando entrou na UEA, já sabia o que queria. Ao conhecer Jean Palladino, Selma Bustamante, Ana Oliveira, Richard Harts, Samanta Leite, Rafael Cesar, Frank Kitzinger, Julianne Souza, integrantes do núcleo de pesquisa Clowntidianno, seu sonho se concretizou.

“Em janeiro de 2017 o Pingo apareceu pela primeira vez e continua até hoje”, falou.

 

Palhaço sem lona

E como vive um palhaço sem circo e sem vir de uma família circense?  

“Não é fácil ser palhaço. Requer trabalho, dedicação, estudo, escuta. É como palhaço que pago minhas contas com parte das apresentações. Se hoje estou como professor substituto na Universidade Federal de Rondônia, foi porque lá atrás eu decidi ser palhaço e mergulhar de corpo e alma, na pesquisa”, revelou. 

“Não sou de família circense e nunca trabalhei em nenhum circo. Me considero um artista independente itinerante, um palhaço que não tem lona, mas tem praças e ruas. É por esse viés que costumo me apresentar, sempre em praças, escolas, comunidades ribeirinhas, entre outros lugares populares”, completou.

Tradicionalmente, os palhaços de circo nascem no circo, como o próprio Piolin, cujos pais eram artistas circenses e o estimularam a ser artista. Com 20 anos de idade, Abelardo criou o Piolin, que se tornou um dos palhaços mais famosos do país, por décadas.   

“Eu tenho alguns mestres e mestras que falam que todos nós somos palhaços, mas existem algumas técnicas para a construção daquele palhaço que faz graça, diferente daquele que é motivo de graça. Para ser palhaço, ou se nasce ou se estuda. Não existe uma fórmula certa”, ensinou.

E o nariz vermelho? Basta se colocar um, que automaticamente você se transforma num palhaço.

“O nariz do palhaço é a menor máscara do mundo. É a única máscara que não esconde, mas revela o interior do sujeito palhaço. Acredita-se que o nariz vermelho venha por conta das baixas temperaturas do leste europeu e deixava as pontas dos narizes avermelhadas. Essa é uma das vertentes. Já as roupas clássicas, largas, advém do termo paglia, que significa palha, usada dentro das roupas para amortecer as quedas durante as performances cômicas. Eu não uso roupas clássicas porque no Brasil essas visualidades: nariz, figurino, maquiagem, sapatos, acessórios, vão de encontro à personalidade de cada sujeito palhaço”, detalhou.

 

Roda na Praça

Desde que Pingo ‘nasceu’, ele desenvolve o projeto Roda na Praça.

“A ideia do projeto é circular pelas praças, resgatando a funcionalidade delas, de encontro, de risos, de possibilidade e, claro, de um giro econômico para aqueles vendedores que ali estão. A ideia é realizá-lo quinzenalmente, em uma praça da cidade, e tem sido assim desde 2017, hoje com menos frequência, mas resistindo”, informou.

“Minha participação no projeto Conexões Norte Sul foi incrível. Me deu um gás em saber que meu trabalho foi levado, e visto, para lugares distantes da Amazônia, em especial São Paulo, terra natal de Selma Bustamante”, contou.

“Eu costumo dizer que existem dois verbos que fazem muito sentido para quem está começando na palhaçaria: errar e brincar. Eles norteiam todo o processo do palhaço, o erro, e o brincar com o erro, que pode trazer acertos. Se você quer ser palhaço, erre e brinque muito, além de estudar as técnicas. Apesar dos termos pejorativos que encontramos por aí e que a sociedade como um todo usa, a palhaçaria é uma arte séria”, concluiu.

“O nariz do palhaço é a menor máscara do mundo.
“O nariz do palhaço é a menor máscara do mundo.

Ser palhaço é coisa séria - Klindson quando os palhacos entraram parecia que o mundo estava em camera lenta 2

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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