Nascida das cinzas

Em: 27 de agosto de 2025
Exposição, na Biblioteca Pública do Amazonas, relembra incêndio no prédio ocorrido 80 anos atrás, e documentado pelo JC.

Há 80 anos, a manchete principal do Jornal do Commercio de 22 de agosto de 1945 chamava a atenção para um fato que impactava o planeta: ‘31 de agosto a assinatura formal da rendição’, que marcaria o fim definitivo da Segunda Guerra Mundial (na realidade essa rendição só foi assinada dois dias depois, pelo Japão). No cantinho, uma nota que impactava Manaus inteira: ‘Pavoroso incêndio na Biblioteca’. Por que apenas uma nota na capa? Como o incêndio ocorreu pela madrugada, com certeza o jornal já estava ‘fechado’ e até rodado. Devem ter ‘parado as rotativas’ para acrescentar apenas a nota. No dia seguinte, 23, uma página deu todos os detalhes do sinistro e a manchete não poderia ser mais jornalística: ‘Desapareceu, na voragem do fogo, a nossa Biblioteca’.

Os subtítulos destacavam: ‘Nós teremos uma nova Biblioteca. Campanha iniciada nesse sentido’. Os drs. Álvaro Maia, então interventor, Vivaldo Lima e Nunes Pereira ofereceram os seus livros ao Estado, enquanto houve lamentos de Péricles de Morais, Nunes Pereira, Mário Ypiranga Monteiro, André Araújo e Antônio Bittencourt.

A seguir, alguns trechos das matérias escritas pelos jornalistas do JC.

‘Pela madrugada de ontem irrompeu violento incêndio no edifício da Biblioteca Pública do Amazonas, causando as chamas um prejuízo incalculável. O fogo se manifestou, com rapidez incrível, na parte do prédio que dá para a avenida 7 de Setembro, esquina com a rua Barroso, atingindo o porão, o pavimento térreo e o primeiro andar. Pode-se dizer que todo o acervo da nossa Biblioteca, onde havia obras de grande valor, se perdeu na viragem das labaredas (…)’

Aproximadamente 40 mil obras viraram cinzas e apenas 60, que estavam numa exposição fora do prédio, se salvaram.

Na exposição, alguns dos poucos livros que se salvaram do sinistro de 1945.
Na exposição, alguns dos poucos livros que se salvaram do sinistro de 1945.

Bombeiros sem água

E continua a matéria.

‘(…) com o auxílio de populares, bombeiros, soldados da Força Policial e da Polícia Civil e do Exército (…). Esse trabalho, inicialmente, foi feito a baldes d’água jogados sobre a pequena porta por onde as chamas, com violência assombrosa, punham em perigo imediato o Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda’.

‘O teto do prédio ruiu, desmoronando-se as paredes, e as chamas se alteavam aos céus como um monstro voraz que tudo consome’.

‘Por sua vez, o dr. Carlos Brasil, conhecido odontólogo amazonense, falando em presença de amigos, ontem, no local do sinistro, afirmou que, ao passar pela Avenida 7 de Setembro, num bonde “Circular-Cachoeirinha”, cerca das 23,30 horas, vira um rôlo de fumaça saindo de um telhado perto do edifício da Biblioteca’.

‘Os primeiros alarmes foram dados pelo dr. Nonato de Castro, que reside nas proximidades da Biblioteca. Sua esposa, cerca das 2 horas da madrugada, ouviu uns estalidos e, indo à janela, verificou que se manifestava fogo na Biblioteca. O fato foi levado ao conhecimento do dr. Nonato de Castro, que imediatamente telefonou para os Bombeiros (…)’.

‘Os bombeiros, que já se encontravam no local, nada puderam fazer, inicialmente, em vista da falta do precioso líquido, que só apareceu cerca de 5,30 horas’.

Infelizmente a matéria continua noutra página do JC que, se perdeu com o tempo, portanto não dá para se saber quantas horas depois as chamas foram debeladas.

 

 

Relembrando o sinistro

Para lembrar da fatídica data de 80 anos atrás, a Biblioteca está realizando a exposição ‘Cinzas, Memória e Reconstrução: 80 anos do Incêndio da Biblioteca Pública do Amazonas”, que iniciou na sexta-feira (22) e segue até o dia 29, das 9h às 15h.

A exposição, composta por fotografias e recortes de jornais da época (inclusive a edição do JC citada acima), é montada no local onde o trágico incêndio ocorreu. Também estão exibidas as obras raras que escaparam das chamas, à época, expostas na 1ª Feira da Amazônia. Também podem ser vistos exemplares doados por personalidades da história amazonense, como Álvaro Maia, que doou 2.500 obras do seu acervo pessoal.

Nunca se soube, ao certo, o que causou o incêndio. Acredita-se que tenha sido um curto-circuito no quadro elétrico do prédio.

Na época, o andar superior abrigava um escritório desativado da Assembleia Legislativa do Estado, com documentos e móveis armazenados. As chamas atingiram primeiro esse material e, com o colapso da estrutura, o telhado desabou sobre o piso térreo, onde funcionava o acervo da Biblioteca, destruindo completamente o espaço. No subsolo, havia um depósito da Imprensa Oficial, repleto de material altamente inflamável. Com a intensidade do fogo, a estrutura cedeu, abrindo uma fenda na esquina da rua Barroso com a avenida Sete de Setembro, deixando apenas ferros retorcidos e cinzas. Após o incêndio que destruiu o acervo original, uma grande mobilização popular se formou para reconstruir a Biblioteca reinaugurada, em 1947, com aproximadamente 45 mil livros, fruto de doações de estudantes, artistas, intelectuais e políticos.

O prédio da Biblioteca Pública do Amazonas foi construído entre 1910 e 1912, durante o governo de Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt (1908/1913). 

Construído entre 1910 e 1912, durante a época da economia em alta, em Manaus.
Construído entre 1910 e 1912, durante a época da economia em alta, em Manaus.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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