Quando as bancas de revistas começaram a surgir, em Manaus, a partir de 1970, foram uma novidade. Antes disso, revistas e gibis eram adquiridos nas livrarias da rua Henrique Martins: Acadêmica, Escolar, Brito e Colegial, esporadicamente postos à venda. Por isso o sucesso das bancas foi imediato, e elas reinaram por décadas, até a chegada dos celulares, fornecendo todo tipo de informação na palma da mão, a partir de 2007, com o lançamento dos smartphones por Steve Jobs. As bancas de revistas, concentradas principalmente nas avenidas Eduardo Ribeiro e Getúlio Vargas, ainda resistiram, pelos anos seguintes, mas a cada novidade e facilidade acrescida aos celulares, elas iam perdendo força e, uma a uma, mudando os seus objetos principais de venda. Hoje, na Eduardo Ribeiro, apenas uma banca se mantém vendendo revistas e gibis.
Mas eis que surge um movimento retrô, formado por pessoas que querem reviver o passado de algumas décadas atrás, e jovens que viram, gostaram e querem conhecer o que se fazia antes deles nascerem. É esse público que forma o movimento, o qual, por sua vez, é o responsável pelo aquecimento dos sebos, tendo à frente livreiros apaixonados em vender livros e gibis (agora denominados HQs), usados.
A praça Heliodoro Balbi (da Polícia), reúne quatro deles: Celestino Neto, Einar, Herliton e Marcelo; e mais seis podem ser encontrados na Getúlio Vargas: Helinho, Mário Gordinho, Ricardo, Roberto, Daniel e Evandro. Recentemente, a jovem Juliana Silva de Aquino entrou na lista dos donos de sebo de Manaus e se tornou a primeira mulher livreira da cidade.
Leitora e colecionadora
Juliana sempre foi apaixonada por livros e HQs e essa paixão se fortaleceu ainda mais quando ela trabalhou, por quatro anos, na Livraria Saraiva, que funcionou no Manauara Shopping.
“Além de ser apaixonada por HQs, eu também os coleciono desde a adolescência”, contou.
Após sair da Saraiva, Juliana não pensou duas vezes para continuar ganhando a vida com a venda de livros. Há sete anos, com a expertise adquirida, ela montou um sebo itinerante seguindo a máxima de Milton Nascimento de que ‘o artista tem que ir aonde o povo está’, no seu caso, como livreira, indo onde estiverem os leitores.
“Feiras em universidades, feiras culturais, eventos literários, onde houver público leitor, lá estarei eu”, afirmou.
Porém, feiras e eventos não acontecem todos os dias, então, para atender a seus clientes diariamente, Juliana montou uma banca na praça Heliodoro Balbi, ao lado da banca Edipoeira, do também livreiro Einar Barroso.
“Mas na praça era complicado, pois eu ficava ao ar livre. Quando chovia, por exemplo, tinha que cobrir os livros com plástico e se precisasse sair, alguém tinha que ficar reparando a banca. Foi então que resolvi abrir um ponto próprio. Procurei um local para alugar e encontrei este aqui, na rua Lobo d’Almada, 463, no Centro (fone: 9 8132-1306), bem ao lado da Santa Casa de Misericórdia”, informou.
Há dois meses Juliana inaugurou o sebo Don’t Panic Geek Shop, referência a uma passagem da série ‘Guia do mochileiro das galáxias’, e seus fiéis clientes a seguiram.
“O forte da Don’t Panic são as HQs, mas também tenho livros de ficção. Adquiro esse material com muita gente que os vende, mas também compro material novo vindo direto de editoras”, avisou.
A Don’t Panic ocupa três salas térreas, da casa. A terceira ainda vazia, será transformada numa sala de jogos RPG.
“Meu público é geek, um público que não para de crescer”, disse.

Abnegados leitores
Celestino Neto é o livreiro mais antigo de Manaus, em atividade. Ele começou vendendo livros, há mais de 30 anos, na Ufam. Depois viajou para Belém, Fortaleza, Recife e Salvador produzindo cordéis com suas poesias e vendendo nas ruas dessas capitais. De volta a Manaus há mais de 20 anos, Celestino passou a vender livros numa banca, na praça Heliodoro Balbi.
“Fui o primeiro a montar uma mesa com livros para venda, na praça. Quando a praça foi restaurada, em 2009, construíram os boxes, eu ganhei um, que denominei O Alienista, e vieram mais três livreiros”, revelou.
Aos domingos, Celestino possui uma barraca na Feira da Eduardo Ribeiro onde o também livreiro Simas Pessoa abre sua barraca. Periodicamente realiza eventos culturais reunindo os demais sebos, geralmente na praça Heliodoro Balbi, além de organizar concorridos lançamentos de livros durante a Feira da Eduardo Ribeiro. Saindo das fronteiras de Manaus, todos os anos Celestino vai a Parintins, durante o Festival Folclórico; e a Paraty, na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), levando caixas e mais caixas de livros.
“As pessoas falam que os jovens não leem mais. Não é verdade. Temos um público fiel de leitores jovens, a prova é a quantidade de abnegados livreiros, no Centro de Manaus. E os sebos continuam em alta, com livros usados bem mais baratos que os novos. Enquanto tiver leitores, continuaremos na labuta”, finalizou.








