A Livraria Valer recebeu, no último sábado (29), escritores, acadêmicos, familiares e admiradores da cultura regional para o lançamento da obra “Sócrates Bomfim 1908–1984”, biografia que devolve ao centro do debate um dos nomes mais importantes da reflexão econômica e social na Amazônia do século XX. O livro, escrito pelo pesquisador Elcias Moreira e produzido pelo Selo Editorial Temporal, foi lançado por Selma Bomfim Silva e Sócrates Bomfim Neto, filha e neto do homenageado.
A obra foi apresentada em um ambiente carregado de memória, afeto e reconhecimento, uma manhã que mais do que celebrar um título, celebrou um legado.
“Compreender Sócrates vai além das datas”
Responsável por mergulhar profundamente na vida e na produção intelectual do homenageado, Elcias Moreira destaca que a biografia busca revelar o homem por trás dos feitos.
“Sócrates Bomfim se destacava pela introspecção, disciplina, erudição e escuta ativa que moldaram suas decisões. Era um homem simples, elegante e avesso aos holofotes. No livro, procurei captar a essência desse personagem com o estilo do jornalismo literário que adoto, um método que busca não apenas narrar fatos, mas mergulhar na alma das trajetórias”, afirmou o autor.
Presenças ilustres e memória revisitada

(Foto: Augusto Ikuro)
A cerimônia reuniu membros efetivos da Academia Amazonense de Letras (AAL), entre eles o vice-presidente Abrahim Baze, Carmem Novoa, Dom Luiz Soares Vieira e Mazé Mourão, além de representantes de instituições culturais e literárias. O diretor do MSKTV, Miguel Jorge Mourão, também prestigiou o evento.
O lançamento iniciou com a exibição de um vídeo produzido em 2008, no qual acadêmicos da AAL relembram o perfil de Sócrates Bomfim: um homem reservado, dedicado aos estudos e movido pelo desejo genuíno de construir um projeto de desenvolvimento para a Amazônia. Sua atuação foi determinante para iniciativas como a criação da Companhia Siderúrgica da Amazônia (Siderama), em 1961: marco de um sonho industrial que antecedeu seu tempo!
A obra
A publicação se divide em duas partes complementares: Uma narrativa biográfica, que atravessa infância, formação, escolhas e dilemas do advogado, economista e pesquisador que defendia, já nas décadas de 1950 e 1960, um modelo de industrialização baseado no uso racional dos recursos naturais e na inclusão social. A segunda, o Dossiê Sócrates Bomfim é um conjunto de documentos, artigos, registros históricos e referências que resgatam o ambiente político, econômico e social da época, devolvendo densidade e contexto ao pensamento do autor.

Legado literário, econômico e afetivo
Para o vice-presidente da AAL, Abrahim Baze, a publicação resgata não apenas a trajetória individual de Sócrates Bomfim, mas parte da história cultural do Amazonas.
“Há uma carência de biografias familiares no Amazonas, apesar de termos linhagens que atravessam mais de 150 anos. A família de Sócrates presta um serviço inestimável à nossa memória ao recuperar, com rigor, a vida de um ícone da indústria amazonense. É um projeto de grande importância e que só foi possível graças ao investimento e à dedicação da família, especialmente de Selma Bomfim”, afirmou.
O neto do homenageado, Sócrates Bomfim Neto, hoje CEO do Jornal do Commercio, reforçou a atualidade do pensamento do avô:
“Meu avô acreditava profundamente na Amazônia como um espaço de desenvolvimento responsável. Revisitar suas ideias é revisitar uma visão de futuro”.

Um retrato de um dos maiores intelectuais da Amazônia
Com 288 páginas, a biografia reconstrói o percurso de um polímata amazônida. Nascido no Juruá, formado em Direito em 1930, Sócrates Bomfim atuou como professor de Direito Industrial e Legislação do Trabalho, além de aprofundar-se em química, geologia, metalurgia, siderurgia e economia.
Ocupou cargos estratégicos, como:
Prefeito de Manaus (1933–1934);
Procurador fiscal do Estado;
Diretor da Comissão de Planejamento da SPVEA — por indicação de Getúlio Vargas — integrando a equipe que elaborou o Primeiro Plano Quinquenal da Amazônia (1953–1955).
No setor produtivo, foi pioneiro:
Fundou a Mineração Bomfim S.A. (1955), responsável pela exportação de manganês do Aripuanã;
Idealizou e ajudou a criar a Siderama (1961), primeira tentativa de indústria de base da região.
O projeto enfrentou forte resistência política e sofreu intervenção federal em 1974, episódio lembrado como uma disputa entre “Davi e Golias”.
Coleção resgata cinco obras clássicas
A Coleção Sócrates Bomfim, organizada e editada por Elcias Moreira, reúne cinco títulos essenciais produzidos entre os anos 1950 e 1960, textos que anteciparam discussões sobre economia regional, industrialização e políticas públicas.
A reedição recoloca no debate contemporâneo um pensamento que influenciou gestores, pesquisadores e defensores do desenvolvimento amazônico.
Selma Bomfim emociona o público ao recordar a trajetória do pai
Um dos momentos mais marcantes da manhã veio da fala de Selma Bomfim Silva, que compartilhou a motivação pessoal que a levou a idealizar a biografia e reeditar as obras do pai.
“Eu vinha pensando muito, e com certa tristeza, no esquecimento que rodeava o nome de papai. Um homem que estudou tanto, que se dedicou tanto, e hoje é desconhecido… ninguém sabe quem ele foi, o que fez. Então foi pensando nisso que eu disse: eu posso fazer uma pequena contribuição para a sociedade amazônica. A minha pequena contribuição será fazer uma biografia e reeditar as obras dele”, declarou, emocionando o público.
Foi um depoimento que deu ao lançamento uma camada humana, quase poética, lembrando que preservar memória também é um ato de amor.








