Retomada dos juros ameaça reduzir investimentos no Polo Industrial

Em: 24 de fevereiro de 2010
Ano começou aquecido no mercado de trabalho do Estado, com recorde de vagas líquidas criadas para um mês de janeiro (1.040). Expectativa é de avanço de 15% até dezembro
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Ano começou aquecido no mercado de trabalho do Estado, com recorde de vagas líquidas criadas para um mês de janeiro (1.040). Expectativa é de avanço de 15% até dezembro

Tudo indica que a política monetária está às vésperas de um novo ciclo de alta de taxas, o que é um péssimo negócio para os investimentos fabris planejados para este primeiro semestre. Pelo menos no entendimento do presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Armando Monteiro Neto, para quem a intensificação do aperto monetário, resultará em maiores danos ao processo de crescimento econômico. A indústria que espera investir no Amazonas mais de US$ 8.5 bilhões este ano seria impactada em pelo menos 8% deste valor, segundo cálculos da CNI.

Em entrevista ao Jornal do Commercio, Monteiro Neto mostrou que muitos setores econômicos no país ainda estão saindo da crise e que a nova alta nos juros impacta diretamente em regiões onde os investimentos fabris são de suma importância para a manutenção dos indicadores de emprego e renda, como é o caso do PIM (Polo Industrial de Manaus). Reflexo do que acontece no país, o executivo fez questão de frisar que no Amazonas existem oportunidades de investimentos cada vez maiores, apesar da lenta recuperação do mercado global. “Assim como em outras regiões do país, as indústrias amazonenses já adquiriram um volume de insumos destinado a compor os ajustes fabris e à demanda interna. Diante da incerteza de uma alta de juros, o empresário fica sempre com pé atrás, retardando os investimentos previstos”, disse.

O desabafo do executivo tem razão de ser já que, conforme esperado, o ano começou aquecido no mercado de trabalho, com recorde de vagas líquidas criadas para um mês de janeiro (1.040). Dados do Sine-AM (Sistema Nacional de Empregos do Amazonas) consideram que o Estado pode avançar este ano 15% sobre 2009 no ritmo de contratações diretas formais e atingir a casa dos 90 mil. No Amazonas, o destaque em janeiro foi o forte desempenho da indústria, setor que mais criou empregos no mês, sugerindo um vigoroso crescimento do setor neste primeiro trimestre de 2010.

Já o presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus), Wilson Périco, avaliou que a ideia de acelerar o movimento de redução do consumo das famílias, via aumento mais intenso dos juros, não irá gerar os benefícios desejados, uma vez que muito da inflação é originada globalmente, dado o aumento dos preços internacionais. “Sempre que se fala em aumento da taxa de juros, há de se pensar que isso fatalmente vai reduzir o apetite dos investidores. Para doença ruim, remédio forte. Mas não sabemos o que é pior, deixar o barco correr ou preservar a estabilidade econômica freando o consumo através da taxa de juros”, asseverou.

Demanda aumenta, oferta encolhe

O desentendimento corrente entre as políticas monetária e fiscal do governo acaba impactando o bolso dos menos favorecidos na economia. Com esse entendimento, o presidente da Fecomercio (Federação do Comércio do Estado do Amazonas), José Roberto Tadros, considera que, para combater o ‘vírus’ da inflação, não se pode usar um único tratamento, uma vez que “há outros antídotos que não apenas a alta de juros que emperra o crescimento, gera desemprego e prejudica a sociedade”.

Por outro lado, o dirigente observou que o impulso inflacionário que a economia do Brasil vive neste início de ano ainda é consequência de um vírus importado que adoece nações em todo o mundo. “Não podemos, porém, ignorar o perigo de que se torne uma epidemia em nosso país. Mas há de se ter cuidado para que não aconteça uma queda drástica no nível de vendas do comércio”, asseverou.
O fato é que tanto indústria quanto comércio concordam que o poder de compra da população aumentou e começaram a faltar bens nas prateleiras do varejo. Apesar de defender o combate à inflação, a Fecomercio acredita que seria mais eficaz se a gestão das políticas monetária e fiscal fossem compartilhadas. “O que, infelizmente, não é realidade”, finalizou Tadros.

De toda maneira, cabe enfatizar o desempenho da indústria, com contratações líquidas em 11 dos 12 ramos pesquisados, sinal importante de recuperação desta atividade.
Como é de se supor, isto sugere que o início forte para as contratações da indústria em 2010 representa um bom sinal para o resultado do PIB do setor no primeiro trimestre. Então é esperar para ver.

Para a economista da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Regina Lima Arruda, a bem da verdade, não há uma política explícita para a redução da taxa final de juros. Segundo a especialista, estatísticas disponíveis mostram que o país apresenta níveis de acesso a serviços e produtos bancários compatíveis com seu estágio de desenvolvimento, embora a utilização destes sejam limitados, em razão dos custos, com impactos adversos no bem-estar do país. “O acesso a serviços bancários facilita a inserção econômica, mesmo com política de juros, fomenta a formalidade, disponibiliza o crédito de consumo e de investimento, serviços de pagamento e cobrança e seguros, além de eliminar a agiotagem”, apontou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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