A relação entre crescimento econômico e degradação ambiental, os impactos das mudanças climáticas e os caminhos para um desenvolvimento sustentável na Amazônia estão em destaque no livro ‘Ecos do Antropoceno – legados, interesses e caminhos’, que o ambientalista Luiz Villares acabou de lançar, em Manaus.
O livro reúne mais de duas décadas de atuação de Villares na área socioambiental e apresenta uma análise aprofundada sobre os desafios da crise climática, suas conexões com o modelo econômico global e possíveis soluções sustentáveis, com destaque para a bioeconomia, sistemas agroflorestais e o papel estratégico da Amazônia no equilíbrio climático.
Em entrevista ao Jornal do Commercio, o ambientalista detalhou melhor como está a situação climática na Amazônia.

Jornal do Commercio: Desmistificou-se que a Amazônia era o pulmão do mundo, então, hoje, qual o papel da floresta e rios amazônicos na questão climática do planeta?
Luiz Villares: A Amazônia atua como reguladora do clima, sendo fundamental na produção de umidade e chuvas por meio da evapotranspiração. Esse processo abastece não só a própria região, mas também o Sudeste e Sul do Brasil e partes da América do Sul. A floresta em pé é essencial para manter a biodiversidade e o regime hídrico, sendo estratégica para o equilíbrio climático.
JC: Há décadas a devastação da floresta e a poluição dos rios da região nunca cessam. O clima do mundo acompanha essa destruição? O que está sendo feito para reverter essa situação?
LV: O desmatamento está próximo do ponto de não retorno (cerca de 20%), o que compromete a regeneração da floresta e sua capacidade de gerar chuvas. A degradação, incluindo garimpo e abertura de áreas, agrava o problema. O clima global é impactado, já que o uso da terra contribui para emissões de CO₂. Apesar disso, há esforços científicos e iniciativas de conservação, e reduzir o desmatamento, com regeneração da natureza, é uma das formas mais viáveis de enfrentar as mudanças climáticas, principalmente para o Brasil.
JC: Há algum estudo mostrando que a floresta em pé (com plantas e árvores que proporcionam alimentos, remédios e produtos cosméticos) seria mais viável economicamente do que ela derrubada para se explorar madeiras e criação bovina?
LV: Embora existam estudos que apontem o potencial econômico da floresta em pé, o modelo atual favorece atividades como pecuária e agricultura, muitas vezes impulsionadas por ilegalidade, na origem da propriedade fundiária. Para tornar a floresta competitiva, é necessário valorizar seus serviços ambientais, por meio de créditos de carbono e e pagamentos por serviços ambientais sérios, monitorados e com repartição de benefícios para as populações locais. Sem isso, prevalece um modelo que gera degradação e compromete o próprio sistema produtivo no longo prazo.
JC: O que teria a dizer sobre as reservas minerais do subsolo amazônico? Explorá-los, ou não explorá-los?
LV: A exploração mineral pode ser viável se houver controle, responsabilidade e repartição de benefícios. O principal desafio é agregar valor aos recursos, investindo em ciência, tecnologia e indústria nacional, em vez de exportar matéria-prima. Um modelo sustentável depende de planejamento de longo prazo e integração com políticas ambientais. São projetos de muitos governos produzindo políticas públicas duradouras, com a ambição nacional de reestruturar a indústria brasileira, de uma forma geral.
JC: Você atua há mais de duas décadas na área socioambiental? O que viu de positivo, e de negativo, nessa área, em todo esse tempo?
LV: O principal aprendizado é que a natureza é essencial para a vida e deve ser preservada com participação das comunidades locais, que precisam ser beneficiadas. Como pontos negativos, destacam-se o negacionismo climático, interesses econômicos contrários à conservação, atividades ilegais e a presença crescente do crime organizado, que dificultam ações ambientais e geram conflitos.
JC: Quais modelos econômicos você acredita seriam os mais indicados para a Amazônia?
LV: A bioeconomia é o modelo mais adequado, aliando conservação e desenvolvimento. É necessário integrar políticas públicas, ciência e tecnologia, com menos burocracia e visão de longo prazo. A Zona Franca de Manaus pode servir como base para impulsionar esse modelo, com foco no desenvolvimento mantendo a floresta em pé.
JC: Você não acha que a transição energética, na Amazônia, ‘caminha a passos lentos’, ou nem caminha?
LV: A transição energética avança lentamente, mas há perspectivas positivas. O fortalecimento de políticas públicas e o crescimento de fontes renováveis, como solar, biogás e biomassa, indicam um cenário promissor. Soluções descentralizadas podem reduzir a dependência de combustíveis fósseis, com avanços esperados nos próximos anos.






