O cenário econômico de médio prazo é de estabilidade para a economia, apesar dos impactos do conflito no Oriente Médio nos preços, câmbio e juros. A avaliação é do ex-ministro da Fazenda do e diretor de Estratégia Econômica e Relações com o Mercado do Banco Safra, Joaquim Levy. Engenheiro naval, com doutorado em Economia, Levy apresentou palestra para empresários e imprensa, na quinta (9), na sede da Fieam. Para ele, o panorama é favorável ao corte gradual dos juros, com reflexos positivos no crescimento e investimentos, desde que o governo controle gastos e a guerra não se prolongue demais.
Lideranças empresariais ouvidas pela reportagem durante o evento, concordam que o cenário traçado pelo ex-ministro é positivo para a economia amazonense também. Mas, não deixam de demonstrar receio quanto aos possíveis desdobramentos da guerra no Oriente Médio. Os efeitos do conflito já puderam ser percebidos no IPCA de março. Medido pelo IBGE, o indicador da inflação oficial saltou de 0,70% para 0,88%, na comparação com fevereiro. Os aumentos mais relevantes vieram da gasolina (+4,59%), diesel (+13,90%) e do grupo de alimentação e bebidas (+1,56%). O maior temor dos empresários, no entanto, está nas incertezas do cenário econômico pós-eleitoral de 2027.
Durante a palestra, o ex-ministro avaliou que há “gordura para queimar” na taxa Selic, apesar da guerra, sendo essa uma notícia considerada positiva pelo setor produtivo amazonense. Ressaltou, contudo, que os cortes terão de ser feitos de forma gradual e sua trajetória depende de que não ocorram solavancos significativos no IPCA, por conta dos impactos do conflito e do represamento do Estreito de Ormuz. Indagado pela reportagem, Levy estimou que, mesmo mantidas as condições atuais, a taxa básica de juros da economia brasileira não deve fechar o ano abaixo do patamar dos dois dígitos.
“A demanda vive momento cíclico. O Banco Central está fazendo um trabalho para garantir que a inflação caia e isso tem gerado uma freada relativamente suave no crescimento e até no emprego, como ocorre em todo o mundo. A boa notícia é que o BC tem espaço para ir com cuidado, mesmo com essa confusão lá fora. O mercado estava esperando que essa redução pudesse ser de uns 3 pontos percentuais até o fim de 2026. Mas, está tendo mais cuidado, em função dos aumentos da cotação do petróleo e seus efeitos. Mas a gente vai avançar. A pergunta é o que vai acontecer no ano que vem e se teremos condições de baixar até 9%, 8%, que já daria um grande fôlego para o setor privado”, resumiu.
“Momento interessante”
Em sua apresentação, o ex-ministro traçou um cenário de oportunidades para o país continuar crescendo na atual conjuntura, principalmente no comércio exterior, mas também no mercado doméstico. Ele recomenda que o país busque gradualmente a estabilidade com aumento dos investimentos, consolidando perfil de crescimento de 2,5% no PIB anual e meta de déficit primário de 0,5% do Produto Interno, equilibrando as despesas com as receitas, e tendo em vista uma inflação não muito acima dos 3%.
Amparado em gráficos e dados do Banco Central e demais agentes econômicos do mercado e do Banco Safra, Levy apontou que, a despeito da pressão nos preços dos combustíveis, com desaceleração das economias, além das sobretaxas pontuais aos produtos brasileiros pelos Estados Unidos, a conjuntura internacional para o Brasil é adequada para a manutenção da estabilidade. E não deixou de mencionar que o encarecimento do petróleo no mercado internacional também eleva as receitas do governo e favorece o câmbio, ajudando a compensar a aceleração dos preços.
Sobre os EUA, mencionou que a inflação deverá subir e o consumo cair, mas sem que haja necessidade de tomada de medidas exageradas do FED, o banco central americano. E citou a proposta orçamentária expansionista do governo Trump, que apesar de ter cortado US$ 70 bilhões, ao enxugar a máquina, aumentará em US$ 500 bilhões as despesas com defesa. “Acho que a economia americana está andando um pouquinho mais devagar, mas não está no risco de recessão, no momento”, pontuou. Também citou que a China já superou a crise imobiliária e mantém forte demanda por produtos primários brasileiros (especialmente em soja e petróleo), o que contribui para o superávit comercial.
O executivo disse que o déficit primário do Brasil, de -0,4% do PIB, está em conformidade com as economias dos países em desenvolvimento. Já as despesas discricionárias, excluindo Saúde e Educação, caíram de 1,5% para menos de 1% do PIB, desde 2010. E também falou das metas do superávit primário, que aponta receitas gradualmente acima das despesas. A resposta, segundo Levy, é estimulada pelo investimento privado. “Empresário é um bicho diferente e vê as oportunidades”, assinalou, durante a palestra.
Questionado pela reportagem sobre a economia do Amazonas, Levy avalia que as perspectivas de curto prazo também são positivas por aqui. “A Zona Franca tem atraído companhias, com aprovação de projetos industriais em grande quantidade. O próprio presidente da Fieam aponta que a ZFM passa por um momento interessante. Um destaque vem da construção naval, com a fabricação de balsas e rebocadores, o que baixa muito o custo da logística fluvial, que sai mais barato que o transporte por caminhão. E é sensacional fabricarmos computadores, por exemplo, em Manaus. Esse tipo de avanço é o que a gente precisa para o Amazonas continuar crescendo”, sintetizou.
Otimismo e incertezas
O presidente da Fieam, Antonio Silva, agradeceu a presença do ex-ministro, que pela segunda vez veio palestrar a convite da entidade. Em entrevista à reportagem, destacou que a apresentação mostrou também pontos sensíveis para a economia amazônica. “Joaquim Levy, pela experiência que já teve de governo, e pelas várias ocupações pelas quais passou, tem a expertise necessária para nos apresentar tudo aquilo que precisamos saber. Ele foi muito feliz em algumas colocações e nos mostrou uma realidade que, às vezes, não tomamos conhecimento, por conta do distanciamento geográfico”, enalteceu, salientando que a perspectiva para a indústria ainda é de crescimento.
O presidente da ACA, Bruno Loureiro Pinheiro, se mostra mais receoso. “Joaquim Levy mostrou um cenário macroeconômico mundial. O que o comércio entende é que essa conjuntura está caminhando para um ponto positivo, apesar de todos os problemas pelos quais a gente está passando. E, diante disso, o setor tende a fazer investimentos. Ficou claro que a gente vai ter um ano bom, e que o Brasil deve continuar com a sua balança comercial no azul. A questão é o 2027, porque teremos eleições e ainda temos de ver como vai ficar o panorama depois da guerra. Seus reflexos ainda não chegaram na totalidade no Brasil. Devemos sentir isso mesmo a partir do segundo semestre”, ressaltou.
O novo titular da Sedecti, Gustavo Igrejas, vai na mesma direção. “O doutor Joaquim Levy deu um overview da macroeconomia mundial e apresentou sua opinião sobre o curto prazo, de uma forma até otimista, em face das incertezas que a guerra no Oriente Médio traz. Esse cenário mundial exige cautela. O tema petróleo sempre é muito sensível quando está inserido em qualquer discussão, por conta de seu efeito imediato nos custos de logística do Brasil e do mundo”, arrematou.







