Música do Norte entra no radar da Deezer

Em: 16 de maio de 2026

Quando a Deezer escolheu a cantora paraense Gaby Amarantos como Artista do Mês de abril, a decisão não foi apenas simbólica. Para Eduardo Ribas, editor sênior da maior plataforma de streaming europeia com forte presença no Brasil, o gesto traduz uma mudança de rota da indústria fonográfica global: o eixo Rio–São Paulo já não é o único que importa. 

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, Ribas detalha como a plataforma avalia e promove artistas do Norte do país, quais métricas guiam essas decisões — engajamento, crescimento de audiência, recorrência de ouvintes — e de que forma ritmos como tecnobrega, carimbó e beiradão estão ganhando espaço não só no Brasil, mas entre comunidades brasileiras no exterior. 

O Boi-Bumbá, símbolo máximo da cultura amazônica, também entra na conversa. A Deezer mantém playlists dedicadas ao Festival de Parintins, ao Boi Caprichoso e ao Boi Garantido — e Ribas aponta o período do festival como um pico relevante de audiência que a plataforma acompanha de perto. 

O cenário é promissor, mas os desafios são reais. O Amazonas concentra cerca de 1,2 milhão de usuários de streaming, segundo o IFPI 2025, num estado onde barreiras de infraestrutura e a formalização de catálogos locais ainda limitam o alcance dos artistas regionais. Para Ribas, superar esses obstáculos passa por curadoria, digitalização de acervos e parcerias estratégicas. 

No plano da remuneração, a Deezer apresenta como diferencial o chamado Sistema de Pagamento Centrado no Artista (ACPS), modelo que busca beneficiar diretamente quem tem fãs ativos — e que, segundo o executivo, tende a corrigir distorções históricas que prejudicavam artistas independentes e regionais em favor de grandes nomes globais. 

A conversa também passa pela inteligência artificial: a plataforma desenvolveu uma ferramenta própria para detectar músicas 100% geradas por IA, removendo esses conteúdos das recomendações e desmonetizando faixas produzidas por máquinas — uma posição que Ribas chama de “não negociável” para proteger a cadeia criativa humana. 

Com o Brasil figurando como segundo maior mercado de streaming do mundo, responsável por mais de 200 bilhões de streams anuais, o país funciona, nas palavras do editor, como “laboratório para novas formas de distribuição e monetização” — e a Amazônia, com sua riqueza cultural singular, pode ser uma das maiores apostas dessa equação.

 

Eduardo Ribas concedeu entrevista ao JC Reprodução/Redes Sociais)

Confira na íntegra a entrevista concedida ao Jornal do Commercio:

ENTREVISTA: Eduardo Ribas, editor sênior da Deezer

  • A Deezer acaba de destacar Gaby Amarantos como Artista do Mês de abril, com playlists e o álbum Rock Doido em evidência. Como a plataforma identifica e promove artistas do Norte como ela, e quais métricas de streams justificaram essa escolha?

A escolha de Gaby Amarantos como Artista do Mês reflete o nosso compromisso em amplificar a diversidade musical brasileira, especialmente os sons que nascem fora do eixo tradicional. Queremos cada vez mais abrir espaço para essas narrativas e conectar esses artistas a públicos ainda maiores. Analisamos não apenas o volume de streams, mas também indicadores como crescimento consistente de audiência, taxa de engajamento (saves, compartilhamentos e inclusão em playlists), recorrência de ouvintes e o impacto cultural do artista naquele momento. No caso da Gaby, observamos um aumento expressivo de consumo tanto no Norte quanto em outras regiões do país, impulsionado pelo álbum Rock Doido, que performou bem em diferentes contextos de escuta. Além dela, temos acompanhado o desenvolvimento de artistas de outras vertentes, como Victor Xamã (manauara), Number Teddy, Potyguara Bardo e Zaynara.

  • O beiradão e estilos regionais como tecnobrega e carimbó do Amazonas e Pará têm bom desempenho na Deezer? Vocês podem compartilhar dados sobre acessos locais e internacionais desses gêneros?

Os gêneros regionais do Norte, como tecnobrega, carimbó e beiradão, apresentam um desempenho sólido dentro da plataforma, especialmente em suas regiões de origem, onde têm altíssima inserção e engajamento. Ao mesmo tempo, vemos esses estilos ganhando tração em outras partes do Brasil por meio de playlists editoriais e recomendações algorítmicas, além de um início de consumo internacional, sobretudo entre comunidades brasileiras no exterior e públicos interessados em sons globais. Esses gêneros não são nichos isolados, mas ecossistemas culturais vivos, com dinâmicas próprias de consumo.

  • O Boi-Bumbá é o estilo mais importante da cultura e folclore na Amazônia. Há interesse da Deezer nesse estilo?

Enxergamos esse estilo como uma oportunidade tanto de preservação da cultura tradicional brasileira, quanto de amplificação, seja por meio da organização de catálogos históricos, seja pela criação de experiências editoriais que contextualizem sua importância, especialmente em períodos sazonais como o Festival de Parintins, quando há picos relevantes de audiência. Inclusive, temos uma playlist específica de Parintins, além de uma para o Boi Caprichoso e outra para o Boi Garantido.

Deezer criou e promove playlists com os sucessos de Garantido e Caprichoso (Reprodução)
  • O Brasil é o segundo maior mercado de streaming do mundo, com 120 milhões de assinantes pagos em 2024 e receitas de R$3 bilhões (Pro-Música). Como a Deezer vê o papel do consumidor brasileiro, líder em engajamento, nos desafios de comercializar áudio no país?

O consumidor brasileiro tem um papel central na estratégia da Deezer globalmente. Trata-se de um público altamente engajado, com forte relação emocional com a música, aberto à descoberta e com hábitos de consumo que misturam grandes hits com cenas locais e regionais. O principal desafio no Brasil não é gerar engajamento, mas encontrar modelos de monetização que equilibrem acessibilidade e valor percebido. Por isso, o país funciona como um laboratório para novas formas de distribuição, parcerias e ofertas, especialmente em colaboração com operadoras e outras plataformas.

  • Pagamentos aos artistas e compositores são um tema quente: a Deezer paga por stream ou pro-rata? Como garantem transparência e remuneração justa, especialmente para independentes do Norte que enfrentam barreiras logísticas?

A Deezer utiliza o Sistema de Pagamento Centrado no Artista (Artist-Centric Payment System, ACPS). É um modelo projetado para beneficiar todos os artistas, independente da gravadora ou canal de distribuição. Os artistas são pagos de acordo com a maneira que suas músicas são ouvidas pelos fãs. Artistas se beneficiam diretamente de incentivos quando suas músicas são procuradas ativamente por fãs, ou sou descobertas em playlists da Deezer (não sugeridas por um algoritmo). Esse modelo tende a beneficiar artistas independentes e regionais, incluindo aqueles do Norte, ao reduzir distorções causadas pela concentração de streams em poucos artistas globais. Além disso, investimos em transparência por meio de ferramentas de analytics e relatórios detalhados, e trabalhamos com parceiros para reduzir barreiras de distribuição.

  • O futuro dos pagamentos em plataformas digitais: com genéricos de IA gerando músicas, como a Deezer planeja diferenciar royalties para obras humanas versus geradas por IA, protegendo compositores brasileiros?

Em relação à remuneração, a Deezer é pioneira no desenvolvimento do sistema user-centric, que busca distribuir a receita de cada assinatura de acordo com o consumo individual do usuário. Esse modelo tende a beneficiar artistas independentes e regionais, incluindo aqueles do Norte, ao reduzir distorções causadas pela concentração de streams em poucos artistas globais. Além disso, investimos em transparência por meio de ferramentas de analytics e relatórios detalhados, e trabalhamos com parceiros para reduzir barreiras de distribuição.

  • A Deezer usa ferramentas de IA para recomendações ou produção?

A Deezer utiliza essas tecnologias principalmente para melhorar a experiência do usuário, com sistemas de recomendação e personalização mais eficientes – como o caso do Flow Tuner. Ao mesmo tempo, temos uma posição clara em relação à proteção dos direitos autorais, especialmente diante do avanço de conteúdos gerados por IA. Na Deezer, temos dois compromissos não negociáveis: proteger a remuneração dos artistas e ser transparentes com os usuários.

Na prática, o que já fizemos: desenvolvemos uma ferramenta de detecção de músicas 100% geradas por IA e, a partir deste ano, disponibilizamos para o mercado, oferecendo à indústria musical uma opção para promover a transparência no streaming e reduzir o incentivo à fraude com músicas feitas por máquinas.

Além de detectar e rotular, removemos esses conteúdos das recomendações e os desmonetizamos. Recentemente, deixamos de armazenar versões em alta resolução de faixas geradas por inteligência artificial na Deezer.

  • Desafios regionais: no Amazonas, com 1,2 milhão de usuários de streaming (IFPI 2025), como a Deezer lida com esse tema Amazônia. Há algum movimento para monetizar conteúdos regionais?

No contexto da Amazônia, reconhecemos tanto os desafios estruturais quanto o enorme potencial cultural da região. Há um público relevante e altamente engajado, mas ainda existem barreiras relacionadas à infraestrutura e à formalização de catálogos. Por isso, nossas iniciativas passam por fortalecer a curadoria regional, incentivar a digitalização de conteúdos locais e estabelecer parcerias que ampliem a visibilidade e a monetização desses repertórios.

  • Com o Brasil consumindo mais de 200 bilhões de streams anuais (global 2º lugar), quais os planos da empresa para o Brasil?

Olhando para o futuro, o Brasil segue como um dos mercados mais estratégicos para a Deezer. Nossos planos incluem aprofundar a regionalização da plataforma, impulsionar a exportação da música brasileira, evoluir modelos de remuneração mais justos e investir em experiências mais sociais e interativas. Acreditamos que o Brasil, pela sua diversidade e capacidade de inovação cultural, continuará sendo um dos principais motores de transformação da indústria musical global.

Lílian Araújo

É Jornalista, Artista, Gestora de TI, colunista do JC e editora do Jornal do Commercio
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