Arthur diz que sua permanência no Senado garante defesa do Amazonas

Em: 25 de março de 2010
Considerado o segundo parlamentar mais influente do Brasil no Planalto, o senador Arthur Neto (PSDB), é conhecido pela sua ‘língua afiada’ e pelo gosto por batalhas difíceis
Considerado o segundo parlamentar mais influente do Brasil no Planalto, o senador Arthur Neto (PSDB), é conhecido pela sua ‘língua afiada’ e pelo gosto por batalhas difíceis

JC – O seu partido, o PSDB, possui, pelo menos, duas opções de candidatos à Presidência da República. O governador José Serra será mesmo candidato? Por que ainda não há uma definição clara de sua candidatura e a escolha do vice?

Arthur Neto – O José Serra é o candidato à Presidência da República. O que ocorre é que há uma certa delinquência do processo eleitoral, onde a candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, faz clara campanha, mesmo sendo proibida esta prática, neste perío­do. O Serra vai ficar no governo de São Paulo até o último dia e, a partir daí, vai começar a se mexer como pré-candidato. Ele está se comportando como um cidadão normal, respeitando os prazos determinados pela lei, não se trata de estratégia. Além disso, ele tem um compromisso com o Estado de São Paulo, vem enfrentando enchentes e outros problemas estruturais que precisam ser combatidos com força e seriedade. Mas o lançamento de sua campanha deverá ser no dia 10 de abril, no próprio Congresso Nacional. Quanto ao vice, defendo que o partido brigue pela decisão positiva do Aécio Neves (governador de Minas Gerais), mas isso é mais uma decisão pessoal dele. Ou, como segunda opção, alguém com força política no Nordeste.

JC – Como político de oposição ao governo, como o senhor avalia os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

AN – O Lula teve seis anos de uma economia internacional benigna. Agora, passando a crise, a conjuntura financeira internacional vai entrar em um período de normalidade, em que há equilíbrio das economias e dificuldades a serem enfrentadas. Acredito que, pela boa fase da economia, nestes últimos seis anos benignos, o Brasil poderia ter avançado mais e aproveitado para fazer reformas estruturais. Mas a opção escolhida foi a popularidade. Não fez as reformas tão importantes para o Brasil, porque não queria acabar com a popularidade. Um estadista de verdade não hesita em correr riscos. Nestes sete anos, com a bonança econômica que tivemos e 12 anos de inflação baixa, crescer de 25% a 27%, é muito pouco. Temos ministérios demais, gastos demais. O Brasil precisa caber mais em seu orçamento. Mas sou oposição responsável. Aprovei 86% dos projetos enviados pelo governo Lula ao Congresso, por que concordava com eles. Quando precisou, fiz os projetos voltarem com emendas minhas, que foram aceitas pelo Lula e os projetos foram aprovados sem restrição. Ou seja, quando os projetos são bons para o Brasil eu aprovo sem pensar.

JC – Quais as reformas estruturais que faltam ao Brasil, em sua opinião?

AN – A principal delas é a reforma tributária. Como podemos compactuar com uma situação que nos demonstra que 38% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro vem de impostos e tributos? Não é aceitável o Brasil possuir uma carga tributária de país rico e oferecer uma estrutura de serviços públicos de país miserável. Estamos falando de 38% do PIB com tendência de crescimento. A arrecadação precisa sempre aumentar, mas só é saudável quando isso se dá pelo crescimento da economia, pelo aquecimento de nossas movimentações financeiras, aumento das vendas, do consumo e do poder aquisitivo da população. O Brasil é, hoje, a 9ª economia do mundo. Já está mais do que na hora de acertarmos estas contradições.

JC – O senhor é o parlamentar do Amazonas que possui mais experiência no Congresso Nacional. Como avalia a atuação da bancada do Estado em Brasília?

AN – Ainda temos muito o que melhorar. A bancada é formada por políticos, em sua maioria, muito interessados e ativos, mas a defesa do Amazonas necessita de mais força. Ainda é um grupo pequeno. Houve um esforço para se conseguir a autorização para aumentarmos em duas cadeiras este grupo, mas o Congresso vetou esta primeira batalha. Nossa meta é conseguir mais duas vagas para a bancada. O problema é que precisa haver muita vigilância no Congresso, principalmente, nos próximos três anos, em que serão votados projetos decisivos para a sobrevivência do nosso modelo industrial. Ocorre que, na maioria das vezes, que a ZFM (Zona Franca de Manaus) fica ameaçada por alguma brecha em projetos de lei, isso acontece de forma velada e são decisões que, se aprovadas, podem nos prejudicar muito. Como por exemplo, um projeto de lei apresentado pela bancada de outro Estado, o Nordeste, por exemplo, que não cita a ZFM, ou não sugere retirar os incentivos fiscais da nossa indústria, mas sugere abrir maior incentivo para a indústria de bicicletas naquele Estado. Isso prejudicaria a nossa produção, então, não vou aprovar. Precisamos estar vigilantes a todo momento, por que a toda hora surgem projetos que têm de ser estudados e avaliados em todos os seus itens. Nos próximos três anos, por exemplo, eu gostaria de estar no Congresso, porque será o momento em que precisaremos lutar pela prorrogação da ZFM e porque precisaremos tomar um cuidado redobrado durante a realização da reforma tributária, que vai acontecer nos próximos anos. Se brincarmos, vamos sair com prejuízos tremendos.

JC – Qual a sua expectativa para as eleições deste ano?
Serra é candidato à Presidência pelo PSDB e o Serafim Corrêa é candidato ao governo do Amazonas?

AN – Poderá ser. Esse é um caso muito especial. O Serafim tem força, tem vontade, é honesto e companheiro. É um político sério e já provou que é competente. O problema todo é que precisamos olhar o cenário eleitoral como um todo. Ainda nos resta um problema. E eu ainda quero saber o que vai acontecer a partir do dia 3 de abril. Por exemplo, se o prefeito Amazonino for candidato a governador, o cenário é um. Ele ainda tem muito poder no interior, embora não esteja em sua melhor fase em Manaus. Mas ele é um forte candidato. Não é candidato?, como acho que não é, então vamos voltar a imaginar este cenário que existe desde o início. Volto a afirmar, o Serafim tem capacidade administrativa e densidade em Manaus. Falta um pouco de peso no interior, o que pode sempre ser superado. Isso aí com uma coligação forte pode ser revertido.

JC – O senhor foi eleito, no final de 2009, como o segundo parlamentar mais influente no Congresso Nacional e possui força no interior. Não seria o caso de lançar-se ao governo?

AN – Sim. Por isso precisamos esperar a definição do cenário no próximo mês. Eu percorro o interior todo dia, praticamente, sei o que estamos fazendo. Se o Amazonino é candidato, muda tudo e eu vou precisar buscar a nossa representatividade de uma forma mais agressiva e eu tenho densidade para isso. Não gostaria, a princípio, de me afastar do Congresso neste momento, por todos os motivos do mundo. Sei que os próximos três anos serão difíceis e que vamos precisar de atenção e força para não deixar nada abalar a nossa economia do Amazonas e nada prejudicar nossa indústria, principalmente. O que o povo precisa saber é que, não basta apenas possuir um governador forte e articulado. O Estado depende da atuação de seus parlamentares, no que se refere à liberação de verbas do governo federal e no que se refere à formulação de leis que nos tragam vantagens e espaço para continuar crescendo. Se eu saio, pela vontade popular, outro político vai ter que construir toda a autoridade, influencia e experiência para defender nosso povo e isso demanda tempo. E, no caso, teremos reforma tributária, votação da prorrogação da ZFM e isso tudo pode ameaçar seriamente o Amazonas. Hoje, gozamos de uma confortável posição perante o mundo inteiro. Somos, praticamente, o Estado que representa os cuidados com o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Isso só é possível porque o Estado possui defensores. Mas, se o nosso grupo político precisar, colocarei meu nome sempre a disposição para representar o Amazonas.

JC – O senhor não teme uma votação inexpressiva ao seu candidato, José Serra, no Amazonas, uma vez que há boatos de que ele seria contra a ZFM?

AN – Não existe isso. É conversa. O que ocorre é que ele, quando foi deputado federal, defendia com bastante força, os interesses do seu Estado, assim como eu defendo, sem nenhuma exceção os interesses do meu. Lembro-me que havia na bancada de São Paulo, sempre muito numerosa, a um certo momento na política brasileira, quatro grandes parlamentares paulistas, brigando pelos benefícios ao Estado paulista. Eram eles, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Serra e Mário Covas, todos lutando pelo seu Estado. Como deputado, o papel dele é lutar pelos interesses de seu povo. Já quando foi ministro do Planejamento, no governo FHC, José Serra acabou com as fraudes que existiam na Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), criando mecanismos e regras fixas que não permitiram mais escândalos, transformando a entidade no que ela é hoje. Como ministro da Saúde, quebrou as patentes dos remédios para a Aids, ficou conhecido como o homem dos genéricos. Como prefeito de São Paulo, lutou exclusivamente pelos interesses da capital, mas como presidente da República, precisará olhar o país como um todo, assim como os outros presidentes fizeram. Sei que o Amazonas possui um carinho grande com Lula e que a Dilma ganha no meu Estado, mas faço toda a questão de apresentar o Serra como uma opção confiável.

JC – Em sua opinião, Lula conseguirá transferir votos? Considera essa eleição difícil?

AN – O Lula é um fenômeno, sim. Mas, mesmo ele, possui história de vida política, com luta e experiência em eleições. Mesmo ele precisou perder algumas eleições para acumular conhecimento, experiência e se tornar a opção preferida da população há sete anos. Ele concorreu em 8 turnos em 5 eleições. No entanto, a ministra Dilma, possui competência técnica, mas não tem nada do que o presidente possui. Ela é um improviso, com todo o respeito que tenho ao seu trabalho. O problema é que ele quer fazer o seu sucessor, como é direito dele, mas Dilma é uma pessoa sem trajetória política. Penso que deva existir uma ascensão do candidato até concorrer ao maior cargo do país, porque assim há, verdadeiramente, uma escolha popular. O candidato vai se submetendo à vontade da população. Se hoje ela tem indicação nas pesquisa de opinião, é porque ele transferiu votos sim, porque se pensarmos bem, ela não teria voto nenhum, porque nunca foi submetida à avaliação popular. Mas daí a eleger uma pessoa que até pouco tempo era desconhecida, isso é uma coisa que o povo tem medo. É só lembrarmos do que aconteceu com Collor (Fernando Collor de Melo). Aquela conversa de marajá, aquele candidato que virou presidente de uma hora para outra, sem experiência nenhuma. E foi o terror que foi. Não gosto de improviso.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar