O desenvolvimento de um Estado começa muito antes da inauguração de uma indústria, da abertura de uma loja ou da instalação de um novo empreendimento. Começa pela infraestrutura que permite produzir. No Amazonas, poucas questões são tão determinantes quanto a energia elétrica. Quando o fornecimento é caro, instável ou insuficiente, toda a economia sente. O impacto chega à indústria, ao comércio, aos serviços, à produção rural e ao pequeno empreendedor, alcançando também as famílias que precisam administrar um orçamento cada vez mais pressionado pelos custos essenciais. Energia, portanto, não é apenas uma questão tarifária. É uma questão de desenvolvimento.
O momento exige que o Amazonas trate esse assunto com a dimensão que ele merece. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) manteve a bandeira tarifária amarela em setembro, com cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. Segundo a ANEEL, a medida decorre de condições menos favoráveis de geração no País e da necessidade de utilização de fontes de geração com custos mais elevados. A bandeira amarela está em vigor desde maio. O dado, isoladamente, já chama atenção. Mas, para o Amazonas, a discussão precisa ser ainda mais ampla porque parte significativa do território possui características energéticas muito diferentes das observadas nos grandes centros urbanos brasileiros.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no Planejamento do Atendimento aos Sistemas Isolados de 2025, avaliou o suprimento de energia de quase 2 milhões de pessoas distribuídas em 160 localidades isoladas. O documento destaca que o planejamento precisa conciliar segurança energética, desenvolvimento econômico, sustentabilidade e acesso à energia. Essa realidade é particularmente importante para o Amazonas, onde a distância entre comunidades, a dimensão territorial e as dificuldades logísticas tornam a oferta de energia um dos maiores desafios para a integração econômica e social do Estado. Não estamos falando apenas de levar eletricidade a uma comunidade. Estamos falando de criar condições para que essa comunidade possa produzir, empreender e melhorar a qualidade de vida de sua população.
O Governo Federal já reconhece que a transição energética na Amazônia precisa considerar essa realidade. O Ministério de Minas e Energia informa que o Programa Energias da Amazônia já promoveu 13 interligações ao Sistema Interligado Nacional, beneficiando mais de 500 mil consumidores na Amazônia Legal. No leilão de Sistemas Isolados realizado em 2025, foram contratados mais de 50 megawatts de potência, com investimentos de R$ 312 milhões, para atender aproximadamente 30 mil pessoas em localidades remotas do Amazonas e do Pará. São avanços importantes, mas a dimensão da Amazônia exige continuidade e escala. O desafio é transformar cada nova etapa da infraestrutura energética em oportunidade de desenvolvimento, inclusive com o uso de soluções renováveis e tecnologias adequadas às características de cada localidade.
Essa agenda precisa estar diretamente ligada à economia amazonense. A Zona Franca de Manaus, que concentra um dos mais importantes polos industriais do País, depende de infraestrutura capaz de oferecer previsibilidade e competitividade. O mesmo vale para o comércio, os serviços, as pequenas empresas e os empreendimentos que começam a surgir no interior. Nenhuma política de atração de investimentos será completa se não considerar o custo da energia e a segurança do fornecimento. O empresário precisa saber quanto custa produzir hoje e ter segurança razoável sobre as condições que encontrará amanhã.
Também precisamos olhar para a energia como instrumento de interiorização do desenvolvimento. Uma comunidade que recebe fornecimento confiável passa a ter melhores condições para conservar alimentos, ampliar atividades comerciais, utilizar equipamentos, acessar tecnologia e agregar valor à produção. A eletricidade pode significar uma pequena agroindústria, uma unidade de beneficiamento, um empreendimento de turismo, uma atividade de piscicultura ou novas oportunidades para quem deseja permanecer no próprio município. O desenvolvimento do interior não pode depender apenas da transferência de recursos públicos. Ele precisa criar condições para que a economia local também produza riqueza.
Por isso, defendo que o debate energético do Amazonas seja tratado como política de Estado. Precisamos avançar na expansão e modernização da infraestrutura, reduzir perdas, ampliar as interligações quando houver viabilidade, desenvolver soluções adequadas para as localidades isoladas e estimular fontes renováveis que possam reduzir a dependência de combustíveis mais caros e poluentes. Como parlamentar amazonense, tenho levado essa preocupação ao debate nacional. Diante da manutenção da bandeira amarela, apresentei requerimento ao Ministério de Minas e Energia para obter esclarecimentos sobre os critérios utilizados para a definição da cobrança e seus possíveis impactos sobre consumidores e atividades econômicas no Estado. É papel do Parlamento fiscalizar, questionar e buscar informações que permitam compreender como decisões nacionais repercutem na vida dos brasileiros.
O Amazonas possui uma das maiores riquezas naturais do planeta, uma indústria consolidada e um enorme potencial para desenvolver novas atividades econômicas associadas à tecnologia, à bioeconomia e ao aproveitamento sustentável de seus recursos. Mas potencial não se transforma automaticamente em prosperidade. É preciso infraestrutura, investimento, segurança jurídica, logística e energia. Energia é desenvolvimento porque permite produzir, conservar, transportar, comunicar, empreender e gerar oportunidades. Para o Amazonas, é também uma questão de integração territorial. Precisamos garantir que ela chegue onde as pessoas vivem, com qualidade, segurança e condições que permitam transformar eletricidade em trabalho, renda e prosperidade. O Amazonas não pode ser apenas um território com enorme potencial energético e econômico. Precisa ser um Estado capaz de transformar seu potencial em desenvolvimento para quem vive aqui.







