Pirarucu, a riqueza que o Amazonas ainda não transformou

Em: 21 de setembro de 2026

O Amazonas tem diante de si uma das maiores oportunidades para transformar biodiversidade em atividade econômica de longo alcance. O pirarucu, espécie emblemática dos rios amazônicos, já movimenta pescadores, comunidades, frigoríficos, comerciantes e uma cadeia crescente de beneficiamento, mas ainda está muito aquém do valor que pode alcançar. O problema é que o Amazonas aprendeu a conservar o pirarucu, mas ainda não aprendeu a industrializar a riqueza que ele representa. O ribeirinho continua concentrado na etapa mais simples e menos remunerada da cadeia, enquanto o maior valor econômico é produzido longe da comunidade que protege, maneja e captura o peixe.

Poucas espécies traduzem tão bem a possibilidade de conciliar conservação ambiental e geração de renda. O manejo do pirarucu transformou a proteção dos estoques em parte da própria atividade econômica, criando uma lógica simples e poderosa. O peixe precisa ser preservado para continuar produzindo. No Amazonas, essa atividade ocorre inclusive em Unidades de Conservação estaduais e em áreas submetidas a Acordos de Pesca. Mas conservar o recurso sem criar mecanismos para que quem vive dele avance economicamente significa preservar o peixe sem necessariamente superar a pobreza de quem o maneja.

É preciso reconhecer que a simples exploração sustentável da mão de obra ribeirinha não gera, por si só, riqueza. Pode gerar tão somente sobrevivência, e essa diferença é fundamental. Se a comunidade captura, entrega o pescado e recebe apenas pelo produto primário, o ciclo econômico termina justamente onde deveria começar. A maior parte do valor pode ser criada depois, no processamento, na embalagem, na transformação, na logística e na comercialização. O Amazonas não pode se contentar em ser fornecedor de matéria-prima de uma riqueza que nasceu em seus próprios rios.

Essa experiência ganhou uma nova dimensão com a criação, em fevereiro de 2025, do Programa Arapaima, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A iniciativa busca fortalecer tão somente o manejo, a proteção territorial, o monitoramento e a organização coletiva dos pescadores, além de apoiar benefícios socioeconômicos para as comunidades envolvidas. É um avanço importante, mas ainda insuficiente se a política pública continuar concentrada na conservação e na primeira etapa da cadeia. O próximo passo precisa ser econômico e industrial, conectando a proteção do recurso à capacidade de gerar novos negócios no próprio Estado.

Há, porém, um problema que precisa ser enfrentado sem receio. A Amazônia não pode continuar sendo apenas território de projetos, pesquisas e captação de recursos em nome da conservação, enquanto as comunidades permanecem com poucas alternativas para transformar seus próprios recursos em prosperidade. Existem organizações não governamentais que prestam contribuição relevante, mas a atuação de qualquer instituição precisa ser medida também pela capacidade de produzir autonomia econômica, conhecimento aplicado, negócios e renda para quem vive no território. Não basta conservar o pirarucu, monitorar o estoque ou organizar a captura. É preciso fazer com que a riqueza gerada a partir desse trabalho alcance efetivamente o ribeirinho.

É justamente aí que está uma das grandes oportunidades. O pirarucu precisa deixar de ser tratado apenas como pescado e passar a ser encarado como matéria-prima de uma indústria amazônica. Carne processada, cortes especiais, produtos congelados, alimentos preparados, couro e outros derivados podem compor uma cadeia de maior valor agregado. O objetivo não deve ser simplesmente vender mais peixe, mas fazer com que cada peixe gere mais riqueza antes de deixar o Amazonas. Quanto maior o número de etapas realizadas localmente, maior também será a capacidade de gerar empregos e renda.

Uma solução concreta seria discutir a criação de um Processo Produtivo Básico (PPB) específico para determinados produtos industrializados derivados do pirarucu, desde que estudos técnicos demonstrem viabilidade econômica e ambiental. O PPB estabelece as operações mínimas realizadas no estabelecimento fabril para caracterizar a efetiva industrialização e é utilizado como contrapartida aos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. Um PPB voltado a produtos do pirarucu poderia criar condições para atrair empresas, estimular plantas industriais, ampliar o beneficiamento no Estado e aproximar a produção ribeirinha de uma indústria capaz de remunerar melhor toda a cadeia.

Não se trata de distribuir incentivos sem contrapartidas, mas de estabelecer uma política industrial com metas claras de agregação de valor, geração de empregos, aquisição da matéria-prima manejada e desenvolvimento tecnológico no Amazonas. O próprio modelo do PPB permite considerar investimentos, empregos, tecnologia, exportações e adensamento da cadeia produtiva. A discussão, portanto, precisa sair do campo das boas intenções e chegar ao terreno da política industrial. É necessário estabelecer compromissos objetivos para que o benefício econômico permaneça no Estado e alcance as comunidades que estão na origem da cadeia.

E o Amazonas já teve uma estrutura criada justamente para transformar a riqueza da floresta em conhecimento, produtos e negócios. O Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) existe desde 2002, mas ainda está longe de entregar tudo o que se esperava dele. O pirarucu pode ser uma oportunidade para mudar essa realidade. O CBA precisa sair do discurso e entrar na produção, ajudando a desenvolver produtos, tecnologia e empresas capazes de transformar uma riqueza que já existe nos rios em riqueza que permaneça no Amazonas.

O pirarucu oferece ao Amazonas uma possibilidade que merece ser tratada com seriedade. Não basta retirar o peixe do rio de forma sustentável. É preciso retirar dele o máximo de valor econômico possível sem retirar das futuras gerações a possibilidade de continuar pescando. A verdadeira conservação também passa pela criação de alternativas econômicas para quem protege os recursos naturais. O ribeirinho precisa ser reconhecido não apenas como pescador, mas como parte estratégica de uma cadeia produtiva que pode gerar indústria, tecnologia e renda.

O Amazonas não pode continuar exportando matéria-prima e importando valor agregado. Se o pirarucu é uma riqueza amazônica, a indústria construída em torno dele também precisa ser amazônica. O ribeirinho não pode permanecer apenas como fornecedor da matéria-prima enquanto outros elos acumulam o maior valor da cadeia. O caminho está em transformar manejo em produção, produção em indústria e indústria em prosperidade. O gigante dos rios já demonstrou que pode sobreviver quando é protegido. Falta agora demonstrar que também pode transformar a vida de quem vive às suas margens.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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