Mulheres ampliam seu espaço na economia do agro brasileiro

Em: 26 de setembro de 2026

A transformação do agronegócio brasileiro também pode ser medida por quem passou a ocupar os espaços de produção, gestão e decisão. As mulheres já representam uma parcela expressiva da força de trabalho do setor e avançam em atividades que envolvem administração, comercialização, empreendedorismo, assistência técnica e representação institucional. Não é apenas uma mudança na composição da mão de obra, mas na própria estrutura econômica do campo. No primeiro trimestre de 2025, o agronegócio brasileiro empregava 10,8 milhões de mulheres, o equivalente a 37,9% de sua força de trabalho, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a ocupação feminina cresceu 1,6%, enquanto entre os homens a variação foi de apenas 0,01%.

Esses números colocam a discussão em outro patamar. A mulher não está chegando agora ao agronegócio. Ela já está na produção, na administração das propriedades, na condução de negócios, na comercialização e em funções que exigem conhecimento técnico e capacidade de decisão. O que ainda não acompanha essa realidade é a dimensão de sua presença nos espaços em que são definidos crédito, assistência técnica, acesso a mercados, tecnologia e políticas públicas. A participação econômica cresceu, mas a representação institucional e a capacidade de influenciar decisões ainda precisam avançar na mesma proporção. Não se trata de criar um espaço para quem está fora, mas de reconhecer, inclusive nas estruturas de poder do setor, quem já participa diretamente da riqueza produzida no campo.

O Governo Federal já criou programas específicos para mulheres rurais, mas a existência de linhas, editais e câmaras temáticas não resolve, por si só, a desigualdade de acesso. Quando mais de 10 milhões de mulheres estão ocupadas no agronegócio brasileiro, não é razoável tratar sua participação como um nicho de política pública. O problema está na escala. Está na capilaridade. Está na capacidade de fazer o crédito chegar, a assistência técnica alcançar quem produz e a mulher participar das decisões que definem os rumos da atividade.

Há uma distância evidente entre a dimensão econômica que as mulheres já alcançaram no agro e o espaço que ocupam nas políticas desenhadas para o setor. Programas federais podem representar avanços pontuais, mas não substituem uma política de Estado proporcional ao peso que essas trabalhadoras, produtoras, gestoras e empreendedoras já possuem na economia rural brasileira. Um programa que alcança pouco mais de dez mil mulheres, por exemplo, não pode ser apresentado como resposta suficiente diante de uma força de trabalho feminina que já se conta em milhões. O que está em discussão, portanto, não é a existência de iniciativas, mas a dimensão de seu alcance e sua capacidade de produzir acesso efetivo para quem está distante dos centros de decisão.

É justamente aí que a discussão precisa deixar de ser simbólica. Não basta reconhecer a mulher do campo em campanhas, eventos ou estruturas administrativas. É preciso garantir condições concretas para que ela tenha acesso a crédito, tecnologia, assistência, mercados e representação institucional. No Amazonas, essa cobrança ganha dimensão ainda maior diante das características territoriais e logísticas do Estado. Uma política pública voltada às mulheres do agro precisa chegar às produtoras do interior, superar obstáculos de acesso e considerar as particularidades de uma atividade desenvolvida em uma região onde distância e logística interferem diretamente na produção, na comercialização e na obtenção de serviços.

O Amazonas também demonstra que a mobilização feminina não depende exclusivamente das estruturas governamentais. Em setembro, Santo Antônio do Matupi sediou a segunda edição do Encontro das Mulheres do Agro do Sul do Amazonas, organizado pelo Movimento das Mulheres do Agro do Sul do Amazonas, com participação dos Sindicatos Rurais de Manicoré e Apuí e presença de Antonielly Rottoli, vice-presidente da Comissão Nacional das Mulheres do Agro da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A iniciativa mostra que mulheres do interior amazonense estão construindo seus próprios espaços de organização, representação e debate sobre o papel que já exercem na economia regional. É uma manifestação concreta de uma movimentação que ultrapassa os grandes centros e alcança quem está diretamente envolvida na produção rural.

O ponto central não está em conceder às mulheres uma importância que elas ainda não possuem, mas em reconhecer institucionalmente uma importância que os próprios números já demonstram. Quem produz, administra patrimônio, movimenta negócios, participa de mercados e representa produtores precisa ter acesso proporcional aos instrumentos públicos e aos espaços de decisão que organizam o setor. O Governo Federal pode criar programas específicos, mas precisa ser cobrado pela escala, pela capilaridade e pela efetividade dessas políticas. O agro brasileiro já incorporou a força econômica feminina. Agora, crédito, assistência, representação e poder de decisão precisam acompanhar essa transformação. Quando uma parcela tão expressiva da economia rural é formada por mulheres, reconhecê-las apenas como público de políticas específicas é pouco. É preciso reconhecê-las pelo lugar que já conquistaram dentro da própria economia do agro brasileiro.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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