Na última sexta-feira, parei para ver o Super Terminais mover um módulo gigante de 600 toneladas de Manaus para Itacoatiara. É uma engenharia brutal: transferir carga de navios para balsas porque o nosso rio Negro não para de secar. Senhoras e senhores, a Operação Seca 2026 já está acontecendo debaixo dos nossos olhos. No mesmo dia, veio um alívio direto do Diário Oficial. A Antaq suspendeu as sobretaxas de seca que as gigantes do mar (ONE, Maersk e Aliança) queriam cobrar nos portos de Manaus. Para mim, que vivo o dia a dia da indústria de alimentos no Amazonas, esses dois fatos são o mesmíssimo assunto. De um lado, o porto corre para não parar; do outro, a conta dessa correria tenta arrombar a porta da nossa fábrica. E se a cobrança vier sem critério, ela estoura direto na mesa do consumidor. O setor portuário tem feito a sua parte, é verdade. O Marcello Di Gregorio, do Super Terminais, explicou que a capacidade de movimentação subiu cerca de 15% em relação a 2024. O Chibatão também correu para montar seu píer provisório no Tabocal. Essa correria contra o tempo é vital para que a Zona Franca não sofra o desabastecimento sufocante de 2023. Só que “urgência” não pode ser um cheque em branco. Os valores que as armadoras tentaram emplacar dão um nó no estômago pelo tamanho do abuso: A Maersk queria pular de US$ 1.228 por contêiner normal para assustadores US$ 4.646 com o uso do píer flutuante. A Aliança falou em R$ 4,8 mil no cenário comum, podendo chegar a surreais R$ 17,8 mil no pior momento da estiagem. A ONE começou em US$ 1.458 e cravou US$ 4.592, condicionando o preço à cota crítica de 17,70 metros. Felizmente, a Antaq deu um basta e concluiu o óbvio: faltou transparência técnica e econômica. A taxa da seca não foi proibida, mas está suspensa até que eles provem, centavo por centavo, esse custo extra. Nesse ponto, faço questão de aplaudir a Associação Comercial do Amazonas (ACA), que monitorou tudo de perto e exigiu justiça. Sem essa vigilância, o frete abusivo viraria custo automático para as empresas e, consequentemente, um preço proibitivo no supermercado. Esta já é a nossa terceira estiagem severa em apenas quatro anos. O rio Negro bateu os 18,59 metros no Porto de Manaus na última sexta. Estamos 89 centímetros acima do limite de alerta da Antaq, mas o Serviço Geológico do Brasil projeta o rio na casa dos 16,50 metros até o fim de outubro. A seca vai apertar. E preparação sem regra clara é a receita perfeita para o frete inflacionado e insumo mais caro. No Sindicato das Indústrias de Alimentos de Manaus (SIAM), onde tenho o orgulho de ser presidente, a gente não discute isso na teoria. A gente sente o golpe direto na planilha. Quase tudo o que a nossa indústria transforma ou usa para embalar chega navegando pelo rio. Se o nível da água cai, o custo sobe no mesmo dia. Isso mexe com o preço do prato de comida e dita se vamos ou não manter os turnos de trabalho na fábrica.
Mas existe uma saída inteligente, um caminho que diminui nossa dependência dos portos e nos devolve a soberania. Quanto mais fortes forem o produtor rural e a indústria de alimentos do próprio Amazonas, menos a nossa comida vai depender do contêiner que precisa subir o rio. Se tivermos agricultura, pecuária e pesca com escala, produzindo perto de quem industrializa, a gente encurta caminhos, gera emprego no interior e se blinda contra o frete abusivo. Um campo forte e uma fábrica robusta são os melhores escudos do Amazonas contra a próxima seca. Por isso, defendo no SIAM que a Operação Seca seja tratada de forma estratégica, como política industrial na veia. Dragagem dos rios, previsibilidade e fiscalização dura da Antaq são o que separam uma gestão séria do puro improviso.
União e Estado precisam acelerar o crédito, a assistência técnica e a infraestrutura para quem planta e para quem fabrica aqui. O alimento feito em Manaus não pode pagar sozinho a conta de um rio que nós já sabemos que vai baixar todo ano. A melhor e mais definitiva resposta à estiagem é produzir mais aqui dentro da nossa terra. Não pedimos privilégios, pedimos condições para trabalhar. Sem um rio navegável e regras justas, cada nova seca vira um imposto disfarçado cobrado direto na mesa do trabalhador.















