O “Procurando Nemo” do Líder

Em: 8 de outubro de 2026

Liderar é, em muitos aspectos, como atravessar um oceano. Há dias de águas tranquilas, outros de correnteza forte, momentos em que o caminho parece evidente e situações em que é preciso parar, observar e decidir novamente para onde seguir. Em meio a essa jornada, até os líderes mais experientes podem cometer erros que, embora pareçam pequenos no cotidiano, produzem impactos significativos sobre pessoas, resultados e relações.

Uma maneira curiosa de compreender esses comportamentos está em uma das histórias mais conhecidas do cinema: Procurando Nemo. A aventura de Nemo, Marlin e Dori apresenta muito mais do que uma história infantil sobre peixes. Ela traz elementos que permitem refletir sobre confiança, autonomia, comunicação, direção, acompanhamento e, principalmente, sobre os efeitos das escolhas feitas ao longo de uma jornada.

Dori, com sua personalidade espontânea e sua conhecida dificuldade de memória, oferece uma metáfora interessante para um dos erros frequentes da liderança: a falta de acompanhamento. No ambiente corporativo, frases como “eu tinha esquecido”, “não lembrava desse combinado” ou “achei que isso já estava resolvido” podem parecer corriqueiras. Entretanto, quando se tornam recorrentes, revelam algo maior: a ausência de consistência na gestão.

Um líder não precisa memorizar absolutamente tudo. Precisa, porém, criar mecanismos para que aquilo que foi combinado não dependa exclusivamente da memória. Registrar decisões, estabelecer responsáveis, definir prazos e realizar acompanhamentos são atitudes simples que evitam retrabalho e reduzem ruídos. O problema não está em esquecer ocasionalmente; está em permitir que o esquecimento se transforme em padrão de funcionamento.

Dori também ficou marcada por uma frase que atravessou gerações: “continue a nadar”. A expressão representa perseverança, mas pode ganhar outro significado quando levada para o mundo da liderança. Continuar nadando é importante, mas existe uma pergunta ainda mais importante: para onde?

Há líderes e equipes que trabalham intensamente, participam de inúmeras reuniões, respondem mensagens, resolvem problemas e entregam resultados. Ainda assim, terminam o dia com a sensação de que estiveram ocupados sem necessariamente terem avançado. O movimento existe, mas a direção nem sempre está clara. E esforço sem direção pode produzir cansaço, não necessariamente progresso.

Uma liderança efetiva precisa transformar movimento em propósito. As pessoas precisam compreender prioridades, expectativas e critérios de sucesso. Quando todos sabem o que precisa ser feito, por que aquilo importa e qual resultado se espera, a energia da equipe deixa de ser apenas operacional e passa a estar conectada a uma direção comum.

Outro personagem importante nessa reflexão é Marlin, pai de Nemo. Movido pelo amor e pelo medo de perder o filho, ele tenta protegê-lo constantemente. Sua intenção é legítima, mas, em determinados momentos, sua proteção se transforma em controle. Essa dinâmica encontra um paralelo bastante conhecido nas organizações: a microgestão.

O líder que revisa cada detalhe, toma de volta tarefas que delegou, centraliza decisões e acompanha excessivamente cada movimento da equipe pode acreditar que está garantindo qualidade. Entretanto, quando o controle ocupa o espaço que deveria ser destinado ao desenvolvimento, a equipe aprende uma mensagem perigosa: “é melhor esperar o líder decidir”.

Autonomia não significa ausência de acompanhamento. Significa criar condições para que as pessoas desenvolvam capacidade de decidir, agir e responder pelos resultados. O papel do líder não é fazer tudo pela equipe, mas ampliar a capacidade da equipe de fazer cada vez melhor por si mesma.

Existe ainda uma dimensão mais sutil nessa história: a confiança. Dori não possui todas as respostas. Em vários momentos, ela também não sabe exatamente como chegar ao destino. Ainda assim, participa da jornada, contribui com suas características e ajuda a construir soluções ao longo do caminho. Essa é uma importante lembrança para a liderança contemporânea: o líder não precisa ser a pessoa que sabe tudo.

Liderar também significa saber perguntar, escutar, reconhecer limites e construir respostas com outras pessoas. A autoridade de um líder não diminui quando ele admite que precisa ouvir alguém. Ao contrário, quando existe segurança para dialogar, diferentes conhecimentos podem ser combinados e decisões podem se tornar mais consistentes.

Outro erro que merece atenção aparece quando a liderança muda constantemente de direção. Hoje uma prioridade é urgente; amanhã outra ocupa seu lugar; depois, uma nova orientação surge. A equipe passa a gastar energia tentando entender qual é a direção atual, em vez de concentrá-la na execução.

Mudanças são inevitáveis nas organizações. O problema não está em rever prioridades quando o contexto muda, mas em fazê-lo sem comunicação, critérios ou clareza. Quando uma decisão precisa ser alterada, explicar o motivo da mudança ajuda a preservar a confiança e permite que a equipe compreenda o contexto, em vez de simplesmente receber mais uma ordem.

Os erros de liderança, portanto, raramente aparecem isolados. A falta de acompanhamento pode gerar retrabalho. O excesso de controle pode reduzir autonomia. A ausência de direção pode produzir esforço desperdiçado. A comunicação inconsistente pode gerar insegurança. E a falta de confiança pode fazer com que pessoas competentes deixem de contribuir plenamente.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “qual erro meu eu cometo?”, mas “qual custo minha forma de liderar pode estar produzindo sem que eu perceba?”. Essa mudança de perspectiva transforma o erro em instrumento de aprendizagem. O objetivo não é encontrar culpados, mas identificar comportamentos, compreender consequências e escolher novas formas de agir.

Uma liderança madura não é aquela que nunca erra. É aquela que desenvolve capacidade de perceber rapidamente quando determinado comportamento deixou de produzir o resultado esperado. Autoconsciência, nesse contexto, deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a ser uma ferramenta de gestão.

No fundo, a jornada de Nemo, Marlin e Dori também fala sobre isso: ninguém atravessa um oceano sozinho. Liderança envolve pessoas, relações, escolhas e caminhos compartilhados. Há momentos para proteger, momentos para confiar, momentos para orientar e momentos para permitir que o outro nade sozinho.

Talvez essa seja uma das maiores provocações que Procurando Nemo pode trazer para o universo corporativo: não basta continuar nadando. É preciso saber para onde se está indo, quem está ao seu lado, quais obstáculos podem aparecer e, principalmente, que tipo de líder você está sendo durante essa travessia.

Porque os erros de liderança tem custos. Alguns aparecem nos indicadores, nos prazos e nos resultados. Outros aparecem no silêncio de uma equipe que deixou de propor ideias, na dependência criada pelo excesso de controle ou no retrabalho provocado por um combinado que nunca foi acompanhado.

A boa notícia é que consciência também produz escolha. Ao reconhecer um padrão, o líder pode mudar uma conversa, uma rotina, uma forma de delegar, um acompanhamento ou uma decisão. Pequenas mudanças de comportamento podem alterar significativamente a experiência de quem está sendo liderado.

No fim, a pergunta que fica é simples e poderosa: na sua liderança, você está apenas nadando ou está conduzindo sua equipe para algum lugar? Talvez seja justamente nessa resposta que esteja o próximo passo para transformar erros em aprendizado, aprendizado em ação e ação em uma liderança que gera resultados e deixa um legado positivo.

Cintia Lima

Psicóloga, Trainer e Mentora de Líderes

@psi.cintialima

 

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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