Dando continuidade ao projeto Vozes da Educação de Manaus (VEM), conheça hoje a história de vida do professor Raimundo Saúde. Natural de Juruti, no Pará, chegou a Manaus com a família em 1987 e construiu sua trajetória profissional conciliando trabalho e estudos. Graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), atuou na educação básica, em escolas urbanas e rurais, e também no ensino superior. Nesta entrevista, compartilha experiências marcantes de sua carreira, reflete sobre os desafios da educação pública atual e destaca a importância da valorização dos professores e do compromisso com a aprendizagem. Boa leitura!
- Quem é você? Apresente-se para os nossos leitores!
Meu nome é Raimundo Saúde Vega Diniz, tenho 56 anos e sou natural de Juruti, no estado do Pará. Nasci em 2 de fevereiro de 1970, na comunidade rural de Areal. Sou o quarto dos dez filhos do casal Manoel Lima Diniz, pequeno comerciante e produtor rural, e Raimunda Vega Diniz, dona de casa. Minha família migrou para Manaus em 1987, onde concluí o ensino básico e o ensino médio técnico em Administração de Empresas. Dos 18 aos 26 anos, trabalhei em diferentes atividades, como ajudante de garçom, pedreiro e loja de material de construção. Também fui operário durante oito anos em empresas do então chamado Distrito Industrial, sem nunca abandonar os estudos. Em 1997, retomei os estudos formais no Instituto de Educação do Amazonas, no curso de Magistério. Posteriormente, por orientação, optei pelo curso superior de História na então Universidade do Amazonas (UA), atual Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde concluí a graduação em 2000 e a pós-graduação em 2004.
- Quando a sala de aula passou a fazer parte da sua vida? Quais lembranças mais marcantes desse início ainda acompanham você?
Minha trajetória docente começou em 1999, ainda durante a graduação em História. Aos 29 anos, comecei a ministrar aulas em escolas estaduais de Manaus, nos ensinos fundamental e médio. Entre os 29 e os 31 anos, também lecionei na zona rural ribeirinha de Manaus. Foram experiências desafiadoras, cada uma com suas particularidades. Na área urbana, percebia certo desinteresse dos estudantes pelos estudos, mesmo com maior estrutura nas escolas. Já na zona rural, apesar das inúmeras dificuldades, encontrei respeito pelo professor e interesse pela educação. Essas experiências marcaram minha trajetória e ampliaram minha compreensão sobre os diferentes contextos educacionais. Entre 2002 e 2004, também atuei como professor credenciado e substituto da Universidade Federal do Amazonas, ministrando aulas no curso de História, tanto na capital quanto no interior do estado, por meio do Programa Especial de Formação de Docentes (PEFD).
- Olhando para trás, qual foi a mudança mais profunda que você percebeu na educação ao longo de sua trajetória?
Ao longo de 27 anos no magistério, especialmente na educação básica, percebi mudanças preocupantes, entre elas a banalização da educação pública. Isso se manifesta no desrespeito aos profissionais do magistério, por parte de governos e da sociedade, e nos processos de aprovação automática de estudantes sem a aprendizagem correspondente. Quando os índices educacionais positivos se tornam mais importantes do que a aprendizagem efetiva, os resultados são catastróficos. Essa realidade compromete a qualidade do ensino e dificulta a construção de uma sociedade mais justa, sobretudo para os setores menos favorecidos da população. Apesar desse cenário, continuo acreditando que a educação é uma condição indispensável para a prosperidade individual e coletiva. Como historiador, compreendo que a História é marcada por avanços e recuos. Por isso, minha angústia é amenizada pela consciência de que já vivemos situações piores, quando o ensino sequer era oferecido à maioria dos brasileiros.
- Que horizontes você ainda deseja alcançar na educação? Há algum sonho ou projeto que guarda consigo e gostaria de realizar?
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela educação pública, gostaria de presenciar uma reviravolta que promovesse melhorias efetivas na qualidade do ensino. Ainda guardo a esperança de que a educação volte a ocupar o lugar que merece na sociedade, com valorização dos professores, respeito aos profissionais e compromisso verdadeiro com a aprendizagem dos estudantes. Acredito que investir na educação pública é fortalecer as possibilidades de transformação social, especialmente para aqueles que encontram nela uma oportunidade de mudar suas condições de vida. Meu desejo é continuar contribuindo para esse processo e testemunhar avanços que ultrapassem os índices estatísticos e se traduzam em aprendizagem, conhecimento e melhores oportunidades para todos.
- Deixe uma mensagem de inspiração aos colegas professores e a todos aqueles que leem sua história!
Apesar do quadro difícil da educação pública, não devemos perder a compreensão de que a educação é fundamental para o desenvolvimento individual e coletivo. Como nos ensina a História, os processos sociais não seguem uma linha contínua de avanços: há momentos de conquistas e outros de retrocessos. O historiador inglês Peter Burke compara o processo histórico, para o observador, ao serpentear de uma procissão, que ora avança, ora recua. Essa perspectiva nos ajuda a compreender que as dificuldades do presente não precisam representar o fim das nossas esperanças. Aos colegas professores, deixo a mensagem de que continuemos defendendo uma educação pública de qualidade, comprometida com a aprendizagem, a dignidade humana e a transformação social. Mesmo diante dos obstáculos, precisamos acreditar que o conhecimento continua sendo um dos caminhos mais importantes para construir uma sociedade melhor.















