Uma mercadoria que chega a Manaus vinda de outro país precisa cumprir uma série de exigências antes de seguir para uma fábrica, uma loja ou o consumidor. Entre documentos, normas tributárias e procedimentos de fiscalização, há um profissional responsável por ajudar a fazer essa engrenagem funcionar: o despachante aduaneiro. Foi em torno desse trabalho, cada vez mais pressionado por mudanças tecnológicas e regulatórias, que especialistas de diferentes regiões do país se reuniram nesta quinta-feira (22), no Porto de Chibatão, zona sul de Manaus.
O 9º Fórum Nacional dos Despachantes Aduaneiros, promovido pela Associação dos Despachantes Aduaneiros do Brasil (ADAB), colocou em pauta o futuro da profissão, a aplicação da inteligência artificial, a gestão de riscos e as particularidades do comércio exterior na Amazônia. A escolha da capital amazonense também evidenciou a importância da estrutura portuária regional para a circulação de mercadorias no país.
Em 2025, o Amazonas movimentou 1.017.084 TEUs, unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés. Desse total, 711.539 TEUs passaram pelo Porto de Chibatão, segundo dados do Estatístico Aquaviário da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
Para o presidente da ADAB, Valter Rezende de Oliveira, levar o encontro para o Norte significa reconhecer a relevância logística de uma região que nem sempre recebe eventos nacionais do setor.
“Manaus hoje tem um papel importantíssimo na área de comércio exterior”, afirmou. Segundo ele, a estrutura do Porto de Chibatão chamou a atenção dos participantes. “Os eventos hoje são consolidados no Sudeste. E por que não fazer no Norte?”
O profissional por trás da liberação das cargas
Embora nem sempre apareça para quem compra um produto, o despachante aduaneiro tem participação importante no caminho percorrido pelas mercadorias importadas e exportadas. É ele quem atua na preparação e no acompanhamento dos procedimentos aduaneiros, interpretando regras e organizando informações exigidas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização.

A dimensão dessa atividade aparece nas estimativas do setor: mais de 95% das operações de comércio exterior passam pelas mãos desses profissionais, segundo informações do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (Sindasp) e da Federação Nacional dos Despachantes Aduaneiros (Feaduaneiros).
No Brasil, esse trabalho envolve interlocução com instituições como a Receita Federal e, conforme o tipo de mercadoria, outros órgãos de controle. Um documento incompleto, uma classificação inadequada ou o desconhecimento de uma exigência pode gerar atrasos e custos adicionais para empresas que dependem da carga.
O diretor executivo do Grupo Chibatão, Jhony Fidelis Ramos, destacou que o profissional precisa compreender a legislação e traduzir as exigências para a indústria e o comércio.
“Ele é a peça fundamental no entendimento da legislação e de todo o processo de liberação dessa carga”, disse. Para Jhony, a atuação do despachante contribui para que as empresas cumpram as normas brasileiras e tenham mais agilidade nas operações.
Essa função ganha importância em Manaus, onde o abastecimento e a atividade industrial dependem de uma logística que combina transporte aquaviário, operações portuárias e deslocamentos por longas distâncias.

Inteligência artificial: aliada, não substituta
A tecnologia foi outro eixo do fórum. Com sistemas capazes de processar grandes volumes de informações, identificar inconsistências e automatizar tarefas, a inteligência artificial abre novas possibilidades para o trabalho aduaneiro. Ao mesmo tempo, amplia a necessidade de atualização profissional.
A discussão proposta pelo evento não se limita a substituir tarefas manuais por sistemas digitais. O desafio é entender como essas ferramentas podem apoiar a análise documental, facilitar o acesso às informações e reduzir falhas, sem dispensar o conhecimento técnico necessário para interpretar as regras e responder às exigências dos órgãos fiscalizadores.
Valter Rezende avalia que a tecnologia pode fortalecer a atuação da categoria. A modernização, porém, exige profissionais preparados para compreender as mercadorias e as informações que acompanham cada operação.

O presidente da ADAB também defendeu maior reconhecimento da profissão pelas autoridades aduaneiras. Para ele, a participação dos despachantes no comércio exterior precisa ser acompanhada de capacitação e valorização profissional.
Formação de mão de obra é desafio para a região
Além da tecnologia, a qualificação dos trabalhadores foi destacada pela direção do Grupo Chibatão. Jhony Fidelis afirmou que a região Norte ainda enfrenta dificuldades para ampliar a disponibilidade de profissionais especializados em logística e operação portuária.
“A nossa mão de obra, quando voltada para logística e operação portuária, é uma mão de obra muito técnica. Então, há necessidade de desenvolver essa mão de obra”, afirmou.
O executivo disse que o grupo pretende contribuir para a formação de profissionais no Amazonas, ampliando as oportunidades para trabalhadores locais em vez de depender exclusivamente de pessoas recrutadas em outras regiões.
A realização do fórum no porto também permitiu aproximar os participantes da rotina operacional, com uma visita técnica ao píer. A programação reuniu representantes da ADAB, da Receita Federal, da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e especialistas convidados para discutir os desafios e as perspectivas do setor.
Ao colocar lado a lado infraestrutura, legislação, inteligência artificial e qualificação profissional, o encontro mostrou que o futuro do comércio exterior não depende apenas de portos capazes de movimentar mais contêineres. Depende também de pessoas preparadas para fazer a carga avançar em meio às exigências de um mercado cada vez mais tecnológico e conectado.














