Vozes da Educação de Manaus: Daniel Souza

Em: 27 de outubro de 2026

Chegamos à última entrevista do projeto VEM de 2026 com a história do professor Daniel Souza, que há mais de 30 anos atua na rede municipal de ensino de Manaus. Nesta edição, ele compartilha suas experiências, os desafios da carreira e suas reflexões sobre as transformações da educação. Leia, conheça sua trajetória e valorize nossos educadores!

  1. Quem é você? Apresente-se para as nossas leitoras e leitores!

Meu nome é Daniel Souza. Sou natural de Manaus, cidade onde nasci em 1969 e onde vivo até hoje. Venho de uma família de origem humilde e sempre estudei em escolas públicas. Sou licenciado na área de Ciências e professor da rede municipal de ensino fundamental de Manaus há mais de 30 anos. Ingressei na Secretaria Municipal de Educação (Semed) em 1995, após aprovação em concurso público, e desde então continuo exercendo a mesma profissão. Às vezes, tenho a sensação de que não sei fazer outra coisa a não ser lecionar. Espero que seja apenas isso, porque, apesar de todos os desafios, continuo seguindo na educação.

  1. Quando a sala de aula passou a fazer parte da sua vida? Quais lembranças mais marcantes desse início ainda acompanham você?

Minha trajetória na sala de aula começou em 1995, quando tomei posse como professor da rede municipal de ensino. Confesso que, logo no primeiro ano, pensei em desistir. Dizia a mim mesmo: “Isso não é vida para mim”. Meus planos eram trabalhar apenas durante aquele ano e procurar outra ocupação no ano seguinte, fosse ela qual fosse. Entretanto, com o passar do tempo, percebi que os desafios da profissão não eram impossíveis de enfrentar. A experiência adquirida em sala de aula foi fundamental para que eu permanecesse na educação. Enfrentei dificuldades com alunos que ainda não sabiam ler e com outros que demonstravam pouco interesse pela aprendizagem. Esses foram apenas alguns dos obstáculos que encontrei ao longo do caminho. Não estou dizendo que minha trajetória foi fácil. Pelo contrário, houve erros, acertos, frustrações e muitas aprendizagens. Considero que meus primeiros anos na educação foram os melhores, pois tudo era uma descoberta. Havia satisfação em experimentar, aprender e compreender melhor a dinâmica da sala de aula. Foi essa experiência, construída ao longo dos anos, que me ajudou a permanecer na profissão.

  1. Olhando para trás, qual foi a mudança mais profunda que você percebeu na educação ao longo de sua trajetória?

Acredito que uma das mudanças mais significativas foi a crescente mecanização do processo educativo. Tenho a impressão de que a modernidade, em vez de favorecer sempre a autonomia dos estudantes, em algumas situações tem reduzido as oportunidades para que pensem, investiguem e descubram as coisas por conta própria. Também percebo que as cobranças sobre os professores aumentaram, inclusive em relação a demandas que, no início da minha carreira, não tinham a mesma presença. Essas exigências, somadas aos desafios cotidianos da sala de aula, podem gerar angústia e frustração, dificultando o exercício da profissão. Ao longo desses anos, aprendi que ensinar exige experiência, reflexão e disposição para reconhecer os próprios erros. Não compartilho da ideia de que a docência seja um sacerdócio. Para mim, a educação é uma profissão que exige formação, responsabilidade, compromisso e condições adequadas para ser exercida. Valorizar o professor também significa reconhecer seu trabalho e compreender as dificuldades que enfrenta diariamente.

  1. Que horizontes você ainda deseja alcançar na educação? Há algum sonho ou projeto que guarda consigo e gostaria de realizar?

Neste momento da minha trajetória, desejo continuar contribuindo com a educação por meio do trabalho em sala de aula, compartilhando a experiência que adquiri ao longo de tantos anos. Não tenho um grande projeto específico a apresentar, mas espero que os desafios que hoje enfrentamos sejam compreendidos pelas próximas gerações de professores e que elas encontrem caminhos para lidar com essas questões. Acredito que os problemas sempre existirão, afinal, fazem parte da própria condição humana. O importante é desenvolver a capacidade de enfrentá-los com reflexão, responsabilidade e disposição para aprender. Espero que os novos professores consigam preservar o espaço para a curiosidade, o pensamento crítico e a descoberta, sem perder de vista as necessidades reais dos estudantes.

  1. Deixe uma mensagem de inspiração aos colegas professores e a todos aqueles que leem sua história!

Aos colegas professores, especialmente àqueles que estão iniciando a carreira, desejo boa sorte e perseverança. Não imaginem que tudo será fácil, porque a realidade da sala de aula apresenta desafios constantes. Haverá momentos de dúvida, erros, acertos e situações que exigirão muita paciência e reflexão. Minha experiência me ensinou que aprendemos também com as dificuldades e que o conhecimento construído ao longo dos anos faz diferença na maneira como enfrentamos os problemas. Por isso, não deixem de observar, questionar e buscar novas formas de ensinar. Acredito que precisamos preservar a capacidade dos estudantes de pensar por si mesmos, fazer perguntas e descobrir o mundo. A educação não está livre dos problemas da sociedade, mas continua sendo um espaço importante de aprendizagem e formação humana. Aos professores que estão chegando, desejo que consigam compreender os desafios do nosso tempo e encontrar maneiras de enfrentá-los sem perder de vista o sentido do próprio trabalho. Boa sorte a todos!

Por fim, queremos anunciar que, com o apoio de vocês, para o ano, estaremos de volta, com novas entrevistas e novas histórias para contar. Afinal, a educação é feita de muitas vozes, e nenhuma delas deve permanecer em silêncio. Até 2027!

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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