Com ou sem palanque único, com ou sem oposição burguesa, o fato é que às eleições desse ano se desenvolvem a sombra de Lula. Isso não ocorre apenas pelo seu reconhecido carisma. Outros fatores de ordem econômica e política sustentam a sua proeminência.
O crescimento econômico no período anterior a crise, o avanço conjuntural nos últimos meses, o apoio incondicional do capital e das principais direções do movimento de massas brasileiro a este governo e as de políticas sociais compensatórias são situações que imprimem um ambiente extremamente positivo ao governo.
Essas razões combinadas com a sua origem de classe permitem a criação do “mito” – do presidente que defende os pobres. E como todo mito, esse também parece impermeável a qualquer consideração crítica. Lula segue incólume, imune às crises ética, política e econômica. A sua sombra distintas forças se organizam e rendem-lhe fidelidade e, a própria oposição burguesa não consegue desvencilhar-se de suas teias.
A despeito da construção desse consenso em torno à figura de Lula, na qual gravitam tanto os aliados quanto a oposição burguesa, é possível sim recuperar uma perspectiva crítica. Basta indagar por alguns aspectos que historicamente foram tão caros aqueles que resistiam à incorporação do país ao espaço econômico, social e cultural das nações de capitalismo avançado.
Um governo de centro-esquerda, como reivindica os expoentes mais destacados, certamente precisaria explicar porque mantiveram essencialmente a mesma política econômica anterior? Aumentando e aprofundando o lucro das grandes empresas e aprofundando a dependência do país ao imperialismo ao ponto de comprometer 30,5% do orçamento de 2008 no pagamento de juros da dívida pública.
Ainda teria que explicar também porque a continuação da política de privatizações por meio da realização dos leilões das reservas de petróleo e gás e o projeto para o pré-sal que mantém e amplia a participação do capital privado, inclusive estrangeiro, na exploração do petróleo brasileiro. E, porque permite a ameaça de transformar os Correios, uma das empresas mais eficiente do país, em sociedade anônima, dando mais um passo na sua privatização.
Embora se alardeie com entusiasmo que o Brasil ocupa lugar privilegiado na América Latina, isso não elimina o fato de que o grosso da acumulação de riqueza no país continua sendo enviado para o exterior, para as matrizes das corporações transnacionais indicando que o segue dependente das principais economias capitalistas do planeta, especialmente do EUA. A remessa de lucros para o exterior cresceu mais de 200%, e ao povo restaram às políticas compensatórias e um relativo aumento no salário mínimo os quais se mostram incomparável aos lucros dos grandes empresários.
As questões acima descritas se distanciam do discurso fácil e de ocasião fundada no jargão, numa marca e na figura inquestionável de “um presidente que defende os pobres”. Se o governo e seus aliados querem tanto se diferenciar da oposição burguesa, precisam encarar com sobriedade esse debate de conteúdo.
A sombra de Lula
Em: 27 de maio de 2010
Com ou sem palanque único, com ou sem oposição burguesa, o fato é que às eleições desse ano se desenvolvem a sombra de Lula
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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