A sombra de Lula

Em: 27 de maio de 2010
Com ou sem palanque único, com ou sem oposição burguesa, o fato é que às eleições desse ano se desenvolvem a sombra de Lula
Com ou sem palanque único, com ou sem oposição burguesa, o fato é que às eleições desse ano se desenvolvem a sombra de Lula

Com ou sem palanque único, com ou sem oposição burguesa, o fato é que às eleições desse ano se desenvolvem a sombra de Lula. Isso não ocorre apenas pelo seu reconhecido carisma. Outros fatores de ordem econômica e política sustentam a sua proeminência.
O crescimento econômico no período anterior a crise, o avanço conjuntural nos últimos meses, o apoio incondicional do capital e das principais direções do movimento de massas brasileiro a este governo e as de políticas sociais compensatórias são situações que imprimem um ambiente extremamente positivo ao governo.
Essas razões combinadas com a sua origem de classe permitem a criação do “mito” – do presidente que defende os pobres. E como todo mito, esse também parece impermeável a qualquer consideração crítica. Lula segue incólume, imune às crises ética, política e econômica. A sua sombra distintas forças se organizam e rendem-lhe fidelidade e, a própria oposição burguesa não consegue desvencilhar-se de suas teias.
A despeito da construção desse consenso em torno à figura de Lula, na qual gravitam tanto os aliados quanto a oposição burguesa, é possível sim recuperar uma perspectiva crítica. Basta indagar por alguns aspectos que historicamente foram tão caros aqueles que resistiam à incorporação do país ao espaço econômico, social e cultural das nações de capitalismo avançado.
Um governo de centro-esquerda, como reivindica os expoentes mais destacados, certamente precisaria explicar porque mantiveram essencialmente a mesma política econômica anterior? Aumentando e aprofundando o lucro das grandes empresas e aprofundando a dependência do país ao imperialismo ao ponto de comprometer 30,5% do orçamento de 2008 no pagamento de juros da dívida pública.
Ainda teria que explicar também porque a continuação da política de privatizações por meio da realização dos leilões das reservas de petróleo e gás e o projeto para o pré-sal que mantém e amplia a participação do capital privado, inclusive estrangeiro, na exploração do petróleo brasileiro. E, porque permite a ameaça de transformar os Correios, uma das empresas mais eficiente do país, em sociedade anônima, dando mais um passo na sua privatização.
Embora se alardeie com entusiasmo que o Brasil ocupa lugar privilegiado na América Latina, isso não elimina o fato de que o grosso da acumulação de riqueza no país continua sendo enviado para o exterior, para as matrizes das corporações transnacionais indicando que o segue dependente das principais economias capitalistas do planeta, especialmente do EUA. A remessa de lucros para o exterior cresceu mais de 200%, e ao povo restaram às políticas compensatórias e um relativo aumento no salário mínimo os quais se mostram incomparável aos lucros dos grandes empresários.
As questões acima descritas se distanciam do discurso fácil e de ocasião fundada no jargão, numa marca e na figura inquestionável de “um presidente que defende os pobres”. Se o governo e seus aliados querem tanto se diferenciar da oposição burguesa, precisam encarar com sobriedade esse debate de conteúdo.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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