Diante de mais um período de seca extrema, o píer provisório flutuante do Grupo Chibatão começou a ser deslocado de Manaus para Itacoatiara nesta quinta-feira (17). A estrutura flutuante será instalada no município, localizado a 176 quilômetros da capital, como alternativa para manter o transporte de cargas durante a vazante dos rios amazônicos. A manobra tenta blindar os setores produtivos e a economia amazonense de um novo gargalo logístico, repetindo a estratégia adotada na crise histórica do ano passado.
Antes do deslocamento, técnicos da Receita Federal realizaram uma vistoria na estrutura. A visita teve como objetivo verificar as condições necessárias ao controle aduaneiro e à segurança das operações de importação, exportação e cabotagem.
A medida busca evitar que eventuais restrições à navegação interrompam o abastecimento de insumos para o PIM (Polo Industrial de Manaus) e o escoamento dos produtos fabricados no estado. Com a diminuição do nível dos rios, grandes embarcações podem enfrentar limitações de calado e ficar impedidas de seguir até a capital.
Operação aproxima o porto dos navios
A delegada-adjunta da Alfândega do Porto de Manaus, Fernanda Printes, explicou que o planejamento foi desenvolvido a partir das dificuldades enfrentadas durante a seca de 2023, quando grandes navios não conseguiram chegar aos terminais da capital.
“Quando percebemos que os navios não poderiam chegar até o porto, entendemos que seria necessário fazer o porto chegar até os navios”, resumiu.

Segundo a delegada, a instalação do píer exigiu ajustes nos sistemas da Receita Federal e a criação de procedimentos específicos para cada tipo de movimentação. O roteiro contempla operações de importação, exportação e cabotagem e deverá ser atualizado em conjunto com empresas e demais órgãos envolvidos.
A Receita Federal também realizará a Operação Aduana Flutuante, com equipes responsáveis pela presença fiscal, pela segurança das atividades e pelo controle das mercadorias em Itacoatiara.
Ao todo, cerca de 16 equipes estão preparadas para atuar no local a partir da atracação do primeiro navio. A escala deverá garantir a presença semanal dos servidores enquanto a estrutura permanecer em funcionamento.
“A preocupação da Receita é enfrentar a estiagem com o menor dano possível, sem prejudicar a fluidez do comércio local e reduzindo os impactos sobre a economia nacional”, afirmou Fernanda.
Transbordo reduz peso
Com 277,5 metros de extensão, a plataforma montada funciona como um braço do Porto em um ponto do rio onde a navegação de grande porte consegue resistir por mais tempo ao Em Itacoatiara, o píer funcionará como ponto de transbordo. Os contêineres transportados pelos navios serão transferidos para balsas, reduzindo o peso e, consequentemente, o calado das embarcações.
Essa redistribuição permitirá que os navios prossigam até Manaus enquanto houver condições seguras de navegação. Em um cenário mais crítico, no qual as embarcações de grande porte não consigam continuar a viagem, as cargas poderão seguir até a capital em balsas.
Todo o trajeto deverá ser acompanhado pelos órgãos de fiscalização. A operação prevê controle aduaneiro, rastreamento das balsas e acompanhamento das mercadorias desde o transbordo até a chegada ao terminal em Manaus.
Engenharia e licenciamento
O diretor-executivo do Grupo Chibatão, Jhony Fidelis, explicou que a vistoria integra a primeira etapa de uma operação mais ampla. Além do acompanhamento diário do nível dos rios, a empresa precisa atender às normas da Receita Federal, da Marinha e dos demais órgãos responsáveis pela autorização e fiscalização da atividade.
“Há todo um trabalho de engenharia que detalha cada etapa, desde a preparação da estrutura e a navegação até a ancoragem do píer em Itacoatiara”, explicou.
Após a instalação, o terminal deverá alinhar os procedimentos com os armadores, considerando o volume de cargas e as necessidades operacionais de cada embarcação.
Cerca de 150 trabalhadores estarão diretamente envolvidos na operação, segundo Fidelis. Parte da mão de obra, cerca de 50 trabalhadores, deverá ser contratada no próprio município de Itacoatiara, ampliando o impacto econômico local da iniciativa. “O município adora essa operação, pois leva desenvolvimento ao município, já que a organização desse trabalho envolve abastecimento de alimentos, vendas comerciais maiores e aumento dos serviços da cidade para atender a um grupo grande de trabalhadores”, conta.
A previsão inicial é que o píer permaneça no município até a primeira quinzena de dezembro. O período, entretanto, poderá mudar conforme o comportamento dos rios.
“Não é possível bater o martelo sobre uma data. Vamos permanecer pelo tempo necessário, sempre acompanhando as medições diárias e alinhados aos órgãos que autorizam a operação”, disse o diretor.
Volume de cargas
Em 2024, aproximadamente 59 mil contêineres foram movimentados por meio da operação alternativa. Para o conselheiro fiscal do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) e presidente do Sindicato da Indústria de Aparelhos e Componentes Elétricos e Eletrônicos do Amazonas (SINAEES-AM), Rildo Oliveira Silva, o volume pode ser ainda maior neste ano.
A expectativa está associada à ampliação da atividade industrial em Manaus e à aprovação de novos projetos para o Polo Industrial.

“Provavelmente teremos uma quantidade superior, devido à entrada de novas indústrias e aos projetos aprovados. O porto em Itacoatiara ajuda os contêineres a chegarem mais rapidamente e reduz o risco de paralisação das fábricas”, avaliou.
Silva destacou que a falta de matéria-prima e as dificuldades para escoar produtos acabados provocaram fortes impactos sobre a indústria durante as secas anteriores. Em períodos críticos, algumas empresas chegaram a enfrentar cerca de 60 dias de restrições logísticas. “
Embora não tenha apresentado uma estimativa financeira das perdas, o representante da indústria afirmou que os prejuízos envolveram paralisações, espera por insumos, dificuldades para manter a produção e atraso na entrega de produtos para outras regiões do país.
“Não é possível prever o comportamento da natureza, mas podemos estar cada vez mais preparados para enfrentar esses períodos com o menor prejuízo possível”, ressaltou.
Problema recorrente
A transferência do píer para Itacoatiara integra uma estratégia preventiva adotada após as secas severas que afetaram o Amazonas. A operação reúne porto, Receita Federal, Marinha, armadores, indústria e demais instituições ligadas à navegação e ao controle de cargas.
Mais do que uma estrutura temporária, o píer funciona como uma ligação entre os navios oceânicos, as balsas e o sistema logístico de Manaus. A proposta é preservar o abastecimento do comércio e das fábricas, além de garantir o escoamento da produção regional.
Com o avanço da vazante, as medições diárias dos rios determinarão quando a operação de transbordo começará efetivamente e por quanto tempo será necessária. Enquanto isso, a estrutura segue para Itacoatiara como parte de uma preparação antecipada para reduzir os impactos econômicos e logísticos de uma eventual seca severa.







