O aumento de 13,72% no preço do minério de ferro foi responsável por aproximadamente 65% do total do IGP-10 (Índice Geral de Preços -10) de agosto, que foi de 0,46% contra 0,05% em julho. O cálculo foi feito pelo economista da FGV (Fundação Getúlio Vargas) André Braz. “O minério pesa 4,5% do total da inflação atacadista, que responde por 60% do total do IGP-10”, lembrou Braz.
De acordo com ele, somente o salto no preço do minério respondeu por cerca de 0,30 ponto porcentual do indicador deste mês; e por 0,62 ponto porcentual do total da inflação atacadista em agosto, que subiu 0,75%. “Se fosse excluído o minério, a inflação no atacado teria subido 0,14% em agosto”, afirmou.
Braz lembrou que houve recentemente um aumento no preço do minério. Atualmente, a Vale promove ajustes no preço do minério de forma trimestral, de modo a acompanhar mais de perto a flutuação de preços do produto ao longo do ano. No passado, a empresa promovia reajustes anuais no preço, o que impactava significativamente a inflação atacadista no mês em que era realizado o reajuste.
Braz minimizou, no entanto, a influência do minério de ferro nas projeções de inflação oficial no longo prazo. Ele comentou que, em termos de repasse, o “contágio” da elevação no preço do minério fica concentrado praticamente apenas no atacado, ou seja, não é muito repassada para o consumidor. No entanto, a elevação da soja no atacado, de 9,48%, seria mais relevante, em termos de repasse para o atacado.
Segundo ele, o produto respondeu por quase 40% do total do IGP-10 de agosto, a segunda maior influência positiva no indicador do mês, atrás apenas do minério de ferro. O aumento mais intenso no preço da soja em grão causou mudanças de trajetória nos preços de óleo de soja em bruto (de -2,08% para +0,41%) e óleo de soja refinado (de 0,37% para 2,78%). Este comportamento de preços da soja, e de produtos relacionados, deu fim à deflação nos preços dos alimentos processados no atacado (de -0,90% para +0,20%).
Oferta mundial
Outro ponto destacado pelo economista é o comportamento do preço do trigo, que está caindo menos (de -2,27% para -0,91%) no atacado. Isso porque as perspectivas de oferta mundial do produto sofreram um baque após notícias de quebra de safra na Rússia. Agora, o preço do produto começa a se ajustar ao novo cenário, e pode voltar a subir no mercado brasileiro, nos próximos meses.
A queda mais fraca no preço do trigo de julho para agosto causou elevações em preços relacionados no atacado, como farinha de trigo (de 0,70% para 3,95%); pães e bolos (de 0,56% para 1,68%). A alta no preço do trigo foi ressaltada pelo técnico, visto que este produto, diferente da soja e do minério, tem uma cadeia longa de derivados no varejo.
Queda de 0,31% nos preços do varejo foi a mais intensa desde 2006, aponta economista
Na inflação do varejo em agosto, já foram detectadas deflação mais fraca em farinha de trigo (de -0,28% para -0,10%); fim de queda de preços em massas prontas (de -1,3% para 1,76%), em massa para bolo (de -0,87% para 0,98%), em biscoitos (de -0,52% para 0,78%); e aceleração em pão francês (de 1,04% para 1,14%). “Começou agora o repasse (da alta do trigo no atacado para o varejo), e vai continuar”, avaliou. Braz alertou ainda que os preços das carnes estão em alta no atacado. É o caso de aves (4,26%); suínos ( 2,55%); e bovinos (2,08%). “Isso está sendo repassado para o varejo”, afirmou. É o caso dos aumentos nos preços, no varejo, de carnes bovinas (1,28%); frango inteiro (0,54%); carne suína (1,07%).
Hortaliças e legumes
Braz disse que a queda de 0,31% nos preços do varejo em agosto, mensurada pelo IGP-10, foi a mais intensa desde junho de 2006, quando os preços junto ao consumidor caíram 0,39%. De acordo com ele, os preços do varejo em agosto foram fortemente influenciados pela intensificação na queda dos preços de hortaliças e legumes (de -7,14% para -10,66%). “Se fossem excluídas do cálculo as hortaliças e os legumes, os preços no varejo teriam caído menos, apenas 0,06%”, afirmou André Braz.
Porém, o economista fez uma ressalva. “Esta taxa negativa nos preços do varejo é temporária. Isso não vai continuar” disse, comentando que os preços dos alimentos in natura, muito voláteis e suscetíveis ao clima, estão derrubando as taxas mensais de inflação do varejo. “Temos vários exemplos de alimentos industrializados, que têm uma ‘rigidez’ maior na flutuação dos preços, que estão subindo no atacado e no varejo. Creio que estas elevações são mais importantes do que o comportamento dos in natura, pois são mais persistentes”, avaliou.
Outro ponto destacado por Braz é que os preços de serviços no varejo continuam subindo junto ao consumidor. É o caso de acelerações de preços nas taxas de inflação de salão de beleza (de 0,83% para 0,86%); diarista (de 0,35% para 0,45%); e chope e cerveja (de 0,21% para 0,76%). “Creio que, tendo em vista estes fatores, nos próximos meses, a inflação do varejo deve voltar a subir, e a acelerar”, concluiu.






