Braga é cotado para ministério e pode deixar suplente bilionário desconhecido em seu lugar

Em: 18 de novembro de 2010
Apesar de ser 2º suplente, Lírio Parisotto pode assumir como senador, se Braga realmente se tornar ministro. O PMDB deve ficar com 6 Ministérios e um arranjo político para garantir o empresário na vaga, já é cogitado
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Apesar de ser 2º suplente, Lírio Parisotto pode assumir como senador, se Braga realmente se tornar ministro. O PMDB deve ficar com 6 Ministérios e um arranjo político para garantir o empresário na vaga, já é cogitado

Crescem nos bastidores do Palácio do Planalto as articulações políticas que podem fazer com que o Amazonas tenha mais uma vez um empresário sem voto como representante do Estado no Senado. O empresário gaúcho Lírio Parisotto, 57, segundo suplente do senador eleito Eduardo Braga (PMDB), é o escolhido desta vez. Ele pode repetir a saga do também empresário Gilberto Miranda, com dois mandatos assumidos como suplente entre 1992/1999 e 2004/2005 para atuar mais como um lobista de destaque no Congresso Nacional do que como representante do Amazonas em Brasília.
A ida de Braga para um ministério de Dilma é dada como certa para muitos que acompanham o dia a dia em Brasília. Ele estaria entre os seis ministros que seu partido, o PMDB, exige como contrapartida da aliança para a vitória da petista Dilma Rousseff nestas eleições. Nesta volúpia por espaço no Planalto, o partido cobra até mesmo o Ministério dos Transportes, que no último governo ficou a cargo do PR, de Alfredo Nascimento. Com Eduardo em um Ministério, assumiria a primeira suplente Sandra Braga ou seria feito um arranjo para beneficiar Parisotto, assim como foi feito entre Gilberto Mestrinho e seu filho João Thomé, em 2004, para permitir a terceira posse de Gilberto Miranda, então segundo suplente do senador.

Parisotto e as evolutivas contribuições

A relação de Parisotto com o Amazonas, Estado que ele pode representar no Senado, começou em 1990, quando o empresário transferiu uma parte da Videolar de Caxias do Sul para Manaus e outra para São Paulo, de olho nas melhores condições tributárias para produzir. Foi doador contumaz das campanhas de Eduardo Braga a cargos eletivos. Na eleição para o governo em 2002, a Videolar fez doações que quase totalizaram R$ 300.000. Em 2006, as doações da empresa passaram de R$ 420.000. Parisotto também foi um dos incentivadores, segundo o próprio Braga diz, da criação em 2008 da Fundação Amazônia Sustentável, que detém reservas de mais de R$ 60 milhões para atividades ligadas ao meio ambiente, com recursos do governo do Estado, do Bradesco e da Coca-Cola, além de outros parceiros nacionais e internacionais.
Nascido no interior do Estado do Rio Grande do Sul, em Nova Bassano, pequena cidade cuja população (10 mil habitantes) descende de italianos da região do Veneto (Norte da Itália, Bassano del Grappa), o empresário Lírio Parisotto é primogênito de dez irmãos, com pais brasileiros e avós italianos que imigraram em 1892, trazendo ao país uma forte tradição católica. Parisotto é formado em Medicina pela Universidade de Caxias do Sul, foi fundador da Videolar e atualmente atua no mercado acionário através do fundo L.Par da Geração Futuro Corretora, com ativos de mais de R$ 2 bilhões de reais em ações, o que faz dele um dos maiores investidores da Bolsa de Valores de São Paulo.
Parisotto é pai de uma jovem de 18 anos de seu único casamento realizado em 1992 e sempre morou em São Paulo, desde o início da trajetória da Videolar, em 1988. A trajetória do ex-agricultor de Nova Bassano para o mercado de capitais traz muitos tropeços, mudanças de rumo, mas também muito sucesso. Aos 13 anos foi estudar no seminário católico de Passo Fundo; aos 19, percebeu que a batina não era para ele e decidiu cursar a faculdade de Medicina em Caxias do Sul, isso depois de passar num concurso para o Banco do Brasil e abrir mão do emprego, mas acabou mesmo se encontrando ao atuar como comerciante. Antes de passar no concurso e optar por medicina, Parisotto ainda estudou e trabalhou num colégio de padres em Brasília, onde fez uma série de cursos técnicos que lhe abriram as primeiras portas no mercado de trabalho.
No início da década de 80, abriu um videoclube e uma pequena loja de eletrodomésticos. Eram os primeiros passos para a abertura da Audiolar, em Caxias do Sul. Antes chegou a trabalhar como mascate vendendo toca-fitas de automóveis e a fazer frete com uma Kombi.

Parisotto é apontado como 2º mais rico entre os eleitos em 2010

Em 1988, a pequena empresa abriu caminho para o grande negócio do investidor, a Videolar, com investimento de R$ 4 milhões, sendo R$ 2 milhões de recursos próprios e o restante do financiamento de um banco japonês para importar equipamentos Sony e JVC. Hoje a empresa é líder no mercado brasileiro de DVDs e Blu-ray, com faturamento, segundo ele afirmou em 2007, de R$ 1,4 bilhão. A ideia do negócio surgiu em 1985 quando foi convidado pela Sony do Brasil para viajar para uma convenção mundial da empresa em Tóquio. O convite partiu em razão do volume de venda de fitas betamax no país por parte de sua empresa. Lá conheceu o braço da Sony identificado com a sigla PCL (Photo, Chemical, Laboratories). A empresa fazia telecinagem, legendagem e gravação de filmes e da visita a sua linha de produção nasceu o projeto da Videolar.
Mas o bilionário diz que o Ibovespa é seu benchmark e a estratégia vem dando certo. Tanto que em 2008 abriu mão da presidência da empresa, tornando-se presidente do conselho da Videolar, para se dedicar ao mercado de ações. Em 2007, enquanto o índice rendeu 43%, seu fundo valorizou 80%; no primeiro trimestre deste ano, o rendimento chegou a 10%, quase o dobro do que o principal termômetro da Bolsa paulistana registrou.
Apesar de apontado como bilionário em todas as rodas sociais do país, Parisotto foi colocado em segundo lugar numa lista publicada pelo jornal ‘Correio Brasiliense’ entre os candidatos a suplente de senador com maior patrimônio em todo o Brasil declarados à Justiça Eleitoral. O mais rico dos suplentes nas últimas eleições, segundo a Justiça Federal, é o empresário João Claudino (PRTB-PI), suplente do deputado e candidato ao Senado Ciro Nogueira (PP). Ele declarou bens no valor total de R$ 623 milhões. Mais modesto, Parisotto declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio no valor de R$ 616 milhões. A maior parte, R$ 423 milhões, relativa a aplicações em fundos de ações.
Neste ano, Parisotto não fez doação, ao menos diretamente declarada, à campanha ao Senado de Eduardo Braga. Em compensação, a Videolar doou R$ 502.376,00 para Omar Aziz (PMN) que integrava a coligação Avança Amazonas ao lado de Braga. Mas a empresa também doou para o adversário Alfredo Nascimento (PR) R$ 285.398,14 ou 56,8% do valor transferido ao grupo liderado pelo ex-governador Eduardo Braga.

Empresário atua nos bastidores, diz Braga

O senador eleito Eduardo Braga (PMDB) disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que o empresário Lírio Parisotto é um dos maiores investidores da Zona Franca de Manaus, mas foi escolhido para integrar a chapa dele principalmente por causa dos compromissos que já demonstrou com o Amazonas. Além de atuar ativamente nos bastidores do Poder em Brasília para ajudar na manutenção das prerrogativas do modelo de desenvolvimento regional, ele também, segundo o governador, assumiu um compromisso com a Amazônia, ao assumir o posto de conselheiro da Fundação Amazônia Sustentável, colaborando pessoalmente para a criação de instrumentos de proteção da fauna, como o Bolsa Floresta.
Eduardo Braga tem certeza de que Parisotto honraria o Amazonas se fosse chamado a substituí-lo no Senado, mas pede respeito à primeira suplente da chapa, Sandra Braga. Segundo o senador eleito, ela seria a senadora se ele fosse convocado para outra missão ou sofresse qualquer infortúnio.
Sobre uma eventual gratidão ao empresário por causa de financiamentos anteriores, Eduardo Braga repudia com veemência esta insinuação. O senador eleito afirma que não faz negócio com mandato. Para ele, a formação de uma chapa para o Senado está acima de qualquer relação de amizade. O governador afirma que Sandra e Lírio são nomes conhecidos dos amazonenses e já mostraram, em cargos públicos ou na vida social, seriedade e competência. Isso, segundo Braga, os credenciou aos postos que agora ocupam por direito, com a benção da maioria do eleitorado amazonense.

Uma imoralidade republicana

O coordenador do Núcleo de Cultura Política da Ufam, sociólogo Ademir Ramos, considera a ausência de regulamentação da suplência de senador uma imoralidade republicana que faz com que o cargo se transforme em objeto de negócio no Brasil criando uma verdadeira indústria de negociatas na política nacional. O estudioso afirma que pelo menos três projetos tramitam no Congresso sem que a matéria seja regulamentada constitucionalmente, como ocorre com o cargo de deputado federal. “Foi assim com Gilberto Miranda que bancou a eleição de Gilberto para voltar ao Senado”, disse.
O sociólogo considera que o senador eleito Eduardo Braga está jogando segundo as regras determinadas pelo panorama político atual, em razão da lacuna exposta desde a Constituição de 1988. “É um jogo cínico da República”, disse. Para ele, essa omissão do Poder Legislativo faz com que o Judiciário se torne o grande ator do processo eleitoral. “Foi assim com a questão do projeto Ficha Limpa que, mal resolvido no Congresso, precisou ser definido pela Justiça”, ilustrou.
Ramos afirma que somente a reforma política poderá trazer novos contornos para pontos obscuros como esse da realidade eleitoral. Para ele, a reforma depende fundamentalmente da vontade do Executivo. “Se houver vontade política do Executivo, a reforma política ou até mesmo a tributária sai. Caso contrário, será muito difícil conciliar interesses no Congresso”, acrescentou.

Arthur tentou regulamentar suplência

O senador Arthur Virgílio Neto (PSDB), que perdeu a reeleição para Eduardo Braga e Vanessa Garzziotin neste ano, é autor de uma das propostas que visa regulamentar a suplência de senador no país. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) feita por ele ainda como deputado federal se juntou à outra do ex-senador Jefferson Péres (PDT), mas não avançou. O último passo da PEC foi a tramitação sob a relatoria do senador Demóstenes Torres (DEM) juntamente à proposta que tira os vices da linha sucessória dos cargos majoritários, mas deixou de lado a regulamentação do Senado, por força das bancadas no Congresso. Assim, no início do mês a proposta avançou, omitindo, mais uma vez, a regulamentação da suplência no Senado.
“Pela minha proposta, a vaga no Senado seria ocupada por alguém escolhido na eleição seguinte”, afirmou. Segundo Arthur, o segundo colocado não poderia assumir em razão de numa eleição de cargo majoritário quem perde ou ganha são as teses e não as pessoas. “A manutenção da situação como está é reprovável por ser uma fórmula velha e caduca, mas este é o menor dos problemas verificados nas eleições deste ano”, afirmou. O senador também defende uma reforma política urgentemente, sob o risco de a democracia brasileira enfrentar problemas.

Paralelismo entre Parisotto e Miranda

A história do ex-senador pelo Amazonas Gilberto Miranda traz alguns paralelismos com a do empresário Lírio Parisotto, tendo como linha mestra a Zona Franca de Manaus. Filho de um tintureiro semi-analfabeto e de uma dona-de-casa com o primeiro ano primário, Gilberto Miranda nasceu em São José dos Campos (SP), em 1946. Com 22 anos se mudou para Brasília para tentar a vida.
Após se tornar bacharel em Direito, e acumular uma série de empregos que incluíam professor de natação, leão-de-chácara e massagista, Miranda se muda primeiramente para o Rio e depois para São Paulo, em 1973. Nesta época, vivia ele de procurar no Diário Oficial empresários autuados pelo governo, INPS, Receita Federal. Detectada a presa, então se oferecia para resolver o assunto em Brasília, em contrato de risco.
Assim conheceu a Zona Franca de Manaus quando precisou resolver pendências de uma empresa com mercadoria apreendida nos galpões da Suframa. Foi isso que Gilberto Miranda fez a vida inteira. É disso que vive até hoje. Detecta indústrias que estão a fim de montar fábricas em Manaus e consegue a liberação dos projetos em troca de participação acionária.
Conseguiu levar, segundo sua própria contabilidade, cerca de 250 empresas para a Zona Franca e aprovou uns 200 projetos. Vende as ações quando estão valorizadas e gasta a grana comprando bens de neo-pobres. Já foi sócio de Dílson Funaro, Mathias Machline e ainda é sócio de Mário Amato, entre outros.
Há 30 anos, possuía um Passat e um patrimônio de US$ 10 mil. Foi quando abriu sua primeira empresa em Manaus. De lá para cá, sua vida mudou muito.
O ex-senador declara possuir uma ilha em Ilhabela (5 milhões), uma casa de campo (5 milhões), duas casas no Jardim Europa-SP (3,5 e 2 milhões), um jatinho Lear Jet 36 (2 milhões), quatro fazendas em São Paulo (preços não avaliados), oito carros importados (1 milhão), parte menor de um patrimônio total de R$ 1 bilhão e faturamento anual de 600 milhões em cerca de 20 empresas.
(Continua na página A4)

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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