Lideranças discutem projeto etnopolítico

Em: 26 de outubro de 2011
A proposta reúne inicialmente aliados do PV e PTC em torno da pré-candidatura a prefeito, de Domingos Sávio Camico (PPS), da etnia baniwa.
A proposta reúne inicialmente aliados do PV e PTC em torno da pré-candidatura a prefeito, de Domingos Sávio Camico (PPS), da etnia baniwa.

Um projeto etnopolítico para São Gabriel da Cachoeira está sendo articulado por lideranças indígenas que defendem uma nova gestão para o município, a partir da reorganização administrativa, jurídica e financeira da Prefeitura, visando transformar aquela região, que concentra 23 etnias, num território de fato indígena. A proposta reúne inicialmente aliados do PV e PTC em torno da pré-candidatura a prefeito, de Domingos Sávio Camico (PPS), da etnia baniwa.
Formado em Filosofia pela Ufam e concluindo mestrado na UNB, Camico acredita que é hora de unir as etnias e elaborar um projeto de desenvolvimento sustentável para São Gabriel, que priorize a qualidade de vida dos povos indígenas.
Apesar de serem maioria, 90% da população do município, ele afirma que as sucessivas políticas de saúde, educação e geração de renda, por exemplo, nunca foram adequadas à cultura dos índios.
O desafio, segundo o pré-candidato, é implantar um novo modelo de gestão com políticas que efetivamente atendam as reivindicações dos povos indígenas. Mas afirma que “Estamos preparados para enfrentar as dificuldades de um município sem referencial econômico, mas com potencialidades que precisam ser exploradas de forma racional, em benefício dos povos indígenas”, declarou.
São Gabriel, de acordo com Camico, necessita de uma gestão eficiente, com transparência nas contas, e competência para realizar parcerias e convênios com instituições que garantam o desenvolvimento de setores como o ecoturismo, o manejo dos recursos da floresta e a confecção de artesanato indígena, dentre outros.
Vivenciando a realidade das comunidades indígenas, Camico, que já foi vereador, afirma que as administrações que passaram pela Prefeitura de São Gabriel, fracassaram porque as políticas não atenderam as necessidades dos índios e, embora o atual prefeito Pedro Garcia (PT), seja índio, Camico avalia que houve perda de controle administrativo, o que resultou numa série de irregularidades e desmandos.
“As políticas tem que ser planejadas e executadas de forma integrada e não desarticuladas, com vem acontecendo”, critica o pré-candidato, acrescentando que por falta de planejamento as ações não chegam às comunidades, e os recursos são desperdiçados. Militante atuante, Camico é candidato a presidente do Diretório Municipal do PPS de São Gabriel da Cachoeira. O encontro está marcado para este sábado (22).
O sonho de transformar São Gabriel da Cachoeira em território indígena, é acalentado por Gersem Baniwa, 47 anos, com doutorado em Antropologia Social pela UNB. Os índios, afirma ele, estão capacitados para administrar, e para criar uma municipalidade indígena.
“Temos quase dois mil índios estudando em várias universidades do país”, frisa. O projeto etnopolítico, de acordo com Gersem, deve adequar as leis e as ações políticas à cultura das etnias indígenas. Ele cita como exemplo o ensino que deve respeitar a tradição dos povos, e o reconhecimento do professor como indígena. “Queremos construir um modelo de gestão ímpar no Brasil”, ressalta.
Articulando aliança política com lideranças das diversas etnias de São Gabriel da Cachoeira, Gersem Baniwa não descarta a ideia de expandir o território indígena pelo Alto Rio Negro, envolvendo municípios como Santa Isabel, com população indígena predominante. “Assim fortaleceremos a nossa cultura e teremos políticas que realmente atenderão as nossas necessidades”, comentou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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