“Meu governo será só quatro anos”

Em: 2 de julho de 2012
Apesar do senador Eduardo Braga fora do páreo eleitoral, o tucano Arthur Neto (PSDB) diz não ter dúvida sobre o segundo turno nas eleições municipais
Apesar do senador Eduardo Braga fora do páreo eleitoral, o tucano Arthur Neto (PSDB) diz não ter dúvida sobre o segundo turno nas eleições municipais

Apesar do senador Eduardo Braga fora do páreo eleitoral, o tucano Arthur Neto (PSDB) diz não ter dúvida sobre o segundo turno nas eleições municipais. Ele destaca sua confiança na vitória e avisa que em seu futuro governo não haverá lugar para barganhas políticas. “Não negociarei cargos com políticos, meu governo não se prestará a isso”. Defensor da repactuação da ZFM, ele alerta sobre o perigo da reforma tributária contra o modelo e lamenta que grandes empresas, como a Coca-Cola, podem estar indo embora de Manaus.

Jornal do Commercio – De forma sintomática, os tribunais estão decidindo os rumos do processo eleitoral no país, devido ao excesso de políticos “fichas sujas” perante os tribunais de contas e a Justiça Eleitoral. Que crise de valores é essa?

Arthur Neto – Primeiro, eu vejo o Congresso Nacional deixando a Justiça legislar por ele, uma brutal fragilidade do Congresso quando deveria ocupar todos os seus espaços e usar todas as suas prerrogativas. A Lei da Ficha Limpa é uma lei muito bem intencionada, mas não é tecnicamente bem feita, ela tem problemas, mas é uma conquista da democracia, uma exigência da sociedade.

JC – Com a saída do senador Eduardo Braga da disputa eleitoral, as coisas ficaram mais fáceis para todos os candidatos que pretendem a Prefeitura de Manaus?

Arthur – Ele é um nome muito forte, mas isso não muda minha vontade de concorrer. Com ele ou sem ele, acredito que haverá segundo turno. Apesar da diversidade que nos separa, não posso deixar de reconhecer que ele tem um peso político inegável em Manaus e no Amazonas. Agora, lá em Brasília ele vai ter o tempo necessário para acertar o passo com esse papel de articulador do governo federal no Congresso Nacional. Ele terá agora todo o tempo do mundo para se acertar e se consolidar.

JC – O que foi bom e o que foi ruim em oito anos de governo Braga?

Arthur – Acho positivo o Prosamim. Eu ajudei a liberar bastante recursos para o Prosamim. Quando as coisas empacavam no Senado, eu criava caso e não se votava nada enquanto os recursos do Prosamim não fossem liberados. Não sou contra a Ponte Rio Negro. A ideia da ponte já vem de um grupo de empresários irandubenses. O próprio deputado estadual Francisco Souza lutou muito por ela. O que eu considero é que a ponte custou muito caro. Se eu fosse governador, teria feito a ponte por um preço diferente. Na parte do lado de lá, de Iranduba, nos fins de semana, as pessoas vêm de lá e atravancam o trânsito. Do lado de lá a gente vê Iranduba se favelizando em meio a uma frenética especulação imobiliária. Mas, o fato é que o governo Braga teve a felicidade de existir em um período áureo da economia mundial, com bons reflexos sobre a economia brasileira, as commoditties valendo ouro lá fora, e tudo se refletindo positivamente no governo Lula e no governo Braga. Já o governador Omar Aziz não está trabalhando com vacas gordas e a presidente Dilma Rousseff tampouco. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o nível de crescimento do país este ano será de um e meio por cento. O ministro, por sinal, começou o ano dizendo que o Brasil cresceria quatro e meio por cento. Depois falou em três por cento e agora diz que o país cresce um ponto e meio. Ora, é coisa para qualquer um perder o emprego, mas o Mantega diz uma bobagem dessa e não perde o emprego.

JC – Se o PSDB chegar ao segundo turno, vai coligar com todos, mas, vai isolar o PT em função das restrições que os petistas fazem aos tucanos em nível nacional?

Arthur – Eu não faço restrição ao PT em nível nacional. Em alguns municípios do nosso Estado temos alianças com o PT. Se eles têm problemas com o PSDB, é problema deles. Tenho excelente relacionamento com os deputados Francisco Praciano, José Ricardo Wendling e Sinésio Campos. O PT é um partido que acha bom e importante o apoio a ele, mas acha ruim ele apoiar alguém, e aí aflora toda uma rivalidade. Eu não tenho nenhuma restrição aos petistas. Lamentei o fato de o Praciano não ter sido candidato, já disse isso a ele.

JC – Como seria um futuro governo Arthur Neto em Manaus?

Arthur – Eu teria apenas 16 secretarias e teria a metade delas com pessoas idosas e a outra metade com pessoas na faixa de 40 anos. Eu adoraria ver a mistura de pessoas com 50, 62 anos, com pessoas de 29, 31, 33 anos. Eu quero misturar a experiência de uns com a pegada de outros em um governo dinâmico, num esquema de enxugar despesas, de contratação empresarial. Eu valorizaria o meu vereador, mas não lotearia cargos com partidos. Quem estiver pensando o contrário, vá tirando o cavalo da chuva porque o meu governo não se prestará a isso.Vou contratar pessoas com base no curriculum vitae, tanto faz ser jovem ou idoso. Governarei como quem administra uma empresa. Você não tem que indenizar secretário, secretário você demite e pega um outro, competente. O meu vereador será exaltado pelos seus méritos na construção de determinada obra que ele sugeriu e pela qual lutou em determinado bairro ou no centro da cidade. Mas, vamos ter uma relação muito elevada, pois se for pra baixar o nível das coisas para permanecer tudo no que está, não contem comigo.

JC – Explique melhor a estrutura das secretarias municipais em um eventual governo tucano.

Arthur – Algumas delas vão virar departamentos. Eu vou pedir e realizar logo uma reforma administrativa e cortar despesas das secretarias que ficarem em vinte por cento. Eu quero falar a verdade para as pessoas, começando agora em nossa campanha, pois não há como fazer um governo como eu pretendo sem contrariar interesses. Por isso eu digo que o meu governo será de um mandato só, um governo de apenas quatro anos, porque se eu for pensar em reeleição, ou pensar em ser governador, isso já vai me levar a barganhar com beltrano ou com sicrano…Eu quero me doar a Manaus durante quatro anos.

JC – O senhor pretende um governo austero. Tem alguém referencial em quem se espelhar?

Arthur – O Geraldo Alckmin é bom, assim como o José Serra foi bom em São Paulo e assim como o Aécio Neves foi bom em Minas Gerais. Mas, em termos de prefeituras de capitais eu tenho a impressão que a grande referência mesmo foi o Jaime Lerner em Curitiba, com tudo o que ele montou em quatro mandatos, duas vezes pela via indireta e duas pela via direta. Mas, os governos dele significam três décadas que foram construídas de tal forma que Curitiba é hoje uma cidade à prova de maus prefeitos. O prefeito pode ser ruim que ele não vai estragar a cidade em quatro anos.

JC – Curitiba teve pelo menos seis arquitetos como prefeitos. É difícil entortar e complicar Curitiba hoje.

Arthur – A cidade é governável. Eu não tenho a pretensão de fazer em Manaus tanto quanto fez o Lerner porque o meu tempo será menor, mas eu tenho a pretensão de dar um rumo à cidade de Manaus, dizer com clareza que problemas dá pra gente resolver com o dinheiro municipal. Vamos intervir no sistema viário do Coroado, do São José, da Recife. Junto com o governo do Estado, com o governo federal e com o dinheiro internacional vamos fazer outras coisas muito importantes. Não esperem de mim grandes viadutos, coisas que a capacidade de investimento da prefeitura não comporta, não esperem isso. Eu vejo também com bons olhos a educação, reciclar e pagar bem o professor. Eu vou melhorar a qualidade do ensino público da rede municipal de educação, mas vou fazer questão de excelência em português e matemática. Quem sabe essas matérias aprende o resto tranquilamente. Vamos incentivar aulas boas em tudo, mas essas duas matérias serão cavalos de batalha. No setor educacional outro sonho que eu tenho é a Escola de Tempo Integral. Fizemos o Ciep João Goulart lá no Bairro Santa Etelvina. Ele foi desfeito, infelizmente, mas em poucos meses ele mudou a cor das crianças que ficaram coradas, fortes. Era uma escola que dava uma alimentação ao chegar e outra alimentação ao sair. A criança não precisava nem jantar em casa, e tinha psicólogo etc. Na área da saúde eu não sairei alopradamente construindo. O que existe é que tem que funcionar bem. E há a questão das creches. Cada creche é cara para fazê-la funcionar. Será preciso a gente atrair a parceria das empresas do Distrito Industrial para a questão das creches. Eu quero fazer tudo isso, mas primeiro temos que enxugar a máquina pública, privilegiar os servidores efetivos, de carreira, e cortar cargos comissionados.

JC – Recentemente o senhor falou em cortar cargos comissionados como se eles não fossem necessários dentro da máquina pública. Eles não são mesmo necessários?

Arthur – Cargo comissionado é uma necessidade, sim, você tem que ter pessoas da sua estrita confiança perto de você, mas a gente tem que enxugar a máquina para economizar e para poder aumentar salários e atrair a iniciativa privada para dentro da prefeitura. A gente tem que pagar bem para as pessoas virem das empresas para a prefeitura. Por outro lado, a gente vai prestigiar os servidores de carreira com suas funções gratificadas, com um Plano de Cargos, Carreiras e Salários que hierarquize tudo isso.

JC – Que outros projetos o senhor tem para Manaus?

Arthur – Eu tenho um sonho que é transformar Manaus em uma Veneza, transporte de massa pelos igarapés, uma ideia do saudoso Nelson Neto. Dá para a gente pegar o rio Negro e botar barcos para transportar passageiros, aliviando os ônibus. Implantaríamos os táxis fluviais.

JC – Durante os anos de seus mandatos no Congresso Nacional o senhor foi um gigante na defesa do modelo Zona Franca de Manaus. Agora, com a Convergência Digital, esse modelo não deveria ser repensado ou mesmo ser substituído?

Arthur – Eu sugiro a repactuação do modelo, envolvendo os empresários, os poderes públicos, os parlamentos. Nós não vamos sobreviver se não investirmos pesadamente em inovação. Esse modelo não sobrevive se não investirmos em mão de obra e em uma infraestrutura necessária, diferente dessa coisa falida que nós temos aí. A verdade é que a ZFM possui uma burocracia ruim e uma série de gargalos que têm que ser superados. E há o círculo vicioso: o governo federal dizendo que nós não fizemos o dever de casa e não temos infraestrutura de nada e nós dizendo que o governo federal não nos ajudou. Nós tivemos um ponto de inflexão que foram os tablets. Os tablets foram jogados pra fora daqui e isso abalou o ânimo de quem mais quisesse investir na Zona Franca. Veio a segunda paulada, que foi a PEC da Música, dava pra gente ter deixado morrer esse projeto lá na Câmara, no Senado, mas ele de repente passou. Não houve intenção da maioria parlamentar de brecar esse projeto. Há agora uma outra questão que, de repente, pode levar daqui a Coca-Cola. O Brasil todo passa a ser incentivado na questão dos refrigerantes e aí as vantagens comparativas da ZFM desaparecem. Eu vejo que esse modelo está sendo colocado pouco a pouco na contramão do processo de desenvolvimento econômico brasileiro. A gente não tem BR-319, nem hidrovias nem portos, uma deficiência aeroportuária visível. Entendo, portanto, que se não fizermos a repactuação, vamos naufragar. O Estado não se preparou para a hipótese de a ZFM um dia não mais existir. Não temos a indústria do turismo estruturada, muito menos a produção de peixe em escala industrial, não se levou a ZFM para o interior do Estado, ficamos presos a uma monocultura eletrônica como se nós fôssemos os próprios coronéis da borracha eletrônicos. Ao invés de queimarmos charutos com notas verdes (dólares), ficamos abobalhadamente observando o tempo da Zona Franca se esgotar. Prorrogação aqui, prorrogação acolá, prorrogação capaz de fazer uma pessoa virar Deus. Mas a prorrogação sozinha não representa muita coisa, é apenas um dever do governo federal. Então, nós temos que reciclar tudo, temos que valorizar os fármacos e os cosméticos que saem da biodiversidade e explorar isso aí, assim como o turismo, a piscicultura, uma gama de atividades que podem nascer da própria renda da ZFM.

JC – Não acha que a reforma tributária em curso no Congresso será o golpe final na ZFM?

Arthur – Se tributarem o ICMS no destino estaremos perdidos. Eu torpediei bastante as tentativas de reforma tributária durante o governo Fernando Henrique Cardoso por causa da nossa ZFM. Uma boa reforma de tributos vem para simplificar a arrecadação pela via da maior eficiência, pela via de menos impostos, ela vem para diminuir o Custo Brasil. Alguém tem que perder e escalaram a ZFM para perder, e as compensações para essas perdas nunca foram muito claras. Eu ajudei a enterrar a Reforma Tributária do senhor Germano Rigotto por causa da ZFM. A reforma tributária é sempre um perigo para o Amazonas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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