O ensino da Língua Portuguesa (Parte 1)

Em: 17 de maio de 2013
A gramática normativa não é diferente dos códigos de natureza ética ou moral, que nos dizem o que podemos ou não fazer
A gramática normativa não é diferente dos códigos de natureza ética ou moral, que nos dizem o que podemos ou não fazer

O ensino de Língua Portuguesa vem sendo foco de discussões entre especialistas na área e pensadores de outras áreas do conhecimento. Para as pessoas menos esclarecidas aprender a escrever significa que ainda dominar as normas estabelecidas pela gramática normativa. Existem professores de Língua Portuguesa que só admitem um só uso culto da língua…, uma espécie de unilateralidade, não levando em conta os demais usos, estes usados pelas classes menos abastadas.
Há uma possível explicação para essa espécie de ditadura pedagógica direcionada para o não-esclarecimento. Os professores que procedem dessa maneira bancária querem, na verdade, engessar o uso da Língua Portuguesa dentro dos calabouços que subjaz a gramática tradicional. Esta não é uma ciência, isto é, ela não se preocupa em explicar como funciona a língua, quais são as regras intrínsecas, aquela que nos possibilitará entender a formação de frases possuidoras de sentidos.
A gramática normativa não é diferente dos códigos de natureza ética ou moral, que nos dizem o que podemos ou não fazer. São normas que têm caráter imperativo, daí podemos denominá-las de maneira de mandamentos: nunca se inicia frase com pronome oblíquo átono. Marcos A. Bagno, professor da UnB, compara a gramática normativa como se fosse um igapó, ou seja, “um trecho de mata inundada, uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depois da cheia”.
Marcos A. Bagno esclarece, ainda, que a língua é um rio cujo imenso calado-d’água, longo e largo, nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, bem à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, renova suas características incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renovará quando vier à próxima cheia.
Sabemos que as normas prescritas pela gramática normativa impõe um comportamento padrão para a língua falada e escrita, um comportamento que deve ser obedecido pelos indivíduos de uma sociedade. Todavia, o leitor desse centenário jornal já percebeu que existem pessoas que sabem muito pouco sobre gramática normativa, mas que falam e escrevem muito bem. Como explicar isso? É simples: “saber português” e “saber gramática” são objetivações distintas.
Há outras questões por detrás desse nuômeno pedagógico. Não há dúvidas que a gramática normativa é uma superestrutura pedagógica imposta pela classe social que detém o poder político e econômico para direcionar uma sociedade: a classe hegemônica. Não se aprende, nem se apreende a escrever muito bem decorando regras gramaticais que muitas das vezes estão desconectadas da maneira como a língua é falada localmente, i.e. , descontextualizada da cultura local.
Os indivíduos que possuem tempo disponível para a leitura enquanto uma prática socialmente constituída de intencionalidade interiorizarão, sem dúvidas alguma, o uso culto da língua falada e escrita…, e isso significa que esses indivíduos estarão em um verdadeiro processo de formação. “Formação” é diferente de “semi-formação”. “Formação” é uma construção historicamente intencional de hábitos direcionados para o esclarecimento, como salientava Theodor L. Wiesengrund-Adorno.
Os indivíduos que possuem as condições objetivas essenciais (e fundamentais) para vivenciar processos de formação direcionados para a construção efetiva de competências e habilidades relacionadas à língua falada e escrita devem, desde a idade mais tenra, aprender a ler (e a ler bem) e a escrever (e a escrever bem) por meio de mediações pedagógicas que combinem o “novo” e o “velho”. Não se pode esquecer também que um bom método de alfabetização deve estar agregado a bom método de letramento.
Quais indivíduos possuem acesso a boas escolas de tempo parcial e integral de formação? Quais indivíduos possuem? Quais indivíduos possuem tempo disponível e dinheiro para acessar bons livros e/ou e-books? São questões que nos fazem pensar que o ensino da Língua Portuguesa não pode e nem deve ser esclarecido sem considerarmos que vivemos numa sociedade capitalista, uma sociedade em que a luta de classes se estende para além da velha luta por melhores salários e condições de trabalho.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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