As embarcações regionais são um símbolo típico e marcante de toda a Amazônia, região ricamente cortada por rios. Construídos com madeiras de lei, durante séculos os barcos singraram os rios, ora subindo, ora descendo, levando dezenas, centenas, milhares de pessoas de um lugar a outro.
Mas uma resolução editada em 2005 pela SNPH (Superintendência de Navegação, Portos e Hidrovias do Amazonas), entidade que regulamenta o transporte naval de pessoas no Estado, determinava a proibição do uso desse tipo de embarcação. Pelo menos dez anos antes, o Ibama já proibira a retirada de madeira nas matas, principalmente as utilizadas na construção de barcos. Isso fez com que os estaleiros existentes em vários municípios amazônicos fossem encerrando suas atividades até acabar por completo.
Quando o último dos barcos construído com madeira não tiver mais condições de navegar, terá chegado o fim de uma saga tanto de quem os construiu, quanto de quem neles navegou e principalmente dos próprios barcos.
Mas eles continuarão a existir, ainda que em tamanho reduzido. É o que propõe o artesão Evilásio Souza Oliveira, eirunepeense, nascido há meio século na comunidade da Venezuela, às margens do Juruá.
“Meu pai tinha uma oficina mecânica e eu, com cerca de 12 anos, o ajudava. De vez em quando ele fazia um barco, uma chalana, com uns 15 metros, para uso próprio, e quando aparecia alguém querendo comprar, ele vendia e depois fazia outro. Eu vi, aprendi e comecei a fazer barquinhos para mim e para meus irmãos”, recordou.
Por que tudo começou
O pai de Evilásio morreu há 16 anos deixando a oficina para ele e os irmãos, oito homens e seis mulheres. Há alguns meses foi a vez de sua esposa adoecer e ele precisou vir tratá-la em Manaus. Foi aí que o artesão de barcos surgiu.
“Fiquei na casa de uns irmãos da igreja e um deles pediu pra eu fazer uma canoinha pra ele. Fiz. Ele perguntou se eu conseguiria fazer um barco? Fiz também. Outros irmãos viram o barquinho e começaram a pedir. Aí vi que dava pra ganhar dinheiro com aquilo”, contou.
Desde então os pedidos a Evilásio não cessaram mais. “Um vai passando pro outro e assim tem sido”. Fazendo a comparação entre os barcos, o negócio atual é bem mais lucrativo para o artesão. O barco de 15 metros feito no interior, levava seis meses para ficar pronto e custava em torno de R$ 15 mil. Eram construídos uns dois por ano. O maior barco artesanal feito por Evilásio até agora media 1,5 metro, ficou pronto em menos de um mês e ele cobrou R$ 1.500, e os pedidos se sucedem.
“No interior a gente se embrenhava nas matas para tirar as madeiras e depois levava para a oficina. Aí tinha que esperar aproximadamente três meses até elas secarem. O trabalho era muito pesado do começo ao fim. Para os artesanais eu pego sobras de madeiras nas serrarias e até madeiras jogadas fora, nas ruas”, falou.
E Evilásio, que jamais imaginou ser um artesão de mão cheia, nem imagina o talento que possui. “Eu não desenho os barcos antes de construir. Eu vou pensando, fazendo as peças e montando”, contou.
Empolgado com o sucesso de seu “novo negócio”, montado numa pequena oficina (originalmente uma garagem), na rua Delfim de Souza, 69, Japiim, Evilásio não está mais muito interessado em voltar para Eirunepé (ele viveu até os 36 anos na comunidade da Venezuela e os últimos 14 anos, na cidade de Eirunepé). “Minha esposa está ‘doida’ pra voltar para lá, mas o seu tratamento ainda vai levar alguns meses. Enquanto isso tento convencê-la a ficar por aqui, pois os negócios literalmente estão indo de vento em popa”, comemorou ao lado de algumas de suas peças que ele, estrategicamente, põe junto à porta de entrada da oficina. “Todo o tempo o pessoal para para perguntar sobre elas, e sempre surgem as encomendas”, orgulha-se o artista.







