Abertura política trouxe poderes a poucos

Em: 24 de outubro de 2014
Arthur Virgílio Neto, eleito em 2012, é o 14º prefeito eleito pelo VOTO, em eleições DIRETAS
Arthur Virgílio Neto, eleito em 2012, é o 14º prefeito eleito pelo VOTO, em eleições DIRETAS

A capital amazonense vive atualmente o maior período democrático de sua história. O atual prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, eleito em 2012, é o 14º prefeito eleito diretamente pelo povo, em eleições regulares que acontecem desde 1986. O próprio Arthur Virgílio, aliás, já havia sido eleito para o mesmo cargo em 1989, cumprindo integralmente o seu mandato até o ano de 1993.
Excluindo dois curtos períodos de história – entre 1911 e 1922; e nos anos de 1962 e 1965 – o prefeito de Manaus não era eleito pela população, sendo escolhidos via votação indireta pela Câmara Municipal ou nomeados pelo governador do estado.
De 1986 para cá, muitos nomes de um mesmo núcleo político, como Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga e Alfredo Nascimento, se revezaram no cargo máximo do executivo municipal. Todos eles seguem a linhagem política que tem como patronos os ex-prefeitos e ex-governadores Plínio Ramos Coelho e Gilberto Mestrinho, que comanda o estado desde a década de 1960. As duas exceções recentes a este grupo foram justamente o atual prefeito Arthur Neto e o ex-prefeito Serafim Corrêa (2005-2008).
O cientista político Breno Rodrigo Leite explica que, apesar de figurar na política manauara desde os anos 50, o grupo só passou a ganhar forças a partir da redemocratização, na década de 1980. O especialista explica que o grupo liderado por Plínio Coelho é o último dos quatro grandes ciclos políticos que governaram Manaus ao longo da história: O primeiro deles começa com o governador Eduardo Ribeiro (1890-1891 e 1892-1896), com a constituição da República e formação da cidade de Manaus, na passagem do século XIX para o século XX. O segundo ciclo se inicia com os governos Álvaro Maia (1930-1933, 1935-1945 e 1951-1955) como interventor do presidente Getúlio Vargas. Após, surge um novo ciclo autoritário, com o governador Artur Reis (1964-1967).
“Competindo com esse ciclo do Artur Reis vem Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho. Este sim, após a redemocratização, principalmente após a parceria de Gilberto com Amazonino Mendes, iniciam um ciclo de elite mais consolidado. E esta elite, bastante homogênea, vem com Amazonino Mendes – considerado o primeiro discípulo de Gilberto, seguidos de Eduardo Braga e Alfredo Nascimento”, explicou Breno.

Luta de leões
Sobre os prefeitos de oposição – Arthur Neto e Serafim Corrêa – Breno Rodrigo destaca as dificuldades que eles tiveram em “lutar contra leões”, em referência à falta de apoio que tiveram por parte do governo estadual.
“A principal marca da primeira passagem do prefeito Arthur Neto foi a tentativa de sanear a cidade, mas o governador da época que era o Amazonino, ajudou a ‘queimar o filme’ dele, o que acabou prejudicando essa política. Já o Serafim teve muitas dificuldades em governar e, de fato, não conseguiu deixar grandes obras. É muito difícil governar Manaus tendo o governo como oposição. O governo do estado do Amazonas é muito forte e a prefeitura não consegue se contrapor”, explicou.
Para o sociólogo Marcelo Seráfico, esta alta concentração de poderes nas mãos do governador do Estado acaba, muitas vezes, submetendo a administração municipal acaba, de alguma maneira, ou submetendo os prefeitos ou estabelecendo com eles uma convivência baseada em chantagens, cooptação, subordinação.
“Com muita frequência o estado acaba tendo um protagonismo, que tem a ver também com a alta concentração de poder nas mãos do governador do estado Amazonas. Por outro lado temos prefeitos que têm revelado nulo ou muito pouco interesse no planejamento da cidade, ou seja, pensar na cidade para além de seu mandato”, avaliou o sociólogo.

Herança
Ainda na opinião de Marcelo Seráfico, a herança deixada por anos de administrações interessadas apenas em manter a hegemonia de certos grupos é de “um brutal descuido com a cidade”. Para ele, esta forma de manutenção de poder nas mãos de poucos tem muito mais a ver com a organização da política local do que exclusivamente com o exercício da prefeitura em si.
“É bastante frequente os candidatos ingressarem na vida pública com um projeto de carreira política, assim como um profissional tem um projeto de vida. O exercício da representação do interesse coletivo se torna uma profissão, o que não é adequado. A prefeitura se torna um estágio para futuros voos em vista do governo do estado ou o senado”, critica Seráfico.
O sociólogo enumera ainda alguns de exemplos de intervenções pela cidade que, na opinião dele, demonstram a maneira equivocada e às vezes pouco competente de governar uma cidade que inegavelmente é muito problemática.
“Os prefeitos têm tido muito pouco compromisso tanto com o passado da cidade quanto a projeção do seu futuro. A prova disso é que mesmo obras recentes, de maneira muito rápida, já estão ultrapassadas, como alguns viadutos e soluções viárias. O que os prefeitos de Manaus têm deixado nos últimos anos para a cidade é uma mensagem de esquecimento”, acrescenta.w

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar