Impasses da autogestão na Amazônia

Em: 12 de novembro de 2007
A cultura paternalista é venal porque acostuma mal os indivíduos, deixando-os impotentes diante dos desafios
A cultura paternalista é venal porque acostuma mal os indivíduos, deixando-os impotentes diante dos desafios

Este estudo se ocupa da abordagem sobre os impasses do cooperativismo em nossa região. Vimos anteriormente que o atrelamento clientelista foi um dos fatores que contribuíram para que algumas cooperativas não sobrevivessem. A cultura paternalista é venal porque acostuma mal os indivíduos, deixando-os impotentes diante dos desafios. Estamos de fato diante de algo novo, de emergência de uma nova cultura do trabalho pautada na perspectiva autogestionária que desafia o trabalhador a dar conta do próprio negócio. Empresas como a Makerly de Franca/São Paulo não conseguiram superar todas as dificuldades e fecharam. Mas outras se firmaram e vão se aprimorando sempre mais, é uma nova cultura que está em gestação. Para Singer (2002). A autogestão tem como mérito principal não a eficiência econômica (necessária em si), mas o desenvolvimento humano que proporciona aos praticantes.Participar das discussões e decisões do coletivo, ao qual se está associado,educa e conscientiza, tornando a pessoa mais realizada, autoconfiante e segura. A construção de uma nova cultura não ocorre da noite para o dia. O processo acontece paulatinamente depois de muitas discussões e conhecimento da nova metodologia.

A diferença entre uma empresa tradicional e uma empresa/cooperativa autogestionária está na forma metodológica de organização do trabalho que dispõe de um sistema mais democrá tico, sem punições, e com a colaboração efetiva de todos os seus associados que são os donos do empreendimento. A OCB realiza um Trabalho de orientação às pessoas ou grupos que têm interesses em formar uma cooperativa: o que é o sistema cooperativo, como funciona, onde começa, pra onde vai, seus limites e obstáculos. É um trabalho técnico e político ao mesmo tempo, direcionado para formar uma consciência em torno dessa cultura A cultura cooperativa é um movimento que requer efetiva participação nos debates locais, nacionais e internacionais. Requer reflexão e autocrítica na busca de uma práxis transformadora, daí a necessidade de participação nos fóruns e instâncias que propiciam um debate aberto sobre esta questão nos informa que a OCB tem assento em fóruns interessantes como O FMPE (Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas), no Conselho do Incra, nos assentamentos administrados pelo Procera que é uma linha de financiamento do Incra, no Conselho do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e tem participação no Sescoop(Serviço Social das Cooperativas).

A OCB também participa de eventos nacionais e internacionais constantemente. Esse processo reflexivo é importante porque contribui para com a formação dos próprios gestores. A Unitrabalho (Rede Interuniversitária de Estudo e Pesquisa sobre o Trabalho) fundada em 1995, é uma entidade que também propicia debates nacionais sobre economia solidária. Em 1997, o Grupo de Trabalho de Economia Solidária coordenado pelo professor Paul Singer (USP), realizou um evento nacional onde compareceram dirigentes da Anteag, da ITCP/UFRJ, do MST, da Fase e de algumas outras entidades promotoras ou associativas da economia solidária. A esta reunião compareceram colegas da Unitrabalho de todo o país e foi esclarecedor ouvir os relatos sobre cooperativas de novo tipo que estavam se formando em muitos Estados. Ao lado da ITCP/UFRJ e Anteag, também o MST estava criando cooperativas de produção e de comercialização nos assentamentos de reforma agrária (Singer, 2000). Por todos esses motivos devemos optar por outra matriz empregatícia a médio prazo.

Celso Torres é economista e e mestre em sociologia do trabalho pela UFAM E-mail: [email protected] .

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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