Dando início à série de entrevistas com os prefeituráveis de Manaus, o Jornal do Commercio, conversou com o candidato da Rede, deputado estadual Luiz Castro, sobre a disputa de espaço interna nos partidos políticos, os novos arranjos e conchavos que podem estagnar ainda mais a economia local e comprometer o desenvolvimento de novas matrizes econômicas, por exemplo, as voltadas para sustentabilidade, uma vocação natural da capital amazonense. Formado em Direito, Luiz Castro, é defensor da verdade e combate seus adversários de forma diplomática, mas incisiva sem denegrir a honra e moral de quem quer que seja. “Nós podemos mudar muitas coisas para melhor e isso é possível. Por isso que nós dizemos “Sim! É possível”. É possível desde que o indivíduo queira ser livre e queira exercitar essa liberdade para o seu próprio bem e o bem da comunidade”. Acompanhe na íntegra a entrevista exclusiva:
Jornal do Commercio: O senhor há bem pouco tempo atrás disputava espaço no seu antigo partido, o PPS, com o deputado federal Hissa Abrahão, tendo sido preterido muitas vezes. Como o senhor analisa o fato de os dois estarem hoje disputando o mesmo cargo por legendas diferentes?
Luiz Castro: Na verdade, eu saí do PPS e passei para a Rede por uma convicção de que a Rede tem uma identidade não só programática, mas de conduta ética muito mais afim com a minha atuação do que aquela que era praticada com o PPS aqui no Estado do Amazonas. E eu não quero fazer nenhum comentário, todo mundo está vendo o que está acontecendo com o PPS. Mas eu sempre respeitei muito, durante o tempo que eu estive com o PPS os paradigmas, inclusive éticos que estão no programa do PPS e sempre tive uma relação muito amistosa com as lideranças do PPS em nível nacional. Um partido que tem ainda quadros remanescentes do antigo PCB, pessoas cultas, preparadas. Eu nunca levei essa questão para o lado pessoal, se alguém levou não fui eu, ao contrário. A minha postura política se mantém dentro do nível de coerência e entendi que na Rede estaria muito mais abrigado, apoiado, integrado com coerência diante do que o partido propõe como exercício de mandato político.
JC: O senhor participou ativamente da campanha para a eleição do atual prefeito, em 2012. A partir de que momento a atual administração deixou de contar com a sua estima?
LC: Na eleição do Arthur enfrentando a Vanessa e os outros candidatos havia uma esperança de que o atual prefeito fosse de fato um líder transformador, que conseguisse vencer essa camisa de força, essa camisa de interesses e esse ciclo-vicioso político. Naquele momento esse ciclo-vicioso estava bem representado nas figuras do seu atual aliado Eduardo Braga e que colocaram o Omar, o próprio Melo, o Amazonino e a figura da Vanessa como eixo central daquela campanha oficial. Então, o Arthur que tinha ficado tanto em nível federal quanto estadual na oposição, ele aglutinou, naquele momento, muitas pessoas que não tinham exatamente uma afinidade ideológica com o PSDB. Mas tinha uma esperança muito grande de que o político Arthur, o combativo senador, aquele homem que demonstrava uma capacidade de exercício político muito forte no Senado, com experiência e que não havia se rendido a essas benesses, a esses esquemas do poder tradicional que ele rompesse. Mas, infelizmente, ele optou por outro caminho, de se aliar primeiro com o atual governador Melo, com Omar Aziz e por último, neste gesto inesperado, para muitos, com o seu grande adversário político, Eduardo Braga. Então, não fui eu que mudei quem mudou foi o Arthur. Não temos aquele Arthur que foi candidato a prefeito, em 2012, que estava corajosamente decidido a romper com esse ciclo de poder que encapsula e captura a política de Manaus. Ele preferiu se aliar da mesma forma que outros políticos, como o próprio Marcelo Ramos e o Hissa, são opções e a gente respeita.
JC: O senhor é visto como um político diplomático, mas algumas vezes é apontado como fleumático demais para embates políticos. Como o senhor encara esse tipo de leitura sobre a sua atuação política?
LC: Eu sou um político antipersonalista. Não gosto de demagogia, nem de calúnia, de acusações falsas. Eu tenho formação em Direito e mesmo antes de tê-la, entendo que alguém só acusa se tem provas. Quando eu falo que Manaus foi muito mal cuidada, muito maltratada ao longo das últimas décadas, estou falando uma verdade pública, constatada por qualquer pessoa: do prefeito ao gari da prefeitura, do funcionário do Distrito Industrial e Comercial ao desempregado, do jovem ao idoso, da mulher ao homem, eu estou colocando uma verdade. Quando eu digo que os conchavos de poder tem funcionado muito mais do que os interesses da sociedade, eu estou dizendo uma verdade clara. E aí está a forma com que vários dos candidatos se conduziram. Quando eu digo que tem partidos que têm donos eu estou falando a verdade, tem partidos que até a família é a dona dos partidos. Assim, estou sendo enérgico, mas não me cabe o papel de juiz moral. Quem é o juiz da eleição é o eleitor. Eu estou mostrando a nossa diferença, que inclusive é ética no sentido de não fazer acusações pessoais, de não fulanizar a política. Se a alguns agrada essa fulanização que também dá espaço na mídia e na internet, é natural que até os jornalistas procurem, com seu faro jornalístico essa fulanização. Mas nós estamos contra o sistema no qual essas pessoas estão inseridas e no qual elas querem inserir todo o mundo. Então, serei sim muito veemente, já estou sendo, mas serei sempre a pessoa que eu sou e não gosto de ser mal educado, nem de ataques pessoais. Mas eu gosto de ataques políticos consistentes, verdadeiros e quando eu tenho provas de corrupção eu as aponto e cobro, veementemente, a apuração dos fatos.
JC: O lema de campanha eleitoral da Rede aposta numa frase de efeito que ganhou fama na campanha do presidente norte-americano, Barack Obama, sendo derivada do espanhol “Sí, si puede”, e que também foi grito de guerra de grevistas latinos nos Estados Unidos, nos anos 70. Esse lema dá a entender que o senhor vai entrar na campanha com uma postura mais agressiva?
LC: Uma postura ousada, sem agressões pessoais. A postura condizente com o momento que o país vive na política com as aspirações das pessoas honestas. Quem trabalha todo o dia, às vezes, até gente que nem consegue trabalho e vive de “bico”, passa necessidade com essa crise; os brasileiros honestos; os manauaras honestos, como é que eles se sentem no final do dia com os escândalos todos que acontecem, entrando no ônibus que demora uma hora e meia para passar, sofrendo na parada de ônibus, sendo assaltado dentro e fora dos ônibus. Como é que ele se sente quando procura um serviço de saúde que não oferece condições mínimas de atendimento. Quando falta integração sistêmica entre os serviços de saúde para que os exames que ele fez numa unidade de saúde, o atendimento que ele teve naquela unidade, um prontuário eletrônico seja levado via internet para outro médico que vai atendê-lo, sem que ele precise fazer novos exames. Para que haja uma sequência de resolutividade, eficiência e rapidez no tratamento dele. Mas ele é tratado como um número na multidão, indo de um lado para outro, às vezes levando uma mãe idosa ou um filho doente, para um sofrimento adicional ao da doença. Nós podemos mudar muitas coisas para melhor e isso é possível. Por isso que nós dizemos “Sim! É possível”. É possível desde que o indivíduo queira ser livre e queira exercitar essa liberdade para o seu próprio bem e o bem da comunidade.
JC: A sua coligação obteve apoio do PMN, do ex-deputado Chico Preto, que foi líder da Maioria na Aleam quando o senhor era líder da Minoria. Não há contradição em se unir com antigos rivais ou vale tudo para disputar uma eleição?
LC: Na verdade rivais não, adversários. Rivalidade soa inimizade pessoal e nós fomos de campos adversários. Ocorre que eu me afastei totalmente desse grupo e desse sistema em 2005. Depois da experiência de ser secretário de Estado eu compreendi por dentro essa engrenagem e esse jogo. Eu era de certa forma um político mais ingênuo, tinha um grau de ingenuidade maior naquela época. A minha percepção desse processo político que o Amazonas e Manaus vivem há muito tempo, ainda era frágil, mas depois de ter sido secretário, isso ficou nítido para mim. O Chico Preto demorou mais tempo a ter essa percepção, talvez porque não tenha ficado tanto tempo no exercício, ele vem de outra trajetória de experiência. Até que ele percebeu que o governo que ele defendia ia para outra direção e assim ele foi se decepcionando, se afastando nos últimos dois anos, já no governo Omar, mas ninguém acreditava nele. Eu sou uma das pessoas que posso acreditar no Chico Preto porque há mais tempo passei por esse processo de desencanto e decepção. Ele sempre foi um político que debateu políticas públicas de uma forma respeitosa e muito firme. Mesmo quando eu estava de um lado e ele do outro, sempre me respeitou e eu a ele. O Chico Preto foi mudando e ouvindo nossos argumentos, se incorporando nas discussões, nos chamando para tentar encontrar soluções e eu percebi que a decepção dele era com o governo que ele defendia. Hoje quando eu sento para conversar com o Chico Preto há uma integração, às vezes um enfoque dele é um pouco diferente do meu, mas a visão sistêmica é muito interessante. A Rede com uma visão mais socioambiental e o PMN com uma visão mais administrativa de gestão pública virou um casamento muito integrado, sem antagonismo.
JC: O senhor é presidente da Frente Parlamentar do Cooperativismo no Amazonas desde o seu mandato anterior, mas o cooperativismo tem tido pouco sucesso no Estado, estando relegado a pequenos nichos. O que falta para deslanchar essa atividade no Amazonas?
LC: O cooperativismo, apesar da falta de um ambiente institucional afirmativo tanto por parte do governo do Estado quanto da maioria das prefeituras, é um setor bem avançado em relação ao que era no passado. Mas concordo que poderíamos ter um avanço muito maior. O cooperativismo de crédito no Amazonas, por exemplo, é extremamente forte e promissor. Nos últimos 10 anos essas cooperativas de crédito cresceram de forma exponencial, inclusive o número de sócios de cooperativas e de linhas de créditos cresceu muito nesse período. Nós vamos ter um encontro com o setor cooperativista, nesta quinta-feira. A nossa visão é que a prefeitura de Manaus precisa ter uma política de desenvolvimento econômico, nós esperávamos isso da administração do Arthur. Houve alguns avanços, mas para arrecadar melhor e tirar o dinheiro das empresas. Visão de desenvolvimento econômico na cidade na área rural foi muito pouco mesmo. O distrito de galpões que a prefeitura inaugurou, não colocou uma única empresa e por duas vezes toda a fiação foi roubada.
A prefeitura não consegue nem vigiar aquele distrito que ela criou, que foi bem intencionado e que está cheio de pequenas empresas precisando daquele espaço e o prefeito fez a inauguração para cumprir o prazo e que não está funcionando. Nossa visão é: Manaus é a capital da Amazônia Ocidental e tem a vocação para ser uma capital da economia verde com um imenso potencial para reciclagem de material. Manaus recicla menos de 1% dos seus resíduos. Assim, nós vamos casar a política de sustentabilidade com a política econômica e transformar Manaus num exemplo de economia sustentável.






