Brasileiro é um povo engraçado. Às vezes sente orgulho de ser brasileiro, outras vezes torce contra. Falando em torcer, é exatamente nos esportes, principalmente no futebol, que o brasileiro deixa à mostra seu amor e desamor pelo país. E a seleção brasileira, repita-se aqui uma frase batida, cunhada por ninguém menos que Nelson Rodrigues, queira ou não, é a ‘Pátria de chuteiras’.
No futebol o povo chora pelo país (quando ganha), ou chora e o odeia (quando perde). Em qual outra situação vemos esse comportamento do brasileiro? Mas se notarmos, isso parece estar mudando. Em 1950, quando sofremos a inesperada derrota por 2 a 1 para o Uruguai, na final da Copa do Mundo realizada exatamente no Rio de Janeiro, o país veio abaixo. Quem viveu aquele momento no Maracanã, disse que jamais esqueceu o silêncio total de 150 mil pessoas (o público estimado no estádio), quando o juiz apitou o final do jogo. Os jogadores foram hostilizados, vários entraram em depressão e o goleiro Barbosa, coitado, morreu em 2000, 50 anos depois do ocorrido, sem deixar de carregar a cruz da culpa da derrota.
Tal situação não foi notada com a maior e mais humilhante derrota sofrida pela seleção, por 7 a 1, para a Alemanha, na Copa de 2014, novamente realizada no Brasil. O que aconteceu foi que o fato virou motivo de gozação e até hoje, mais de dois anos passados, não o deixou de ser.
As torcidas de futebol, milhares de pessoas para os times, milhões para a seleção, são uma forte parcela de quem determina o amor que se sente, ou não, pelo país.
Para o filósofo, Nelson Matos de Noronha, professor doutor da Ufam, “as torcidas organizadas constituem forças políticas decisivas assim como as religiões. Por elas, diferentes parcelas da população demonstram seus valores. Acredito que deem com orgulho aquilo em que acreditam e se afirmam, ou melhor, afirmam que sentem orgulho de ser isto ou aquilo. Por consequência, se torcem pelo Flamengo ou pelo Corinthians, também se orgulham de ser brasileiros. Se são contra ou a favor do impeachment, se dizem orgulhosos de serem brasileiros”.
Atitudes concretas demonstram amor
Voltando ao outro Nelson, o Rodrigues, sua visão aguçada do comportamento do brasileiro o fez cunhar outra pérola, exatamente após a derrota no futebol, em 1950, a descrição do ‘Complexo de Vira Lata’.
“Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”, escreveu o dramaturgo.
Tudo bem que europeus e americanos sempre fizeram, e fazem, questão de inferiorizar países latinos chamando-nos de macacos, índios e, sinceramente, não dá para entender porque acreditam que a raça branquela deles é superior às demais. Até dá para aceitar que o nosso calor nos deixa mais ‘preguiçosos’, mas como pode um presidente americano, como Ronald Reagan confundir o Brasil com a Bolívia? Será que ele nunca estudou geografia? E se Charles de Gaulle, da França, disse que o Brasil não era um país sério, ele não estava mentindo, afinal, por que ser tão sério e sisudo como os europeus que, convenhamos, têm tantos ou mais problemas do que nós, diferentes dos nossos, mas problemas.
“Existem diferentes discursos sobre a forma de auto reconhecimento do brasileiro. Observamos o quanto o brasileiro se ama quando abordamos o problema a partir das atitudes concretas, como a taxa de participação das pessoas em eventos públicos, em atos de solidariedade em face de catástrofes ou em eventos esportivos. É sob essa ótica que devemos medir o quanto o brasileiro se gosta”, concluiu Nelson Noronha.
Uma mentira repetida várias vezes
“Determinados comportamentos atribuídos aos amazonenses sobre sua rejeição a própria identidade, remota aos tempos coloniais, quando o colonizador impôs aos nativos seu modo de vida como sendo superior. Por não conhecer o trabalho nos moldes capitalistas, por exemplo, os índios só trabalhavam poucas horas por dia para garantir seu sustento e o restante do tempo dedicado ao descanso e lazer, o que foi interpretado pelo colonizador como preguiça e indolência”, disse o professor de história Aguinaldo Figueiredo.
“Essas interpretações atravessaram os tempos e se internalizaram na própria consciência do amazonense que, por não se interessar em conhecer sua história, foi induzido a reconhecer os valores ‘estrangeiros’ como melhores, aceitá-los e até reforçá-los com opiniões às vezes absurdas”, completou.
“Agora mesmo 95% de trabalhadores que estão nas linhas de montagem do polo industrial são de jovens amazonenses que acordaram as cinco da manhã para defender seu sustento, portanto não têm nada de preguiçosos. Somos um povo criativo, produzimos o suprassumo da tecnologia high tech, para vender para o mundo. Apreciamos e procuramos proteger nossas belezas naturais, apesar dos entraves e da falta de consciência ecológica de muitos. Defendemos, sim, o aproveitamento de nossas riquezas em benefício de nosso povo, apesar da má fé de maus gestores em querer entregá-las aos predadores”, lamentou.
“Estamos de portas abertas para receber o diferente, e somos sabedores de que temos que aproveitar tudo que de bom o mundo de fora pode nos propiciar. É claro que há exceções, mas boa parte dos amazônidas ama esse lugar e, como eu, tem sim orgulho por ter nascido nele”, finalizou.







