Indústria derruba setor de serviços

Em: 29 de novembro de 2016

O setor de serviços vem recuando, principalmente, em Manaus. Com a crise assolando a economia do país, o PIM (Polo Industrial de Manaus) foi seriamente afetado, interrompendo um ciclo de atividades que durante décadas fomentou o turismo de negócios na capital amazonense. Hoje, com as fábricas em férias coletivas, os segmentos de turismo e hospitalidade sofrem com a perda de clientes corporativos, que visitavam a cidade durante os congressos. Para se ter uma ideia, o ICS (Índice de Confiança de Serviços) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) revela 77,5 pontos em novembro, que significa um recuou 1,4 ponto, em relação ao mês anterior. Esta é a segunda queda consecutiva do índice, após subir por sete meses consecutivos, entre março e setembro, neste ano.

De acordo com o presidente da ABIH-AM (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Amazonas), Roberto Bulbol, o segmento de hotelaria e turismo possui uma grande abrangência, diferente do comércio e de outros tipos de serviços, por isso sente os reflexos da sazonalidade movida pelo PIM e pela condição de isolamento geográfico. “Nós estamos sentindo essa deficiência há muito tempo, realmente não está tendo confiança. É o segmento da economia que depende de outro fluxo, de outro perfil de cliente”, admite.

Bulbol explica que o fluxo e o perfil de cliente estão diretamente ligados à Indústria que fomenta o turismo receptivo de negócios atraindo profissionais de todos os setores para Manaus. No entanto, neste período do ano as fábricas estão em ritmo de férias. “Nós estamos entrando em baixa estação. Nosso segmento, principalmente, de hospedagem recua neste período de férias coletivas das indústrias. Nós não temos turismo receptivo, por isso estamos sendo sim afetados. Nós também estamos sentindo a redução daquelas pessoas: representantes comerciais, por exemplo, da indústria calçadista, ótica, confecção, autopeças”, lamenta.

Neste contexto, o Hotel Líder Manaus contava com uma carteira de clientes superior a 70 profissionais que se hospedavam para fazer lançamentos de calçados, utilizando toda a estrutura oferecida pelo hotel. “Eles vem a Manaus e vão para Recife, até chegar novamente em Franca, no interior de São Paulo para trazerem novos lançamentos. De uma carteira de 70 representantes, hoje se eu tiver 10 é muito. Primeiro porque não estão vendendo, ninguém está comprando e assim eles não podem viajar para vender e o reflexo chega a atingir no setor de serviços”, informou.

Agora e expectativa de uma provável retomada do setor de serviços deverá acontecer em meados de fevereiro de 2017. “Depende muito das indústrias, quando elas começam a entrar em atividade depois das férias, em fevereiro. Mesmo porque o fluxo de turistas que vem para Manaus é muito pouco e não representa o empreendimento e o investimento que temos, nem o número de hotéis e ainda ficamos com os serviços reduzidos neste período”, avaliou Bulbol.

Tendência negativa nos serviços

Em novembro, o indicador de Ímpeto de Contratações do Setor subiu 1,1 ponto, compensando apenas em parte a queda de 1,3 ponto observada no mês anterior. O resultado do bimestre coloca em dúvida a sustentabilidade da tendência de desaceleração do ritmo de desmobilização de mão de obra sugerida pelo avanço do Indicador entre abril e setembro.

A proporção de empresas que pretendem aumentar o contingente de mão de obra nos três meses seguintes aumentou 2 p.p. nos dois últimos meses, de 8,7% para 10,7% do total. Mas a proporção de empresas prevendo reduzir o total de pessoal ocupado aumentou ainda mais (2,2 p.p.) no período, ao passar de 14,9% para 17,1% do total.

A edição de novembro de 2016 coletou informações de 1933 empresas entre os dias 3 e 23 deste mês. A próxima divulgação da Sondagem de Serviços pela FGV ocorrerá em 27 de dezembro de 2016.

O setor de serviços no Amazonas reduziu 14,7% entre janeiro de setembro deste ano, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Este é o segundo pior resultado do país, atrás apenas do Amapá que registrou queda de 15,3%. Os dados mostram que o volume de serviços em setembro comparado com agosto teve queda de 0,4%. Já na comparação com o mesmo mês do ano passado, a redução foi bem maior 11,8%.

Já no Brasil, o volume de serviços em setembro recuou 0,3% frente a agosto. No confronto com igual mês do ano anterior, houve queda de 4,9%, a maior para o mês de setembro na série iniciada em janeiro de 2012, e a 18ª taxa negativa consecutiva nesse tipo de comparação.

Manaus sofre com isolamento

Sobre o turismo, Bulbol afirma que a cidade sofre com o isolamento e com a falta de atrativos. “Todo esse seguimento de hospitalidade sofre muito neste período, realmente, nós não temos um atrativo para as pessoas virem para cá, ao contrário, as pessoas saem de Manaus, elas não vem para cá. O que vem é meia dúzia de gato-pingado o que não tem uma sustentação para o empreendimento e o investimento que nós temos”, frisou.

Por ser um período de baixa estação também afeta os serviços de restaurantes, organizadores de eventos, agência de locação de veículo, agência de passagens e passeios, dentre outros prestadores de serviços. “Tudo fica afetado. Aqui estamos muito distantes de outros centros. Temos poucas opções de conexões, isso tudo inviabiliza todo o segmento. Em Manaus só se chega ou sai de avião, ou de navio que leva quatro dias para chegar ao Oceano e depois prever o custo disso tudo. Então a nossa situação aqui é mais complexa”, lamenta.

Segundo o consultor do FGV/IBRE, Sílvio Sales, a falta de expectativa diante da pior crise econômica no país, fez com que a Confiança de Serviços recuasse em novembro. “Os resultados de novembro parecem confirmar a fase de ajuste, para baixo, na percepção do setor de Serviços sobre o ambiente de negócios. A redução do índice de confiança se dá, basicamente, pela piora das expectativas”, avaliou.

Ainda segundo Sales, a percepção de continuidade da tendência de enfraquecimento do nível de atividade vem impactando negativamente a visão das empresas em relação aos meses seguintes. “Com isso, o cenário é ainda de queda na atividade real do setor no último trimestre do ano. Das 13 atividades pesquisadas no setor de serviços, oito apresentaram queda da confiança em novembro”, destacou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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