Dia desses resolvi ir até uma livraria da capital (a maior delas), em busca de uma obra lançada recentemente por uma pequena editora paulista. Notabilizada por suas publicações raras no mercado editorial nacional, que conforme a própria empresa “continuarão relevantes por décadas ou séculos” trouxe pela primeira vez para o Brasil a obra de Ambrose Bierce The Cynic´s Word Book traduzida para o português como O Dicionário do Diabo. Pierce que lutou na guerra civil norte americana era também um dos mais importantes Jornalistas e crítico satírico de seu tempo. Competia em suas crônicas e reflexões repletas de humor negro e cinismo com outro grande escritor e humorista yankee Samuel Kleins o Mark Twain.
O pequenino livro de Bierce contem um precioso compendio de definições que abordava em sua coluna de jornal iniciada em 1881. Em mais de três décadas de registros, nada da sociedade de antanho escapava ao poder de suas ferinas observações. O termo amor, por exemplo, foi descrito pelo escritor estadunidense como “estado de demência temporária curável unicamente com o casamento”. Religião que é um assunto ainda tão controverso foi por ele percebida como ” filha da esperança e do medo, explicando a ignorância a natureza do desconhecido”. Quando explicava aos seus leitores o que significava estar sozinho Pierce esclarecia que era estar em ” má companhia”, Trata-se assim de um trabalho deliciosamente atual e capaz de surpreender os mais nevrálgicos pensadores hodiernos. O autor desse humor sardônico era até bem pouco tempo um ilustre desconhecido em terras brasileiras, Traduzido pela primeira vez em 2010 para língua portuguesa, foi homenageado em Portugal com uma edição de capa dura de belíssimo acabamento.
Como já possuía uma versão Le Dictionnaire du Diable, da parisiense Flammarion e Le Dictionnaire du Diable: Nouvelles Définitions da Montélimar fiquei curioso com a versão em português do Brasil. Ademais, só mil copias seriam impressas em solo brasileiro tornando ainda mais atraente a aludida publicação. Confesso aqui certa dificuldade em comprar livros pela rede mundial de computadores, ainda que algumas livrarias virtuais possibilitem folhear as “páginas”, não é a mesma sensação táctil de se maravilhar com um livro novo. Dessa forma e retomando o raciocínio expresso na primeira linha o lógico seria pesquisar o lançamento em alguma grande livraria. Já passavam das 21 horas de uma sexta-feira quando entrei no bem refrigerado espaço devotado ao sagrado hábito da leitura e me dirigi a um dos vendedores identificados com uma plaqueta de plástico ao redor do pescoço. Ao indagar se já estavam comercializando o Dicionário do Diabo, franziu o rosto e num gesto meio atabalhoado me levou até a sessão de livros religiosos. Ponderei que não se tratava de um livro herético específico de uma corrente religiosa e sim de um dicionário. Num estalo se encaminhou aos livros exotéricos com a certeza que dali sairia algo. Meu amigo salientei, não sou satanista ou qualquer coisa desse tipo! Procuro por uma obra cômica, com definições mordazes do cotidiano!
O despreparado vendedor resolveu então fazer aquilo que já deveria ter feito de início e que já era esperado de alguém de sua geração. Consultou o terminal de computador mais próximo e atônito exclamou “Não trabalhamos com essa editorazinha!”. Assombrado fiquei eu, já pensando comigo mesmo que a figura clássica do livreiro tinha sido substituída por um néscio de uniforme, cabelo arrepiado e completamente inapetente para função que se propunha. O preconceito literário demonstrado indicava simultaneamente dois tristes fatos: falta de conhecimento e leitura daqueles que passam a maior parte do dia em uma livraria, suprema ironia e a permanência mesmo decorridas quase duas décadas do novo século de preconceitos literários. Quem é que estabelece o que pode ser lido ou não nesse País? A mera inserção de um nome no título da obra desagradável aos ouvidos principalmente de fanáticos religiosos pode obstar a leitura de um clássico.
A cavalaria nessa situação veio com um dos últimos representantes da aludida classe dos livreiros o Zé Maria proprietário da mais antiga livraria em funcionamento em Manaus. Conhecedor do trabalho de Ambrose Bierce e em viagem a São Paulo adquiriu o livro e levou até minha residência para meu deleite e ledice. O leitor deve ainda estar se questionando ao final dessa crônica a razão de não ter simplesmente encomendado o Dicionário em lume pela rede mundial de computadores. A resposta é bem simples. Existem certos prazeres da vida que devem ser usufruídos de modo táctil. O carinho de uma mulher, um bom vinho e o folhear inesquecível das páginas um livro. Os integrantes do mundo virtual que me perdoem, mas são sensações insubstituíveis que a informática ainda não conseguiu emular.







