Gerente de formação docente

Em: 9 de fevereiro de 2018
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O gerente de formação docente é um profissional cujas atribuições ainda não são adequadamente compreendidas nos universos organizacionais técnicos, científicos e tecnológicos. E uma das razões fundamentais pela incompreensão é a falta de clareza acerca dos desafios que precisa superar tanto do ponto de vista longitudinal quanto transversal, o que vale dizer, tanto em relação à completa formação de uma ou mais turmas docentes, quanto nas mudanças que deve promover para que a formação fornecida a cada geração de novos professores esteja em sintonia com o que a profissão vier a requerer no futuro próximo ou distante. Assim, esse gerente e sua equipe, além de estarem cientes dos desafios que a próxima turma terá que enfrentar e vencer no dia a dia do exercício docente, também terão que se antecipar aos desafios futuros de formação profissional para as turmas que ainda entrarão no processo formativo. Este artigo tem como objetivo explicar o escopo da função de gerente de formação docente.
O centro das atribuições do gerente de formação docente é o equilíbrio entre as competências que compõem o perfil profissiográfico contido no projeto pedagógico do curso e as necessidades ou exigências do mercado de trabalho. A razão desse procedimento é a necessidade de que a organização de ciência e tecnologia, enquanto instituição formadora, seja a supridora das demandas por profissionais qualificados por parte das organizações que compõem o ambiente de atuação institucional. Nessa relação suprimento x demanda, deve haver o equilíbrio entre o que os clientes ou usuários querem e o que pode ser suprido pela instituição que assim se propuser.

No entanto, dentro das diversas realidades nacionais, o que se observa é que praticamente não existe o diálogo necessário entre a instituição e as organizações que recebem os profissionais docentes formados. É como um diálogo de surdos, onde a instituição diz o que supostamente as organizações demandantes deveriam querer, que, por sua vez, dizem não serem ouvidas em termos das competências necessárias dos profissionais docentes de que precisam.

Analisando mais de perto a situação, percebe-se que há, em quase todas as instituições formadoras docentes, uma visão antiga de mundo por parte dos formadores, da mesma forma que também é antiga a maneira como formam os professores. Ainda permanece sólida a concepção de que há escolas direcionadas para a formação de indivíduos para serem humilhados e poucas escolas, consideradas de elites, para formar os humilhadores. A loucura parece tão grande que os docentes formados repassam essa ilusão de forma acrítica para seus alunos, perpetuando a alienação. Nem sequer desconfiam que todas as escolas têm que seguir as bases curriculares comuns, para o ensino básico, e as diretrizes curriculares nacionais, para o superior, prevendo o que deve fazer parte da formação desses profissionais. Esse é o primeiro desafio a ser enfrentado pelo gerente de formação.

O segundo desafio é a acreditação da formação. O profissional docente é formado de forma improvisada, amadora, assistemática, não reflexiva, acrítica. Por incrível que pareça, estão crentes que são profissionais críticos porque conseguem repetir a palavra “crítica” centenas de vezes em curto espaço de tempo. Como consequência, praticamente tudo o que vem da produção científica é deixado de lado porque a ciência com facilidade mostra o non sense da formação recebida e que se perpetua. É dessa forma que a formação se despe completamente da solidez científica para cair nas armadilhas perigosas de uma falsa filosofia libertária que os estudantes com a qual se encantam e de quem se tornam cativos. É a liberdade que aprisiona. E, o que é pior, aciona a desconfiança do outro.

Os avanços da ciência da educação e das técnicas pedagógicas pelo mundo são deixados de lado, substituídos pelo discurso repetitivo da crítica e do debate, mas sem que o interlocutor tenha o direito de pensar diferente. A crítica só é bemvinda se for concordante e qualquer possibilidade dissonante já não será mais debate, mas acusações acerca do caráter e da personalidade do interlocutor.

O segundo desafio, como se pode ver, é libertar a formação docente de uma falsa filosofia da liberdade para estruturá-la com conhecimentos verificáveis, criticáveis, falseáveis, dinâmicos, atualizáveis, mutáveis, flexíveis, adaptáveis às realidades e necessidades reais da vida. É preciso que cada docente e cada estudante de educação conheça e pratique cada etapa do método científico e que manuseie os conhecimentos científicos para produzir as ferramentas necessárias para alcançar o grande objetivo de toda educação, que é permitir que o próprio indivíduo seja capaz de, por si mesmo, descobrir as luzes do conhecimento e conduzir sua vida nos caminhos que ele mesmo venha a criar.

O gerente de formação docente permitirá, agindo dessa forma, que os futuros docentes não mais vejam o mundo dividido entre exploradores e explorados, como se imaginava em um passado distante (mas que permanece encruado na mente de algumas pessoas). As pessoas são, sim, tanto exploradoras quanto exploradas, algumas mais, outras menos, da mesma forma que todas são imperfeitas, o que não impede que algumas sejam mais bondosas e amorosas do que outras. Mas são as pessoas que são assim. Não é o mundo que está organizado de forma segmentado entre pessoas e organizações que só exploram e pessoas e organizações que só se deixam explorar.

A formação docente tem que ver o mundo de uma forma menos ilusória possível. E há ferramentas e procedimentos confiáveis para isso: a ciência. Ao deixar de lado a ciência e o que ela produz, a formação docente brasileira resolveu parar no tempo, o que explica a enorme discrepância entre o que é ensinado na maioria das escolas e aquilo que efetivamente é necessário para o indivíduo agir no mundo. Mas o sucesso de poucas escolas que deixaram a filosofia ilusória de lado e a substituíram pela ciência mostra que de bem pouco se precisa para fazer o que tem que ser feito. O gerente de formação docente é o maestro que poderá executar a sinfonia da educação altiva ou a cacofonia da filosofia que aprisiona.

Daniel Nascimento

É Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
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