No dia em que completa 349 anos, Manaus e principalmente sua população, ganham um presente bem especial: o casarão de JG Araújo, no Largo de São Sebastião, completamente restaurado e, a partir de agora aberto para receber festas e eventos. O mais interessante é que a iniciativa para trazer à vida o casarão, que nos últimos anos estava abandonado e sendo depredado por vândalos, não partiu de nenhum órgão público de cultura, mas de uma empresária visionária, Cláudia Mendonça que, mesmo sendo paraibana, está em Manaus há mais de 30 anos e é apaixonada pela cidade.
"Amo o Centro de Manaus. Já tive lojas em shoppings, mas para mim é uma felicidade pegar meu carro aqui na rua e ir para casa", contou Cláudia.
"Andando pelo Largo, observei que o casarão do JG estava abandonado, com vândalos entrando e saindo, morando dentro dele e roubando até as telhas. Aquilo me chocou bastante. Durante anos o casarão foi alugado pela SEC (Secretaria de Estado de Cultura) e foi mantido em ordem, mas quando a SEC o desocupou, aí começaram a chegar os vândalos", falou.
"Então procurei saber quem era o proprietário do imóvel e descobri. Entramos num acordo e, desde o início do ano comecei a restaurar o prédio que será inaugurado oficialmente hoje, dia 24, no aniversário de Manaus", disse.
"Como atuo na área de turismo, viajo pelo mundo e percebo que, nas principais capitais do planeta, os Centros dessas cidades são valorizados dessa forma, com a restauração de prédios antigos por investidores", explicou.
Um casarão secular
A Casa JG Araújo, como agora se chama o espaço para festas e eventos, criado por Cláudia, pertenceu ao rico empresário português Joaquim Gonçalves de Araújo, que durante o período áureo do comércio da borracha (1890/1910), fez fortuna em Manaus se tornando um dos mais ricos, se não o mais rico, homem da Amazônia.
Não se sabe o ano de inauguração do casarão, que fica na esquina das ruas Costa Azevedo com travessa Marçal Ferreira, numa posição privilegiada em relação ao Largo de São Sebastião, mas sabe-se que é secular. No casarão, JG morou com sua família durante décadas, até morrer em 1940. De lá, conta a história, ele seguia diariamente a pé para o escritório de sua empresa na rua Marechal Deodoro.
De área construída o imóvel tem 16m de frente por 35m de fundo, mais área lateral e atrás. Possui dois pisos: o espaço onde a família morava, e o amplo e belo porão que ocupa toda a extensão do casarão. "Temos umas dez salas em cima e o porão, um grande salão sem paredes", falou Ricardo Demosthenes, gerente da Casa.
"As pessoas poderão alugar as salas individualmente, ou o casarão inteiro, como fez recentemente uma família que ocupou todos os espaços para comemorar o aniversário de 15 anos da filha. Para novembro, o porão já está alugado para uma festa temática de Halloween", adiantou.
"Além das festas e eventos, o cliente poderá solicitar café da manhã, almoço e jantar, que nós providenciaremos, ou se o próprio cliente quiser trazer esse serviço, poderá fazê-lo", afirmou.
Para decorar todos os espaços do casarão, paredes e salas, Cláudia Mendonça recorreu a amigos que tinham móveis, quadros e objetos antigos e os adquiriu. "Quero reviver as histórias daqueles tempos da Belle Époque. Resgatá-las. Uma das minhas idéias é promover jantares com cardápios servidos nos restaurantes daquela época. Já consegui os cardápios e já tenho uma chef que irá prepará-los", revelou.
"Minha vontade é inspirar outros empresários e investidores a fazerem o mesmo que fiz aqui com outros prédios históricos que estão abandonados pela cidade", concluiu.
No dia de hoje a Casa JG Araújo estará aberta para visitação pública das 9h às 14h.
Sempre investiu em Manaus
Joaquim Gonçalves de Araújo nasceu em Portugal, em 14 de fevereiro de 1860. Com onze anos de idade ele chegou a Manaus, sozinho, mas com o consentimento dos pais, como faziam vários outros imigrantes europeus, principalmente portugueses. Veio num navio pertencente ao rico empresário português Nuno Pau Brasil, que o trouxe para a capital amazonense e muito o ajudou.
Quando JG estava com 15 anos, Nuno Pau Brasil lhe emprestou dinheiro para que ele abrisse um negócio próprio, o primeiro, de vários outros que viria a ter como: firma exportadora de borracha, Padaria Progresso e Confeitaria Bijou, Brasil Hévea (fábrica de produtos de borracha, como saltos de sapatos), além de uma pioneira produtora de cinema tendo à frente o também português Silvino Santos.
JG casou em 11 de fevereiro de 1893 com Maria Adelaide da Silva e teve os filhos Agesilau, Aluísio, Adelaide e Alet. Faleceu em Lisboa, a 21 de março de 1940, com 80 anos.







