Morte e vida de uma lagoa

Em: 23 de novembro de 2018
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Aonde o ser humano, dito civilizado, chega, ou ele muda ou destrói o ambiente à sua volta. Foi assim com a lagoa do Parque São Pedro e seu entorno, no Tarumã. Em 2004 o local ficou conhecido como Invasão da Carbás quando, em poucos dias, foi tomado por centenas de invasores que, também em poucos dias, derrubaram árvores e ocuparam as margens da lagoa. Em algumas semanas a lâmina d’água desapareceu sob todo tipo de lixo e, como aconteceu com os igarapés da zona urbana de Manaus, parecia fadada a se tornar não um esgoto a céu aberto, como os igarapés, mas um imenso depósito de lixo.

“Toda essa imensa área de terras, hoje denominada Parque São Pedro, era uma fazenda do empresário Carlos Alberto Barros da Silva, o Carlinhos da Carbrás, que ficou conhecido quando se tornou prefeito de Parintins em 1996, sendo cassado em 1998”, lembrou Ademar Brito, o Mazinho da Carbrás (que não tem parentesco algum com Carlinhos).

“A lagoa não existia. Era apenas um igarapé que cortava o terreno, mas o Carlinhos fez uma barreira lá adiante e a água represada formou a lagoa onde ele passou a criar peixes, tilápias”, contou Mazinho.

“Nessa época eu trabalhava com ele, em Parintins. Depois que o Carlinhos deixou de ser prefeito, teve problemas com seus empreendimentos e acabou perdendo tudo, inclusive esse imenso terreno que foi totalmente invadido e ele não foi indenizado em nada, nem chegou a vender lote algum”, detalhou.

“Em 2005 vim tentar conseguir um lote aqui. Ainda tinha muita confusão, mas comprei esse aqui. A lagoa já estava totalmente cheia de lixo. Me desesperei quando vi aquilo, pois conhecera o local antes da invasão. Um Paraíso. Naquele mesmo ano comecei a limpeza, circulando pelas águas dentro de uma grande caixa de isopor, pois sequer tinha uma canoa. O pessoal me chamava de louco. Diziam que eu nunca limparia aquele lixo, acumulado ao longo de três anos. A resposta positiva foi vindo com o tempo”, falou.

Ambientalista sem querer
“Aos poucos fui conhecendo um a um os moradores do entorno da lagoa, conversando e conscientizando cada um para que não jogassem nenhum tipo de lixo nas águas. Foi difícil. Muito difícil, mas eles foram entendendo que manter a lagoa limpa era importante para eles mesmos”, ensinou.

“Atualmente moram 350 famílias nas margens e ninguém mais joga lixo na lagoa, mas ela ainda é muito poluída devido às águas que escorrem das demais ruas do bairro serem direcionadas para cá. Durante a administração do prefeito Serafim Corrêa (2005/2009) as ruas do bairro foram asfaltadas e ao invés de criarem um sistema que direcionasse as águas da chuva para um determinado lugar, os ‘técnicos’ simplesmente abriram três esgotos, até hoje responsáveis por trazer a água da chuva de todo o bairro para dentro da lagoa”, reclamou.

“Costumo dizer que me tornei um ambientalista sem querer. Antes eu era só um câmera do Carlinhos da Carbrás, mas há treze anos comecei essa luta, que continua até hoje. Agora eu tenho uma canoa e, diariamente, junto com alguns moradores que também me apóiam, catamos o lixo sólido que é trazido para cá pelos esgotos”, explicou.

“Solução há. Basta apenas boa vontade do poder público. A sugestão que dou seria colocar uma tubulação que desviasse daqui a água poluída despejada pelos três esgotos; Depois, desapropriar os moradores e recuperar toda a margem criando uma área verde; Em seguida construir um conjunto ‘Minha Casa, Minha Vida’ e transferir para lá todos esses moradores. Outra idéia seria urbanizar o entorno, dividir os lotes e os moradores serem mantidos na margem mesmo, porém, em casas construídas dentro de um mesmo padrão”, informou.

As tilápias continuam na lagoa

Todo o lixo retirado da lagoa é separado e vendido para reciclagem. “O dinheiro recebido não paga o trabalho, o que compensa é dar um destino satisfatório para esse material”, comemorou. “As tilápias colocadas pelo Carlinhos, até hoje se reproduzem nessas águas e no ano passado despejamos aí 18 mil alevinos de tambaqui. Acredito que este seja o primeiro viveiro de peixes comunitário do Amazonas. Esses peixes só podem ser pescados pelos moradores das margens, mas 70% deles não os pescam ou consomem alegando que estão contaminados, mas 30% sim, inclusive eu, e até hoje não vi ninguém reclamar de problemas de saúde em virtude disso. Essas árvores que podem ser vistas na área foram plantadas por mim, desde que vim para cá, e criaram esse cinturão verde. Se tivéssemos apoio do poder público para fazer mais pela preservação da lagoa, ela estaria ainda mais bonita do que está. Se todos pensassem a agissem como eu, a natureza do planeta agradeceria. Enquanto eu puder, continuo com esse trabalho de preservar esse pedacinho de natureza”, finalizou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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