Quando o menino Guilherme nasceu, em 3 de setembro de 1937, na cidadezinha de Beruri, no Amazonas, o Brasil estava prestes a entrar no Estado Novo, de Vargas, que começaria em novembro daquele ano e duraria até 1945; a Europa já sentia cheiro de guerra no ar, com os alemães bombardeando a pequena cidade de Guernica; enquanto a China era invadida pelo Japão.
Mas tudo era tranquilidade na distante Beruri, até hoje uma cidadezinha com menos de 20 mil habitantes. Pequena demais para Guilherme Aluízio de Oliveira Silva, que ainda menino veio com os pais Álvaro Fachina da Silva e Dalila de Oliveira Silva, para Manaus.
Em Manaus Guilherme Aluízio estudou em dois importantes colégios da época, o Dom Bosco e a Escola Normal São Francisco de Assis, ambos com formação educacional bastante rigorosa, o que ajudou a delinear o caráter do garoto.
Em 1955, então com 18 anos, Guilherme Aluízio conseguiu seu primeiro emprego no mundo das comunicações ao trabalhar como jornalista no jornal A Gazeta. Nessa época conheceu, e se tornou grande amigo, de outro adolescente que também gostava muito de vasculhar e escrever notícias, Phelippe Daou, então trabalhando no O Jornal e Diário da Tarde.
Guilherme Aluízio contava histórias de quando ele, Phelippe e outros colegas saíam das redações dos jornais pela madrugada, numa cidade onde praticamente nada acontecia, e ficavam pelas praças conversando até quase amanhecer, falando de seus trabalhos do dia e o que pretendiam ser quando ficassem adultos. Donos de empresas de comunicação, talvez nem passasse pelas cabeças dos rapazes.
Um empresário de sucesso
Em 1960 Guilherme Aluízio saiu de A Gazeta e foi trabalhar na empresa da família que, estivera sob a direção de Álvaro Fachina, atuando na comercialização de madeiras, fundando, em 1962, as próprias serrarias Santa Luzia e Froeste (Fronteira Oeste da Amazônia Ltda.), uma instalada em Manaus, para o abastecimento local, e a outra funcionando em Benjamin Constant, para exportação de madeiras para o exterior.
Em 16 de abril de 1964, Guilherme casou com a empresária Selma Bomfim Silva, cujo pai, Sócrates Bomfim, era o diretor-presidente da Siderama (Companhia Siderúrgica da Amazônia). Três anos depois, o jovem assumiu o cargo de diretor financeiro e vice-presidente da empresa.
O projeto da siderúrgica era produzir 60 mil toneladas de aço laminado por ano e Guilherme Aluízio participou da inauguração do alto-forno e da primeira corrida de ferro gusa da Siderama.
Em 1970 o empresário fundou a Navezon (Linhas Internas da Amazônia Ltda.), uma das empresas pioneiras no transporte fluvial de combustíveis líquidos no Amazonas.
Sete anos depois, em 1977, nasceu o primeiro e único filho de Guilherme e Selma, levando o nome do avô, Sócrates Bomfim.
Nesse tempo todo Guilherme Aluízio nunca esquecera o sonho de se tornar empresário das comunicações, e se realizaria em poucos anos.
No dia 4 de dezembro de 1984, ele comprou o Jornal do Commercio, junto com a Rádio Baré, dos Diários Associados.
O Jornal do Commercio é o jornal mais antigo em circulação na Amazônia, e um dos mais antigos do Brasil, tendo sido fundado em 2 de janeiro de 1904, por Joaquim Rocha dos Santos, vendido depois a Vicente Reis, em 1909, que, em 1943, o vendeu para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
Guilherme Aluízio transferiu o complexo empresarial, jornal e rádio, da avenida Eduardo Ribeiro, para se estabelecer na avenida Tefé, Japiim, onde está até hoje, transformando-o no jornal mais moderno na época, sendo o primeiro a imprimir em cores e o pioneiro do uso de computadores na redação.
Catarina e Guilhermina são as netas de Guilherme Aluízio.
Amigos relembram de histórias, exemplos e ensinamentos deixados pelo empresário

O jornalista e empresário Guilherme Aluízio era um mestre em relacionamentos pessoais. Cultivava amizades como um hábil agricultor, sendo muitas vezes conselheiro, outras vezes irmão e em alguns momentos assumiu uma atitude paternal com seus interlocutores. Quem conviveu com o jornalista coleciona histórias e aprendizados que ficarão para sempre na saudade.
“Estou muito abalado. Senti demais a partida do Guilherme, de quem eu era amigo há mais de 70 anos, quando fomos internos durante muitos anos no colégio São Francisco de Assis. Somos amigos de família. Esse golpe que senti hoje foi irreparável. Guilherme era um exemplo de amigo, de empresário, de trabalhador. Desde que ele foi para São Paulo, agora, ligava diariamente para saber do estado de saúde dele. Às vezes ele não conseguia falar comigo”.
Ubaldino Meirelles, amigo de infância
“Guilherme Aluízio foi interno do colégio São Francisco de Assis, que pertencia a meus pais, e desde criança eu ouvia falar os nomes dele e do Ubaldino, que já eram adolescentes. Meus pais os achavam muito inteligentes e lembro que eles eram muito brincalhões. Meu pai, também, foi professor da Selma, que depois viria a ser esposa do Guilherme. O que posso dizer dele é que era um homem gentil, ético, inteligente, agradável, que falava comigo onde me encontrasse. Homens como ele são raros. Ele conseguiu manter moderno um jornal com 115 anos”.
Mazé Mourão, colunista do JC
“A caminhada da vida nos traz algumas pessoas que nem sempre deixam marcas. Mas têm aquelas que quando chegam e se instalam em nossa vida, vêm carregadas de uma marca que ninguém pode apagar. É o caso de Guilherme Aluízio de Oliveira Silva. O meu relacionamento com ele se estende por mais de 30 anos. Aprendi com ele que a humildade e a gentileza devem andar ao lado de nós que temos um dia a dia no trato com as pessoas. Ele me ensinou a perseverar sempre, desistir jamais. A acreditar em mim acima de tudo. É uma das poucas pessoas que deixam sua marca na minha vida em saber trilhar, respeitar e executar seus ensinamentos. O Amazonas perde, hoje, um dos grandes nomes de sua liderança empresarial e jornalística. Estou me sentindo órfão pela segunda vez”.
Oswaldo Lopes, diretor-presidente da TV Cultura/Manaus
“Tenho uma gratidão eterna pelo JC, na pessoa de Guilherme Aluízio, pelo espaço que ele sempre deu no jornal ao setor primário, no qual trabalho. Quando comecei a escrever para o JC, em 2013, ele disse que eu só escreveria para o jornal se assinasse com o sobrenome ‘Meirelles’, do meu pai, Ubaldino, amigo dele de infância, desde o colégio São Francisco. Eu assinei e hoje todo mundo só me conhece por Thomaz Meirelles. A amizade dele com o meu pai sempre foi um exemplo para mim”.
Thomaz Meirelles, articulista do JC
“A família dele era muito ligada à minha família. Quando ele tinha a serraria Santa Luzia, meu tio Erasmo fazia trabalhos de mecânica nas máquinas. Em 1986 fui trabalhar como copidesque no JC, quando ele inaugurou o primeiro sistema informatizado, em Manaus, numa redação. Lembro que o salário que ele pagava era muito bom. Um jornalista ganhava sete salários mínimos. Depois voltei a trabalhar lá, em 1992. O Guilherme Aluízio nunca me tratou como empregado. Me tratava como um amigo”.
Cláudio Amazonas, jornalista







