Mozart aprendeu a tocar piano e violino com o pai, com menos de cinco anos de idade. Já o pai de Vivaldi ensinou o filho a tocar violino e este se tornou o maior nome entre os violinistas de todos os tempos. Beethoven, apesar da severidade do pai quando lhe ensinou a tocar cravo, violino e viola, virou ícone da música clássica; e Chopin pôs a doçura dos ensinamentos de sua mãe pianista nas músicas que compôs ao longo da vida.
Em Manaus, existem pais e mães que também sonham ver seus rebentos tocando um instrumento. Quando conseguem uma vaga no Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, sentem que conquistaram um dos maiores troféus da vida. Melhor ainda quando o pequeno, ou a pequena, conseguem tirar música do instrumento.
No mês passado o Liceu abriu mais de 1.500 vagas para o segundo semestre deste ano nos cursos de violino, violão, teclado, além dos novos cursos de musicalização infantil em percussão amazônica e teatro musical, para crianças e jovens. No mesmo dia todas as vagas foram preenchidas.
Tocando como Vivaldi
Isabele Brasil, 8, está apenas há um ano e quatro meses no Liceu, mas a intimidade da menina com o violino impressiona.
“Vi na Internet aquele vídeo da menina tocando Despacito no violino, na rua, e quis aprender a tocar igual a ela. Sou da Igreja Nova Jerusalém e queria ajudar na igreja, tocando hinos”, falou.
Vendo o interesse da filha, seus pais Ezequiel e Keila procuraram um membro da igreja, Natanael, que sabia tocar violino e deu os primeiros toques para Isabele, quando ela tinha apenas seis anos. Num determinado momento Natanael disse que era melhor Isabele continuar seu aprendizado no Liceu.
“Como as vagas lá são muito concorridas, toda a família se empenhou em conseguir matricular a Isabele. Ao menos oito familiares ficaram no computador, em casa e no trabalho, tentando realizar a matrícula dela, até que conseguimos”, disse Ezequiel. Hoje Isabele é o orgulho da família, já tendo se apresentado em vários eventos da Secretaria de Cultura. Para a reportagem do Jornal do Commercio ela tocou o terceiro movimento em la menor, de Vivaldi, de ouvido, sem olhar para a partitura, que ela lê somente nas músicas mais difíceis.
“Ensaio de domingo a domingo, de duas a três horas por dia, mas eu gosto muito de tocar, então não acho chato”, revelou.
Me apresentar numa orquestra
Lucas Lourenço da Cunha, 12, cresceu ouvindo o pai Jairo tocar saxofone em casa. Ele é músico e toca diariamente.
“Sempre gostei do som do saxofone e quando estava com uns cinco, seis anos, quis aprender, mas meu pai não gosta muito de ensinar, então preferiu me matricular com um professor, mas aí eu que não gostei das aulas do professor”, contou.
Em 2017, Elaine, a mãe de Lucas, ouviu falar da abertura de vagas no Cláudio Santoro e conseguiu matricular o menino, porém, não da forma que pretendia.
“Eram aulas de teoria, e eu queria aprender na prática, mesmo assim aprendi muito. Quando comecei a tocar o instrumento, já sabia bem a teoria”, falou.
O garoto desenvolve seus dotes musicais na Assembleia de Deus Tradicional, mas seus pensamentos voam alto. Ele quer tocar numa orquestra ainda que nas orquestras de música erudita/clássica o saxofone não seja utilizado, pois não pertence ao naipe dos metais nem ao naipe das palhetas, devido ser um instrumento relativamente moderno, criado quando as orquestras já existiam há tempos. Mas é utilizado em composições orquestrais mais recentes, como as de Villa-Lobos, por exemplo, sem falar no brasileiríssimo chorinho.
Para a reportagem do Jornal do Commercio, Lucas tocou ‘Vou Vivendo’, de Pixinguinha, que ele não sabe direito quem foi, mas admira as músicas.
“Quero ficar famoso tocando meu saxofone”, concluiu.
Depois quero tocar guitarra
Quando Joelma, mãe de Albert Henrique, 9, quis matriculá-lo no Cláudio Santoro, Ulisses, o pai, achou que era perda de tempo.
“Via o pessoal tocando violão, na televisão, e queria tocar também”, contou Albert.
Assim que foram abertas as vagas no Liceu, ano passado, Joelma correu para matricular o filho. Facilitou a empreitada o fato dela estar com outra filha, de colo.
“Ele teve as primeiras aulas, ano passado, e quando voltou para casa foi uma lástima”, lembrou Ulisses.
“Eu disse pra Joelma: é melhor colocar ele numa aula de inglês. Mas ela insistiu. Nem ligou pro que eu falei. Apostou no Albert. A cada aula que ele voltava pra casa, já sabia mais alguma coisa. Certo dia ele chegou e tocou ‘Asa Branca’, do Luiz Gonzaga. Eu fiquei emocionado quando ouvi”, recordou.
“O professor coloca as notas no quadro e nos ensina, na prática, então eu repito o que ele ensina”, falou o menino.
“Ainda não sei ler as notas. Estou aprendendo. Mas já sei tocar algumas músicas”, revelou.
Para a reportagem do Jornal do Commercio, Albert tocou ‘Asa Branca’, segurando um violão quase do seu tamanho. “Depois quero aprender a tocar guitarra”, avisou.
Os pais que desejarem ver seus rebentos se tornarem, quem sabe, grandes músicos, devem ficar atentos à programação de cursos do Liceu Cláudio Santoro. Depois de conseguir a matrícula, é esperar alguns anos, ou quem sabe meses, para ver os talentos despertarem.







