O estrangulamento logístico global causado pelo alerta amarelo do coronavírus já foi sentido no PIM. Em torno de 15 fábricas de bens finais do polo eletroeletrônico já interromperam atividades e deram férias coletivas antecipadas, por falta de componentes, segundo informações concedidas pelo Sindmetal-AM (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas do Amazonas). A entidade estima que de 2.500 a 3.000 trabalhadores estão parados por esse motivo.
De acordo com o presidente do Sindmetal-AM e da CUT-AM (Central Única dos Trabalhadores do Amazonas), Valdemir Santana, a tendência é de um efeito ampliado na cadeia produtiva do polo eletroeletrônico do Distrito Industrial. Sem clientes trabalhando, a tendência é que entre 35 e 50 fabricantes de componentes instalados no PIM façam o mesmo, dando férias antecipadas a um contingente de trabalhadores pelo menos dez vezes maior.
“Segundo nos informaram, as empresas estavam esperando um carregamento de insumos que chegaria em março, logo depois do Carnaval, mas o navio ainda nem saiu da China. Desse jeito, só deve chegar por aqui no final do próximo mês. É muito material, porque as empresas passaram a importar mais nos últimos anos e muitos fornecedores locais encerraram as atividades. A coisa é que, desse jeito, os componentistas que ainda atuam por aqui vão ter que parar também, por falta de clientela”, lamentou.
A interrupção na cadeia de suprimentos do PIM por falta de suprimentos para a produção já era aguardada, uma vez que o mesmo já se deu em indústrias de outros pontos do globo – inclusive no Brasil. O problema começou com a paralisação de vários fornecedores na China, em função do temor de uma pandemia de coronavíruos, gerando um efeito dominó nas cadeias internacionais de produção e escassez de matéria-prima para fabricação e montagem de produtos.
Dia das Mães
A paralisação do Distrito ocorre em um momento estratégico para o setor, que já intensificava seus trabalhos para atender a demanda do comércio do Dia das Mães, data comemorativa tradicionalmente considerada como segundo Natal do comércio – e, por extensão, da indústria de transformação também.
De acordo com levantamento da Trendforce, empresa que faz análise de suprimentos na China, a epidemia de coronavírus pode comprometer a produção de smartphones ainda no primeiro trimestre de 2020. Se comparada com 2019, a fabricação dos aparelhos deve cair 12%, gerando o pior resultado em cinco anos, além de atingir também a fabricação de monitores. Mantidas as atuais condições, o desabastecimento das fábricas do PIM pode ocorrer ainda no primeiro trimestre, segundo as previsões de especialistas.
Maior fornecedor
A China é o maior fornecedor da indústria incentivada de Manaus e respondeu por 37,30% das importações do Amazonas ao longo de 2019 (US$ 10.16 bilhões), conforme os dados do governo federal disponibilizados no portal Comex Stat. Vendeu US$ 3.79 bilhões em manufaturados para o Estado, 7,67% a mais do que o contabilizado em 2018 (US$ 3.52 bilhões), ficando bem à frente do segundo e do terceiro colocado no ranking de fornecedores do PIM: EUA (US$ 1.21 bilhão) e Coreia (US$ 908.75 milhões).
Componentes para a indústria eletroeletrônica responderam pela maioria das aquisições do Polo no país asiático: partes e peças para televisores e decodificadores (US$ 1.13 bilhão), circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos (US$ 328.12 milhões), além de circuitos impressos (US$ 163.09 milhões). A lista incluiu ainda produtos acabados, máquinas e aparelhos de ar condicionado (US$ 287.17 milhões) e “aparelhos elétricos para telefonia”/celulares (US$ 187.65 milhões).
Estoque e competitividade
O Jornal do Commercio tentou contato com os dirigentes da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletrônicos) e do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus), mas não conseguiu retorno até o fechamento desta reportagem.
Em depoimento anterior, o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, informou ao Jornal do Commercio que, em função dos entraves logísticos, as indústrias do PIM costumam contar com estoques de insumos comparativamente maiores, suficientes para 45 a 90 dias, que é o tempo de transporte marítimo entre o mercado fornecedor e Manaus. Esse também costuma ser o prazo para que a escassez ou aumento do preço dos componentes seja sentido pelo setor.
Em entrevista recente ao “Follow Up”, o presidente da Eletros, José Jorge do Nascimento Júnior, disse que um fator adicional de preocupação vem do fato de que os insumos que chegam pelo modal aéreo – mais leves e considerados de maior valor agregado, dado o custo comparativamente maior do que o marítimo – são suficientes apenas para dez a 15 dias de produção de celulares, televisores e tablets







