Três décadas cuidando dos animais

Em: 4 de março de 2020
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Nunca os pets estiveram tão em alta, em Manaus, como nos últimos tempos. Hoje eles frequentam clínicas especializadas, festas exclusivas, hotéis e hospitais próprios, passeiam por ambientes antes só de humanos, como os shoppings, têm remédios específicos, comidas especiais e até roupas usam, sem falar das ong’s que cuidam de seus interesses. Mas nem sempre foi assim.

Há poucas décadas, quando Manaus ainda não tinha sido invadida pelos apartamentos, a maioria das casas possuía quintais onde eram criados cães e gatos, estes, quando por um acaso apareciam e passavam a viver pelos telhados. O máximo que estes animais ganhavam eram as sobras das comidas e algum carinho, dependendo do dono. Se adoeciam e não houvesse tratamento caseiro, morriam. Passeios com o dono? Não era hábito de ninguém. Assim nasciam, viviam e morriam até que começaram a chegar os homens de branco, os veterinários, vindos principalmente de faculdades do Sudeste.

“Me formei em 1983, em São Paulo e, em 1989 vim a Manaus, a passeio”, lembrou o dr. Ivan Sócrates Nascimento.

“No ano seguinte voltei em definitivo, e abri a minha clínica, que até hoje tem meu nome ‘Clínica Veterinária Dr. Sócrates’. Naquela época havia apenas dois outros veterinários na cidade, o dr. Mauro e o dr. Rubens, ambos já falecidos. Depois começaram a chegar outros”, disse.

“Naqueles primeiros anos, lógico, os amazonenses não tinham o hábito de levar seus animais ao veterinário. Pagar um médico para cuidar dos bichos, que sempre ‘souberam se cuidar’? não tinha lógica”, falou.

Mudança de hábitos

Quem geralmente levava seus pets para se tratar nos veterinários eram as pessoas de outros estados, e que tinham certo poder aquisitivo.

“Tive clientes que quando o diagnóstico de seu animal era complicado, e não tinham como tratá-lo aqui, eles simplesmente viajavam para o Rio, ou São Paulo, onde os tratamentos eram mais modernos”, relembrou.

“Aqui não tinha sequer Raio X ou laboratório para se fazer qualquer tipo de exame, então o meu atendimento era apenas clínico. Eu olhava, examinava e dava o diagnóstico. Os medicamentos eram os mesmos dos humanos, apenas com a adaptação da dosagem”, revelou.

Para ampliar a incipiente clientela, Dr. Sócrates saiu da clínica e foi para a zona rural, dar assistência a bovinos e equinos nas fazendas das imediações de Manaus.

“Durante muito tempo eu fiz isso, porque havia uma demanda reprimida. Colegas meus, inclusive, se especializaram em animais das fazendas, como o Dr. Bertoldo, em equinos, e o Dr. Manoel, em aves. Eu preferi investir em pets e cheguei a ter na clínica um espaço onde os animais ficavam internados mas, devido a problemas particulares, hoje mantenho apenas o atendimento clínico”, ressaltou.

Nesses 30 anos, Dr. Sócrates viu Manaus e os hábitos de sua população mudar. Exatamente a partir da década de 1990, a cidade se encheu de prédios de apartamentos. Muita gente com alto poder aquisitivo veio morar na capital amazonense e o manauense começou a adotar costumes dos novos habitantes que vinham de fora.

“Hoje a consulta numa clínica veterinária não é mais tão cara e o amazonense passou a tratar melhor o seu pet. Vários tipos de ração, muitas de excelente qualidade, substituíram os restos de comida e ao primeiro sinal de tristeza do animal, o dono ‘corre’ para o veterinário”, explicou.

Para amar e cuidar

Os quintais praticamente sumiram das casas e os pequenos pets se tornaram as estrelas dos apartamentos. Aos cães de médio e grande porte restaram os últimos quintais.

“Mudou a relação dono x animal, que passaram a ter um contato mais próximo. Hoje o pet, principalmente o cão, chega a fazer parte da família, sendo muitas vezes, tratado como um ser humano”, contou.

“Não sou contra esse contato mais próximo entre dono e animal, mas faço ressalvas, principalmente a dormir com o animal na cama, a não ser que este tenha um acompanhamento médico sério e se saiba que está pleno de saúde, bem como o dono, que não pode estar acometido de nenhuma doença que debilite sua imunidade”, ensinou.

Até o perfil dos pets atendidos pelo veterinário mudou.

“Antes me traziam muitos animais silvestres, hoje proibidos de ser criados sem uma licença especial, então restaram cães e gatos, principalmente cães”, informou.

Para o médico, o trabalho realizado por algumas ong’s que estimulam o bom tratamento e a adoção dos pets é muito importante. Antes os cães de rua eram terrivelmente caçados pelas carrocinhas e depois sacrificados. Quantas crianças não choraram o triste fim de seu animalzinho de estimação?

“Hoje, não mais. Existe um serviço da prefeitura para castrar gratuitamente os animais. Isso é excelente, mas só castrar e soltar nas ruas não resolve a situação. Cuidar de um animal, por menor que seja, dá trabalho e é muito dispendioso. Precisamos de mais gente que os ame e queira cuidar deles”, concluiu.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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