Educação e subdesenvolvimento rural

Em: 15 de fevereiro de 2008
Nos países da América Latina, as escolas fundamentais rurais (do primeiro ao oitavo ou nono ano) continuam ensinando aos seus alunos a história dos faraós e das pirâmides do Egito, a altura do Everest
Nos países da América Latina, as escolas fundamentais rurais (do primeiro ao oitavo ou nono ano) continuam ensinando aos seus alunos a história dos faraós e das pirâmides do Egito, a altura do Everest

Nos países da América Latina, as escolas fundamentais rurais (do primeiro ao oitavo ou nono ano) continuam ensinando aos seus alunos a história dos faraós e das pirâmides do Egito, a altura do Everest, os impérios Romano e Bizantino, o Renascimento, a história de Luis 14, 15 e 16 e de  Napoleão Bonaparte, o sistema nervoso dos anfíbios, a reprodução das briófitas e pteridófitas e, algumas delas, até o “esquema de funcionamento dos pés ambulacrários dos equinodermos”.
Enquanto entediam as crianças rurais com esses conhecimentos, absolutamente irrelevantes para as suas necessidades de vida e de trabalho no campo, perdem uma extraordinária e irrecuperável oportunidade: a  oportunidade de ampliar e aprofundar o ensino de conteúdos muito mais úteis e de aplicação mais imediata na correção das ineficiências causadoras do subdesenvolvimento rural, como por exemplo: o que as famílias rurais poderiam fazer para obter uma  produção agropecuária mais abundante, mais diversificada, mais eficiente e mais rentável; quais medidas de higiene, profilaxia e alimentação elas deveriam adotar para evitar as enfermidades que ocorrem com maior freqüência no meio rural; o que deveriam  fazer  para prevenir as intoxicações com pesticidas e os acidentes rurais e como aplicar os primeiros  socorros, quando eles não puderem ser evitados; como produzir e utilizar hortaliças, frutas e plantas medicinais; como organizar a comunidade para solucionar, em conjunto, aqueles problemas que não podem ou não devem ser resolvidos individualmente, como, por exemplo, a comercialização e os investimentos de alto custo e baixa frequência de uso, etc.

Educar para o acúmulo de conhecimentos
ou para a auto-realização?

Também perdem a oportunidade de outorgar-lhes uma melhor formação “valórica”, pois deveriam ensinar-lhes os princípios, as atitudes e os comportamentos necessários para melhorar o seu desempenho na vida familiar e comunitária, como, por exemplo: formá-los para que tenham mais iniciativa e espírito empreendedor a fim de tornarem-se menos dependentes de ajudas paternalistas; educá-los para que pratiquem a honestidade, a solidariedade, a responsabilidade e a disciplina; para que tenham consciência dos seus direitos, mas especialmente dos seus deveres; para que possuam uma ambição sadia e um forte desejo de superação, porém conscientes de que deverão concretizar estas aspirações através da perseverança e da eficiência na execução do trabalho. Essas escolas não estão cumprindo  a sua função de desenvolver as potencialidades latentes das crianças rurais, de abrir-lhes  novas oportunidades de auto-realização   nem de formar cidadãos que, graças à sua própria vontade e competência, sejam capazes de protagonizar o autodesenvolvimento pessoal, familiar e comunitário.

Rio Nilo ou o rio da comunidade rural?
As escolas fundamentais rurais seriam muito mais úteis se, antes de ensinarem a história da Europa ou a geografia da Ásia, ensinassem aos seus alunos a história e a geografia das suas comunidades. Se, em vez de distrair as atenções dos educandos com as girafas e elefantes da África, lhes ensinassem como criar, com maior eficiência, os animais existentes nas suas propriedades, com a finalidade de melhorar o auto-abastecimento e a renda familiar; tais escolas seriam mais úteis se lhes ensinassem como evitar  as pragas da agricultura e da pecuária, como identificar e eliminar  as plantas que intoxicam os seus animais e os insetos que transmitem as  enfermidades. Ao invés de fazê-las memorizar a extensão do Rio Nilo, seria mais útil ensinar-lhes  como e por que deveriam  evitar a poluição de um outro rio: o rio da sua comunidade.

Jardins suspensos da Babilônia ou hortas caseiras?
Antes de abordar os jardins suspensos da Babilônia, seria conveniente ensinar-lhes como e por que deveriam implantar hortas e pomares diversificados nas suas propriedades e como adotar medidas de conservação do solo para que continue produzindo com alto

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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