Você sabe português?

Em: 4 de abril de 2008
O indivíduo, desde o nascimento, adquire a língua em contextos informais do dia-a-dia –o que é preciso para sua sociabilização– e, para isso, não necessita de nenhuma tecnologia além da que já possui naturalmente.
O indivíduo, desde o nascimento, adquire a língua em contextos informais do dia-a-dia –o que é preciso para sua sociabilização– e, para isso, não necessita de nenhuma tecnologia além da que já possui naturalmente.

É bem provável que boa parte dos brasileiros, falantes nativos da língua portuguesa, afirmem com veemência que não sabem português. Ora, nos comunicamos nesse idioma todos os dias; falamos e os outros entendem. Como não sabemos português?!
Essa convicção tem origem nada escola, onde o português é apresentado como uma língua estrangeira ao aluno, mesmo que ele a tenha adquirido naturalmente e com a qual se comunique eficientemente.
Aprender uma língua é próprio à capacidade humana. O indivíduo, desde o nascimento, adquire a língua em contextos informais do dia-a-dia –o que é preciso para sua sociabilização– e, para isso, não necessita de nenhuma tecnologia além da que já possui naturalmente. Sabemos, por exemplo, que o artigo vem antes do nome, que seria completamente errado falar “cachorro o”, e que podemos usar ordem direta ou indireta entre sujeito e predicado, como em ‘morreu o cachorro” ou “o cachorro morreu”. Enfim, conhecemos a organização lógica e as regras básicas da língua que falamos.
A necessidade de ‘aprender’ português na escola é ter o domínio consciente daquilo que já conhecemos inconscientemente, assimilar as regras que estão por trás da língua que usamos automaticamente, e conhecê-la profundamente é que permite usá-la com mais eficiência em situações específicas.
Outro ponto é que, para aprender a escrever, é necessário ir à escola, ser alfabetizado, treinar a coordenação motora, o que possibilitará escrever letras, agrupá-las em sílabas, sílabas em palavras, palavras em frases, parágrafos e textos. A tecnologia é importante no aprendizado da escrita: professores, metodologia adequada, livros, caligrafia, entre outras.
Falamos de um jeito e escrevemos de outro. A língua escrita é repleta de convenções para que a sua unidade não seja comprometida, por exemplo, convencionou-se escrever “manhã” com NH, mesmo que alguns pronunciem “mãiã” (como no Amazonas) e outros, “mãniã” (como no Pará). Se todos escrevessem como falam, não haveria comunicação na língua portuguesa escrita, isto é, não haveria entendimento nessa modalidade.
O problema é quando o professor trata o aluno como um deficiente, como um completo desconhecedor do idioma que utiliza diariamente. Nesses casos, é apresentada uma série de regras a serem decoradas, receitas de como se deve falar ou escrever. Todo o conhecimento que o indivíduo já possui quando chega à escola é desconsiderado, e quando este questiona o porquê de uma regra ou outra, tem como resposta: “desse modo é que é correto, você deve falar assim”.
Uma metodologia desse tipo é que cria aqueles que ‘não sabem português’. Durante os anos de ensino, aprende-se que tudo o que se fala está errado e decora certas regras que nunca encontra meios de aplicar. Que português estrangeiro é esse, que desconhecemos tão totalmente?
Ao invés de criar poliglotas dentro de uma mesma língua, ao longo dos anos, professores discriminam o uso do aluno, da sua família, da sua comunidade, o faz decorar regras sem ensinar suas aplicações práticas e cria cada vez mais “deficientes linguísticos”.
Não defendo de modo algum que a gramática sejam abolidas do ensino. Pelo contrário, desejo que ela seja ensinada de maneira que seja possível aprender a usar adequadamente a norma culta, que é um domínio importante por seu status social, porque é o veículo utilizado nos livros, jornais escritos e falados, na cultura.
Por outro lado, saber gramática não é o mesmo que saber escrever. Pesquisa do MEC aponta que o nível de conhecimento do país sobre o próprio idioma pouco muda da 5ª a 9ª série, ou seja, que não há significativa evolução no conhecimento dos alunos, apesar dos anos que separam as duas séries. Eles não conseguem, em média, entender a intenção do autor em histórias em quadrinhos nem identificam a tese de textos argumentativos com linguagem formal.
O domínio das regras gramaticais não assegura a qualidade da escrita de ninguém. É comum o exemplo de grandes palestrantes que não conseguem organizar sua

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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