É bem provável que boa parte dos brasileiros, falantes nativos da língua portuguesa, afirmem com veemência que não sabem português. Ora, nos comunicamos nesse idioma todos os dias; falamos e os outros entendem. Como não sabemos português?!
Essa convicção tem origem nada escola, onde o português é apresentado como uma língua estrangeira ao aluno, mesmo que ele a tenha adquirido naturalmente e com a qual se comunique eficientemente.
Aprender uma língua é próprio à capacidade humana. O indivíduo, desde o nascimento, adquire a língua em contextos informais do dia-a-dia –o que é preciso para sua sociabilização– e, para isso, não necessita de nenhuma tecnologia além da que já possui naturalmente. Sabemos, por exemplo, que o artigo vem antes do nome, que seria completamente errado falar “cachorro o”, e que podemos usar ordem direta ou indireta entre sujeito e predicado, como em ‘morreu o cachorro” ou “o cachorro morreu”. Enfim, conhecemos a organização lógica e as regras básicas da língua que falamos.
A necessidade de ‘aprender’ português na escola é ter o domínio consciente daquilo que já conhecemos inconscientemente, assimilar as regras que estão por trás da língua que usamos automaticamente, e conhecê-la profundamente é que permite usá-la com mais eficiência em situações específicas.
Outro ponto é que, para aprender a escrever, é necessário ir à escola, ser alfabetizado, treinar a coordenação motora, o que possibilitará escrever letras, agrupá-las em sílabas, sílabas em palavras, palavras em frases, parágrafos e textos. A tecnologia é importante no aprendizado da escrita: professores, metodologia adequada, livros, caligrafia, entre outras.
Falamos de um jeito e escrevemos de outro. A língua escrita é repleta de convenções para que a sua unidade não seja comprometida, por exemplo, convencionou-se escrever “manhã” com NH, mesmo que alguns pronunciem “mãiã” (como no Amazonas) e outros, “mãniã” (como no Pará). Se todos escrevessem como falam, não haveria comunicação na língua portuguesa escrita, isto é, não haveria entendimento nessa modalidade.
O problema é quando o professor trata o aluno como um deficiente, como um completo desconhecedor do idioma que utiliza diariamente. Nesses casos, é apresentada uma série de regras a serem decoradas, receitas de como se deve falar ou escrever. Todo o conhecimento que o indivíduo já possui quando chega à escola é desconsiderado, e quando este questiona o porquê de uma regra ou outra, tem como resposta: “desse modo é que é correto, você deve falar assim”.
Uma metodologia desse tipo é que cria aqueles que ‘não sabem português’. Durante os anos de ensino, aprende-se que tudo o que se fala está errado e decora certas regras que nunca encontra meios de aplicar. Que português estrangeiro é esse, que desconhecemos tão totalmente?
Ao invés de criar poliglotas dentro de uma mesma língua, ao longo dos anos, professores discriminam o uso do aluno, da sua família, da sua comunidade, o faz decorar regras sem ensinar suas aplicações práticas e cria cada vez mais “deficientes linguísticos”.
Não defendo de modo algum que a gramática sejam abolidas do ensino. Pelo contrário, desejo que ela seja ensinada de maneira que seja possível aprender a usar adequadamente a norma culta, que é um domínio importante por seu status social, porque é o veículo utilizado nos livros, jornais escritos e falados, na cultura.
Por outro lado, saber gramática não é o mesmo que saber escrever. Pesquisa do MEC aponta que o nível de conhecimento do país sobre o próprio idioma pouco muda da 5ª a 9ª série, ou seja, que não há significativa evolução no conhecimento dos alunos, apesar dos anos que separam as duas séries. Eles não conseguem, em média, entender a intenção do autor em histórias em quadrinhos nem identificam a tese de textos argumentativos com linguagem formal.
O domínio das regras gramaticais não assegura a qualidade da escrita de ninguém. É comum o exemplo de grandes palestrantes que não conseguem organizar sua
Você sabe português?
Em: 4 de abril de 2008
O indivíduo, desde o nascimento, adquire a língua em contextos informais do dia-a-dia –o que é preciso para sua sociabilização– e, para isso, não necessita de nenhuma tecnologia além da que já possui naturalmente.
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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