Para quem vive em uma capital, procurar atendimento médico pode significar atravessar alguns bairros. Para milhares de famílias do interior do Amazonas, essa mesma necessidade pode exigir horas ou até dias de viagem de barco.
Em nosso estado, as distâncias impõem desafios que, muitas vezes, são difíceis de imaginar. Há comunidades localizadas a quatro horas das sedes municipais e outras que se chega somente depois de mais de um dia de deslocamento. Em contexto de seca, esse cenário se agrava.
Em uma viagem de julho que acompanhei a inauguração de dois pontos de atendimento no município de Carauari, por exemplo, foram necessárias cerca de 36 horas para alcançar o destino, sem contar o tempo entre comunidades.
A dimensão territorial ajuda a compreender esse desafio. O Amazonas possui mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e uma densidade demográfica de apenas 2,53 habitantes por quilômetro quadrado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Um estudo realizado com moradores de comunidades ribeirinhas de Coari, no interior do estado, mostra como essa geografia interfere na vida da população. Os participantes precisavam navegar, em média, 60,4 quilômetros e levar aproximadamente 4,2 horas para chegar à área urbana do município. Dependendo da distância, do tipo de embarcação e do período de cheia ou seca dos rios, o percurso podia durar até três dias.
Esse tempo de deslocamento não afeta apenas a rotina das pessoas. Também significa gastos com combustível, alimentação e hospedagem, ausência do trabalho e afastamento da família.
Diante dessas realidades, precisamos refletir: o acesso à saúde chega a todos de maneira democrática e segura? Na Amazônia, implementar qualquer iniciativa é como começar uma partida de futebol com 3 gols de desvantagem. Os custos são mais altos, a logística é complexa, a comunicação é limitada e os serviços públicos nem sempre conseguem chegar de maneira contínua a esses lugares.
Por isso, precisamos nos reinventar sem perder de vista o objetivo central: fazer com que as pessoas tenham acesso a direitos, independentemente do lugar onde nasceram ou escolheram viver. Essa reinvenção começa pela escuta das comunidades. É algo que sempre digo quando estou nos territórios: eu vim para escutar e aprender. Não podemos chegar a esses lugares acreditando que já conhecemos suas prioridades. Uma solução considerada fundamental por técnicos, financiadores ou gestores pode não corresponder à necessidade mais urgente dos moradores.
Implementar projetos que propõem uma melhora na qualidade de vida exige uma visão integrada. E exige, sobretudo, que as políticas públicas, os investimentos sociais e as tecnologias cheguem aonde as pessoas estão.
O projeto SUS na Floresta é um exemplo desse esforço. A iniciativa busca fortalecer a Atenção Primária à Saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas por meio da estruturação de um sistema de telessaúde integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O projeto é realizado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Fundo Vale e a Umane, com a gestão da parceria feita pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). Conta ainda com o apoio técnico das prefeituras de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã, Uarini e Eirunepé, além da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema).
Essa experiência ganhou força durante a pandemia de Covid-19. Naquele momento, quando a circulação estava ainda mais limitada e centenas de comunidades precisavam de informação e orientação, foi necessário utilizar os recursos disponíveis, como o rádio, a internet e o atendimento remoto. A pandemia nos obrigou a encontrar novas formas de chegar às pessoas.
O que começou como uma resposta à emergência contribuiu para a construção de uma solução mais estruturada e integrada ao SUS. Esse processo também nos ensina que a tecnologia, sozinha, não resolve desigualdades. Para funcionar, ela precisa estar acompanhada de conectividade, profissionais capacitados, articulação com os municípios, participação das comunidades e continuidade dos investimentos.
A verdadeira inovação não está apenas no equipamento ou na plataforma utilizada. Está na capacidade de reunir o poder público, organizações da sociedade civil, financiadores, profissionais e moradores em torno de um objetivo comum.
O Amazonas possui dimensões continentais e uma enorme diversidade de realidades.
Uma política que funciona em determinada comunidade pode precisar de adaptações para alcançar resultados em outra. É necessário respeitar os tempos, os modos de vida e as características de cada território. Melhorar a qualidade de vida das populações do interior significa criar condições para que elas permaneçam em suas comunidades com saúde, dignidade, renda e acesso a oportunidades. Significa garantir que viver distante de uma capital não seja sinônimo de viver distante dos direitos.







